Pandemia faz disparar a fome

Nota da Redacção

Urge mobilizar a sociedade portuguesa para as consequências de uma crise profunda que grassa pelo país e vai crescer a partir do inverno quando muitas empresas sairem do lay-off e não reabrirem as portas.

O que se descreve abaixo é apenas e quase uma “nota de rodapé”, uma chamada de atenção. Falta falar das famílias que não pagam ou vão deixar de pagar rendas de casa, por exemplo.

Em Cascais foram implementadas as caixas solidárias junto aos supermercados onde as pessoas depositam bens e outras recolhem, mantendo a necessária dignidade.

Os municípios devem reformular investimentos prevendo uma crise profunda que se avizinha velozmente.

. 23 dos 178 municípios ( que responderam ao inquérito) optam por vales que são trocados no comércio local

. Crescimento exponencial dos apoios é uma emergência em curso com tendência para agravar

. Na Sertã, o Banco Alimentar regista um acréscimo de 46% e a distribuição de cabazes aumentou 28,8%

. 87% dos concelhos reforçaram resposta ainda no confinamento

. Algarve é a região com mais carências

Mais de 89 mil pessoas precisam da ajuda dos municípios para ter o que comer todos os dias.

A pandemia trouxe mais fome ao país, com famílias que tinham vidas estáveis a perderem todo ou parte do seu rendimento.

As carências agigantam-se e a maioria das autarquias une esforços com o Estado e as instituições sociais para alimentar a população, reforçando a entrega de refeições, de cabazes e até de vales que podem ser trocados por alimentos no comércio local.

O mapa da fome não distingue regiões, embora tenha uma presença particularmente penalizadora no Algarve, onde o desemprego disparou.

Das 178 câmaras que responderam ao inquérito do JN, só quatro não possuem programas de apoio alimentar direto ou indireto (em parceria com IPSS, juntas, paróquias e/ou Segurança Social) e 87,3% sentiram necessidade de reforçar a oferta durante e após o confinamento, confrontadas com o avolumar dos pedidos de auxílio.

Ovar, o único concelho sujeito a cerca sanitária, passou de 585 cabazes mensais (2094 pessoas) para 741 cabazes (2949 pessoas).

Subida de 220% em Lagos

Boa parte dos municípios necessitou de muscular as suas redes sociais, confrontados com a nova pobreza (gente que, subitamente, ficou desamparada, incluindo imigrantes e migrantes), injetando mais dinheiro no apoio alimentar, como sucedeu em Coimbra, Sintra e Maia. Aliás, Coimbra, Maia, Vila Real e Paredes falam num “aumento exponencial” das solicitações. Odivelas regista uma subida de 60% entre abril e junho e está a assegurar 1670 cabazes e 4905 refeições por mês.

No Porto, criaram-se “novas respostas, especialmente junto de pessoas em situação de pobreza, sem abrigo e idosos isolados”, especifica a autarquia. Este ano, a rede de restaurantes solidários fornecerá 130 mil refeições. Já Gaia, a par da entrega de cabazes a crianças, a idosos e a dependentes, deu quase 30 mil refeições desde março.

Além da oferta de kits de emergência e de garantir 200 mil refeições aos alunos carenciados e aos seus acompanhantes, Sintra investiu 119 mil euros no reforço da resposta social. O “acordo pós-covid” prevê a distribuição de 22.500 kits de refeições. Coimbra libertou 158 mil euros suplementares e a Maia investiu mais 120 mil euros. Também em Loures o número de beneficiários está a aumentar desde a pandemia: já são cerca de 13 mil pessoas.

No Algarve, repetem-se os relatos. “Desde o início do estado de emergência, registámos um aumento de 220% do número de famílias abrangidas devido ao aumento das necessidades, em função da diminuição da atividade económica e do rendimento disponível”, explica a Câmara de Lagos. Antes da pandemia, dava 120 cabazes por mês. Agora, supera os 660.

Loulé teve “necessidade de ativar dois refeitórios”, que já confecionaram mais de 24 mil refeições. Uma resposta complementada por 1119 cabazes. Faro chegou a 900 pessoas. Albufeira entrega 307 cabazes mensais a 771 pessoas. Olhão serve refeições a 600 pessoas e entrega 550 kits de alimentos por mês. Portimão, que garante 775 refeições por dia e apoia a doação de cabazes a 532 famílias, também atribuiu um cartão para compras de primeira necessidade a 84 famílias.

59% dá refeições e cabazes

Mais de metade (59%) das autarquias combina uma bateria de soluções para travar a fome. Há 103 câmaras a doar refeições e cabazes de alimentos e de produtos de higiene. Outras somam ainda vales para abastecer as despensas.

São os casos de Portimão, Gondomar, Cerveira, Azambuja, Figueira da Foz e Torres Vedras, com uma tripla terapêutica de refeições, cabazes e vales para trocar nas lojas, dando a mão aos empresários locais.

A Câmara de Gondomar, que quadruplicou o investimento nesta área, está a dar 239 vales, além das 17 mil refeições entregues entre abril e julho.

A Azambuja duplicou a oferta de cabazes (280 pessoas por mês) e aumentou o valor per capita do cheque social a 79 famílias por mês. A Figueira da Foz já decidiu que o programa Figueira Vale Mais, que faz chegar a ajuda de 50 euros a 51 pessoas, se manterá até ao final do ano. Torres Vedras distribuiu 261 vales entre maio e julho e Paredes de Coura, com nove mil habitantes, mata a fome de duas mil pessoas por mês com vales e 750 cabazes.

23 dos 178 municípios dão vales aos carenciados para a compra de bens de primeira necessidade, como por exemplo, Amarante, Mafra, Alenquer, Tavira, Vale de Cambra, Famalicão, Lousã, Melgaço, Azambuja e Penacova.

Chaves

Chaves entregou, até 15 de julho, cabazes e refeições a 926 pessoas. A câmara traça o retrato da nova carência no concelho: são “maioritariamente indivíduos em idade ativa, entre 50 e 65 anos, e jovens desempregados, entre 20 e 30 anos”.

Sesimbra e Sintra

A situação dramática de perda de rendimentos de muitas famílias em Sesimbra levou a câmara a fornecer refeições a todo o agregado familiar dos alunos carenciados do Ensino Básico. “Verificou-se que existiam muitos familiares destas crianças com graves dificuldades financeiras”, explica. A ajuda chega a um total de 105 famílias. O mesmo aconteceu em Sintra.

Penafiel

O município atribui 220 cabazes de alimentos por mês a mais de 450 pessoas, em parceria com a Misericórdia. Foram incluídas todas as famílias com um rendimento per capita inferior ou igual a 200 euros.

Nazaré e Sertã

A procura de ajuda alimentar cresceu 35% na Nazaré: 20% correspondem a “novas situações e 15% a reforço da resposta”. Na Sertã, o Banco Alimentar regista um acréscimo de 46%, enquanto a distribuição de cabazes de alimentos subiu 28,8%.

Montemor-o-Velho

A Câmara garante a distribuição diária de pão, doado por uma padaria local, a 200 pessoas em situação muito vulnerável.

Amarante

A autarquia de Amarante criou um voucher para a compra de produtos alimentares no comércio local, com validade de 15 dias. Já foram entregues a 152 famílias desde abril.

Moura

O programa “Prato Quente” recolhe a comida que sobra nos restaurantes, supermercados, padarias, cafés, pastelarias e hotéis e entrega-as às famílias em privação. Desde abril, foram ajudadas 103 pessoas.

Mas este aspecto é a ponta do iceberg, se não se pode comer, como se pagam as rendas, a luz,água, etc, etc.?

  • Com a devida vénia ao JN e a Carla Sofia Luz

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