Temperatura a subir, convém saber

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Os incêndios flagelaram a zona centro de Portugal em 2017.

No Alto das Chãs, na serra da Arada, perto de Coimbra, um fotógrafo amador encontrou esta panorâmica assustadora. “Se o  inferno existir, terá de ser parecido com isto”, comenta.

No momento em que o BMW, lançado a alta velocidade, emergiu do fumo dos eucaliptos a arder  e se precipitou contra o seu carro de bombeiros, Filipa Rodrigues nem teve tempo para reagir. “Só tive tempo para pensar: ‘Vamos chocar’”, diz, massajando as marcas de queimaduras nos braços. O carro embateu neles e os cinco bombeiros voluntários cambalearam para fora do seu camião destruído em pleno inferno de chamas.

O Verão de 2017 estava a começar e os bombeiros tinham acabado de entrar num dos piores incêndios que alguma vez assolaram Portugal, prenúncio de uma nova era de mega-incêndios que em breve devastaria vários locais, de Espanha à Austrália. Assim que saiu do camião, Filipa, então com 24 anos, sentiu imediatamente os óculos de segurança a derreterem contra o rosto: quando os arrancou, a pele veio atrás. Piscou os olhos no meio do fumo e viu eucaliptos a voar, projectados pelos ventos e pelas maiores chamas que alguma vez vira.

Filipa não era profissional – à semelhança de três gerações de familiares do sexo masculino, pertencia aos bombeiros voluntários, o  regime de combate ao fogo que, desde a década de 1950, presta serviço na primeira linha de defesa contra incêndios nas povoações de várias acidentadas colinas calcárias do interior de Portugal.  Todos os verões, indivíduos de todos os estratos sociais – médicos, professores, carteiros, estudantes universitários – usam as férias para prestar serviço no quartel de bombeiros local, aguardando 24 horas por dia por uma chamada para combater o fogo.

Não era o primeiro incêndio florestal de Filipa Rodrigues, mas ela nunca vira nada assim: enquanto as chamas a perseguiam e aos colegas mais depressa do que eles conseguiam correr, com o camião a arder e os rádios derretidos, ela apercebeu-se de que iria morrer. Os colegas tentaram retirar os passageiros do interior do BMW. “Gritámos e voltámos a gritar, mas eles não reagiam”, conta. O calor obrigou-os a retroceder e foram impotentes para travar o incêndio que devorava o automóvel.

A coluna rodopiante de chamas que se encaminhava na sua direcção era imparável. “Parecia que o fogo ia consumir o mundo inteiro”, diz Filipa Rodrigues.

De certa forma, ela tinha razão. O novo tipo de mega-incêndio que eclodiu nas regiões montanhosas do centro de Portugal no dia 17 de Junho de 2017 foi a tempestade perfeita de fogo que ocorre quando a atmosfera crescentemente instável entra em contacto com uma paisagem pronta a arder. É também um aviso sobre aquilo que o futuro reserva aos ecossistemas de tipo mediterrâneo da Turquia à Espanha, Grécia e Califórnia, à medida que as alterações climáticas geram períodos de seca cada vez mais longos.

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A partir do  momento em que os incêndios florestais se tornaram o tema forte das notícias entre Julho e Setembro, a opinião pública exigiu maior investimento em meios de combate. A indústria de combate ao fogo cresceu exponencialmente.

“Portugal é o canário na mina”, afirma Tiago Oliveira, actual director da AGIF, a agência nacional de combate aos incêndios de Portugal. Em 2017, este perito em ciência de incêndios era responsável pelo controlo de incêndios da Navigator, a empresa de pasta de papel com um volume de negócios superior a 1.350 milhões de euros por ano, que planta eucaliptais em enormes extensões de terra para produção de pasta de celulose e papel.

Depois de quase ter morrido no incêndio de uma plantação em 2003 (dois colegas chilenos foram surpreendidos e morreram), Tiago Oliveira passou a debruçar-se sobre a razão pela qual os incêndios em Portugal parecem estar a agravar-se. Essa interrogação motivou uma dissertação de doutoramento e a publicação de vários artigos sobre ciência de incêndios, juntamente com investigadores e  universidades  internacionais. A sua conclusão é simples: em Portugal, tal como na região mais vasta do Mediterrâneo, estão a confluir duas tendências de longa duração: o abandono generalizado da paisagem rural, tornada economicamente irrelevante, aliado à indisponibilidade generalizada do Estado para se adaptar a viver com os incêndios. “E se o objectivo definido é eliminar os incêndios do ecossistema, então o fracasso está garantido”, afirma.

Existe um truísmo na relação entre civilização e floresta: quando uma avança, a outra recua. Entre a Idade do Bronze e a década de 1950, observa Tiago Oliveira, a civilização e a indústria apoiaram-se nos recursos fornecidos pelas florestas. “Os camponeses utilizavam a caruma dos pinheiros para compostagem, misturando-a com estrume. A lenha era usada para a fogueira de casa. As pastagens florestais alimentavam os animais domésticos. As resinas e a cera serviam para o uso caseiro”, explica.

Os mercadores e artesãos fenícios que navegaram Ebro acima no final da Idade do Bronze descobriram florestas antigas de madeira dura perfeitas para obter o carvão vegetal  necessário ao fabrico de espadas de qualidade superior, bem como os machados que alimentavam  as  forjas. Os seus descendentes indígenas cortavam as pontas de lança romanas com as afiadíssimas falcatas, espadas fabricadas na fornalha do carvão vegetal proveniente dos carvalhos das terras altas. Os romanos, que os derrotaram após laboriosos combates, abateram o que restava das florestas ibéricas para desenvolverem novas indústrias: a viticultura, a criação de cabras e ovelhas e gigantescas minas de prata apoiadas em andaimes e fundições.

“Na Antiguidade (romana), a paisagem portuguesa encontrava-se praticamente desarborizada”, afirma Pedro Bingre do Amaral, professor de ordenamento do território na Universidade de Coimbra. As sucessivas civilizações tinham-na aproveitado até ao tutano.

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De acordo com um relatório de 2017 da Comissão Técnica Independente, Portugal gastou cerca de 92,5 milhões de euros em meios de prevenção e combate a incêndios. De 2000 para 2016, o país investiu praticamente o mesmo em prevenção, mas os custos de supressão aumentaram em cerca de 12 milhões de euros.

No século XIV, as regiões montanhosas encontravam-se de tal maneira desflorestadas que os reis começaram a plantar pinheiros para controlar a erosão. Quando se registou a súbita expansão portuguesa dos Descobrimentos, cada nau de madeira que fazia a viagem de ida e volta entre Lisboa e a Índia ou a Capitania da Bahia, transportando riquezas, escravos e soldados do império português, precisava de cerca de dois mil carvalhos e um número equivalente de pinheiros.

A partir do início do século XX, porém (com um pico registado na década de 1950), esse padrão sofreu uma alteração. No início do século XX, 2% do território  português encontrava-se  arborizado. No final do século XX, essa percentagem disparara para quase um terço.

No artigo “Is Portugal’s forest transition going up in smoke?” (“Land Use Policy”, 2017), Tiago Oliveira e colegas encontram explicações sistémicas para a modificação gradual do uso do solo: na década de 1950, os materiais sintéticos produzidos a partir do petróleo substituíram as fibras vegetais e animais e os solventes e adubos químicos à base de petróleo e químicos inorgânicos substituíram produtos florestais tradicionais como o breu, a turfa ou a caruma. A pecuária industrial substituiu a carne obtida através da caça ou da criação de animais domésticos que pastavam no mato ou na floresta.

À medida que os habitantes do mundo rural abandonaram o território que outrora  satisfizera as suas necessidades essenciais, as árvores regressaram e com elas os incêndios.

Para a bombeira Filipa Rodrigues, esse  padrão, a que os geógrafos chamam “transição florestal” (o regresso da floresta às regiões agrícolas abandonadas) pode ser resumido numa única estatística bem palpável: quando o seu pai se apresentou como voluntário na sede dos bombeiros, na década de 1980, “trabalhavam lá 20 profissionais”. Agora há sete. Durante mais de um século, as montanhas foram-se esvaziando de população. Filhos, irmãs, primos, desceram da montanha e partiram – primeiro para Lisboa e dali para a Europa Central, para o Canadá, a África do Sul ou para o Brasil. “Temos um problema nas terras montanhosas e esse problema são as pessoas”, resume o bombeiro voluntário Hugo Carvalho, que trabalhou como carteiro na vila vizinha de Proença-a-Nova, vendo os velhos a morrer ou a abandonar a terra e as luzes da vila a apagarem-se.

As árvores instalaram-se em baldios e campos abandonados, encostando-se à erva alta e aos arbustos que facilmente se incendeiam, secando com o calor do Verão e transformando-se em combustível. Desceram pelos novos corredores verdes e entraram nas casas vazias, apontadas como lanças ao centro das povoações, com as suas sementes a espalharem-se pela acção dos ventos fortes provenientes do Atlântico.

No entanto, ao contrário das florestas primitivas da Antiguidade, estas novas florestas eram as descendentes silvestres, parcialmente selvagens e com contributos das florestas de pinheiro-bravo e de acácias e eucaliptos importados da Austrália. Por outras palavras: três espécies arbóreas de crescimento rápido, carregadas de óleos essenciais, cuja evolução as preparou para se disseminarem com os incêndios florestais.

Quando os incêndios intensos começaram a lavrar em extensões de terreno cada vez maiores do interior, o Estado português “viu-se prisioneiro da armadilha do combate aos incêndios”, afirma Tiago Oliveira. Perante a indignação da opinião pública, exigindo medidas proporcionais, o Parlamento português aprovou novas leis, comprou equipamento novo e apressou-se a optimizar meios para “eliminar” os pequenos incêndios com potencial para se transformarem em incêndios de maiores dimensões.

Entretanto, os problemas mais importantes do mundo rural abandonado, da sazonalidade dos bombeiros voluntários e do território repleto de espécies arbóreas facilmente inflamáveis ficaram por resolver, apesar de um primeiro aviso ocorrido no Verão de 2003. No Verão de 2017, após mais de uma década de eliminação agressiva de incêndios de pequena extensão pelos bombeiros, o interior encontrava-se carregado de combustível, à espera de uma faísca que ateasse o fogo.

No dia 17 de Junho de 2017, essa faísca chegou numa série de incêndios ateados nos vales em redor da vila de Pedrógão Grande, alimentados por ventos fortes, soprados por uma estranha trovoada extemporânea, que funcionaram como um fole, espalhando as chamas em três enormes frentes separadas de incêndio.

Nessa tarde de Junho, Filipa Rodrigues e os outros membros da sua equipa de bombeiros tinham acabado de apagar um pequeno incêndio com as suas mangueiras de alta pressão. Quando subiam a montanha na direcção de Pedrógão Grande, Filipa apercebeu-se de que a noite estava a cair cedo: havia tanta fuligem na atmosfera que o céu enegrecera.

Não o sabiam ainda, mas encaminhavam-se para um braseiro que pouca gente na Europa alguma vez vira. Uma dessas raras pessoas era o cientista de incêndios Marc Castellnou, profissional da Catalunha, na vizinha Espanha. Na qualidade de cientista principal do corpo profissional de bombeiros da Catalunha, Marc sentira-se perturbado, à semelhança do seu homólogo português, Tiago Oliveira, pelo aparecimento de incêndios com uma força e um poder destrutivo nunca antes vistos.

O poder de um incêndio, como me explica enquanto atravessamos de carro os pinhais perto da sua vila natal de Tivissa, rumo ao local onde se registara um incêndio no mês anterior, está relacionado com o combustível e a sua capacidade para se alimentar de oxigénio, dois factores que acompanharam o crescimento das florestas cada vez mais desordenadas.

Na formação dada aos seus bombeiros, Marc Castellnou servira-se da metáfora de “cinco gerações” de incêndios florestais: desde a primeira, quando as árvores começaram a cobrir paisagens inteiras da Península  Ibérica no início do século XX, provocando incêndios de dimensão inaudita; à quarta, quando a proliferação das árvores e a expansão urbana conspiraram para instalar um número cada vez maior de pessoas no “interface entre a área urbana e as áreas florestais”, complicando quaisquer planos de combate aos incêndios que até então se tinham baseado em permitir que o território afectado fosse triado.

A quinta geração correspondeu à fase em que grandes incêndios ocorridos em simultâneo exerceram uma pressão insuportável sobre  os recursos dos corpos de bombeiros.

Na quinta geração, “começámos a ser vencidos” pelos incêndios que nos cercavam e nos ultrapassavam. Em Janeiro de 2017, a Comissão Europeia enviou-o ao Chile, onde Marc assistiu a um fenómeno definitivamente pior do que qualquer outro que até então vira: o princípio de uma nova era de mega-incêndios. Um incêndio florestal é produto de uma potente reacção química não-linear, a libertação da energia retida nas ligações de carbono das árvores. A sua capacidade de expansão é directamente, senão mesmo exponencialmente, proporcional ao combustível disponível e à intensidade com que a atmosfera se encontra energizada e reactiva.

Os incêndios suficientemente potentes sempre tiveram capacidade para criar condições climáticas próprias. Os bombeiros da Península Ibérica com quem falei descreveram-me combates contra o tornado de fogo ou o temido cogumelo do piro-cúmulo, em que uma pluma de ar quente se ergue na atmosfera, para depois entrar em colapso, alimentando o fogo que a desencadeara.

Quando chegou ao Chile, Marc Castellnou viu uma circunstância muito pior: uma nuvem piro-cúmulo-nimbo, um sistema de fogo que atinge os limites do espaço.

“Nunca tínhamos visto nada deste tamanho. Nunca aconteceu na história do Chile”, afirmou a presidente Michelle Bachelet, ao visitar as cinzas de um território equivalente a seis vezes a área da ilha da Madeira que no espaço de dois dias fora reduzido a uma paisagem lunar – matando 11 pessoas e destruindo as residências de milhares de pessoas. Só na vila de Santa Olga arderam mil casas.

A recente instabilidade na atmosfera e os stocks de combustível das florestas sem limpeza conspiraram para esse desfecho, diz Marc Castellnou.

Mais tarde, alguns cientistas de incêndios como Craig Clements, da Universidade Estadual de San José, levantaram a hipótese de a pluma se ter tornado tão grande que atingira a troposfera: cá em baixo, no terreno, essa teoria teve uma consequência prática. “Não conseguimos combatê-la”, disse Castellnou. “Foi preciso recuar e tentar mudar as condições no terreno para travar o fogo.”

De regresso à Europa, o especialista informou a Comissão Europeia de que iriam provavelmente surgir incêndios de piro-cúmulo-nimbos na Europa dentro de cinco anos. Marc chamou-lhes “incêndios de sexta geração”. E acrescentou: “As condições actualmente existentes no Mediterrâneo serão as condições de amanhã na Europa Central.”

No entanto, o especialista subestimara a velocidade com que a situação se estava a alterar. Escassos cinco meses mais tarde, ele assistiu a uma filmagem ao vivo no quartel dos bombeiros de Pedrógão Grande, enquanto as chamas se erguiam acima da floresta onde a equipa de Filipa Rodrigues estava a entrar.

Era, como ele disse depois, uma repetição do que ocorrera no Chile, uma repetição do “cenário de pesadelo” que acontece quando os ventos frios do Atlântico encontram no seu caminho um Verão mediterrâneo quente. Nas terras altas de Portugal, os incêndios florestais arderam nas densas florestas abandonadas, sob uma atmosfera que vibrava com o calor sustentado, enquanto uma coluna de ar superaquecido e instável se erguia, como se subisse por uma chaminé acima das montanhas.

Centenas de turistas e viajantes de fim-de-semana em pânico, nada habituados aos incêndios que normalmente ocorrem no interior, fugiram por estradas estreitas e cercadas de mato, procurando a segurança da costa.

Muitos avançaram directamente para uma armadilha mortal. Por norma, o fogo dá tréguas durante a noite. No Mediterrâneo, contou-me o chefe dos bombeiros de Proença-a-Nova,  Tiago Marques, os bombeiros cercam o incêndio de dia e eliminam-no durante a noite, quando     a diminuição das temperaturas e o aumento da humidade abrandam a sua força.

Não era isso que estava a acontecer. Este incêndio, como mais tarde concluiria o cientista de incêndios Craig Clements, tornara-se demasiado quente. Em vez de abrandar o fogo, o orvalho da manhã ferveu a partir da frente das chamas, da mesma forma que a água ferve nas pedras da sauna, libertando um fluxo de vapor de água sobreaquecido que quase alcançou a fronteira do espaço. Ao acumular-se junto da fronteira gelada da atmosfera terrestre, o vapor condensou-se e precipitou-se sob a forma de granizo, empurrando uma massa de ar frio contra o topo do incêndio florestal.

Em qualquer reacção de combustão, mais compressão significa mais calor e mais potência: a veloz frente descendente fez a diferença entre um incêndio florestal e uma fornalha incontrolável.

Na filmagem feita em Pedrógão Grande, Marc Castellnou viu a frente descendente em colapso deprimir a coluna de fogo na horizontal, na direcção das árvores, agora atulhadas de viaturas. Ao cair da noite, e no espaço de poucos minutos, oito quilómetros quadrados de floresta, repletos de turistas em fuga, irromperam em chamas.

Perdidos no meio do fumo denso, os automóveis guinavam contra as árvores, contra as guardas de protecção da estrada e uns contra os outros, gerando pilhas e bloqueios rodoviários mortais à medida que o incêndio avançava mais velozmente do que alguém pensara ser possível. Era desse inferno que o casal aterrorizado do BMW fugia e no meio do qual Filipa Rodrigues e os seus companheiros estavam agora retidos. Cambalearam na direcção do BMW, a poucos metros de distância, mas foram obrigados a recuar por um calor que lhes escaldou a pele através do vestuário à prova de fogo. Viram as chamas engolir o carro.

Os bombeiros recuaram até um cruzamento, com a pele a borbulhar e os pulmões a empolar.

O camião e os rádios estavam destruídos e o incêndio aproximava-se a passo rápido.

Um dos colegas de Filipa viria a morrer, com os pulmões empolados pelo ar sobreaquecido. Os outros teriam morrido também se não fosse a intervenção do destino, sob a forma de uma carrinha de caixa aberta obrigada a voltar para trás pelo avanço das chamas.

Tiveram uma sorte excepcional. O destino das vítimas das chamas provocou um rasto traumático nas terras altas e na consciência dos portugueses em geral, sobretudo após os relatos e provas forenses encontradas nos fatais bloqueios rodoviários ocorridos na Estrada Nacional 236, rapidamente baptizada como Estrada da Morte. “Morreriam se tivessem corrido e morreriam se tivessem ficado dentro dos carros”, afirma a advogada Nadia Araceli Piazza, que perdeu o filho e o ex-marido nas chamas.

A causa da sua morte, bem como de outras 65 pessoas apanhadas pelo incêndio e mortas nesse dia de Junho, foi a “carbonização”. Muitas foram encontradas abraçadas aos seus entes queridos, de músculos retesados nos derradeiros momentos pelo calor das chamas.

Esta dinâmica, afirmam Marc Castellnou e Tiago Oliveira, tem-se registado em todo o mundo nos últimos três anos, à medida que os incêndios de sexta geração vão aparecendo em climas de tipo mediterrâneo por todo o mundo, sempre que os ventos frios oceânicos sopram sobre montanhas secas banhadas pelo sol, carregadas de plantas fáceis de arder.

Em 2018, 83 pessoas morreram na Grécia devido a incêndios alimentados por uma prolongada corrente atmosférica descendente, durante um Verão em que se registaram incêndios florestais, pela primeira vez na história, em todos os países europeus. No ano seguinte, um piro-cúmulo-nimbo, semelhante ao dos incêndios de Outubro de 2017 em Portugal, desabou numa longa cascata sobre chamas originadas por uma fuga de electricidade no Sul da Califórnia, onde o crescimento imobiliário descontrolado esbateu fronteiras entre áreas residenciais e áreas florestais, em detrimento das tradicionais linhas de corta-fogo. Noventa pessoas morreram e a vila californiana de Paradise quase foi varrida do mapa.

Marc Castellnou e Tiago Oliveira, director da agência portuguesa de combate aos incêndios, fazem parte de uma nova vaga de especialistas no combate a incêndios florestais convencidos de que a solução para o problema se encontra numa nova maneira de viver com o fogo.

Segundo estes dois cientistas de incêndios, a melhor estratégia consiste numa abordagem a tempo inteiro à defesa contra os incêndios em  vez da abordagem sazonal dos bombeiros. Defendem que o aparato do combate a incêndios terá de criar e manter linhas de fogo ao longo de todo o ano, de modo a aumentar a preparação para o combate aos incêndios quando estes acontecerem, mantendo igualmente a construção imobiliária longe das linhas de fogo estabelecidas.

No entanto, segundo Tiago Oliveira, o problemas dos incêndios não será resolvido sem que primeiro se desenvolva um novo tipo de paisagem rural, em que as pessoas voltem a valorizar a floresta e defendam a terra do fogo por terem voltado a utilizá-la, quer para apascentar ovelhas e cabras, quer para apicultura, turismo ou produção de energia de biomassa em pequena escala.

Esta solução não é tão atraente como comprar novos helicópteros de combate, reconhece com pesar. Também não tem o apelo romântico do regime de bombeiros voluntários. “Nunca houve uma pessoa louvada como herói por ter evitado uma crise antes que ela acontecesse”, reconhece Tiago Oliveira.

Mesmo assim, ele crê que o chamado modelo de governação policêntrica, termo da gíria político-científica para designar a delegação da autoridade e dos recursos nos habitantes, de modo a que estes resolvam os seus problemas a nível local, combinada com uma economia rural revitalizada, são a única solução de longo prazo capaz de permitir que o interior de Portugal ou outros ecossistemas mediterrâneos como a Califórnia, o Chile, a Grécia, ou Espanha, consigam gerir o seu enorme risco de incêndio – um risco que está a deslocar-se para norte, rumo aos territórios não preparados do resto da Europa.

Isto está a acontecer em alguns estudos de casos.

Em Proença-a-Nova, a empresa tecnológica Novatech tem agora a sua sede depois de sair de Lisboa. Dezenas de jovens trabalhadores estão a casar-se e a regressar a casas de campo onde aparam a relva e tratam dos pomares. Na vizinha aldeia da Ferraria de São João, o hoteleiro Pedro Pedrosa mobilizou os vizinhos para erradicarem os eucaliptos que infestavam a sua aldeia, criando socalcos plantados com sobreiros autóctones, cuja casca grossa funciona como retardador do fogo. A norte da vila, segundo Pedro Pedrosa, um carvalhal com duzentos anos travou o avanço das chamas antes de estas devorarem a vila inteira.

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Nestes mares de chamas alimentados por combustível praticamente infinito, os bombeiros aprenderam a técnica fundamental: mitigar e conter o incêndio durante o dia e atacá-lo durante a noite, quando aumenta a humidade.

Precisamos de abandonar a abordagem de cima para baixo”, declara o director da agência de gestão integrada de fogos rurais.

Durante demasiado tempo, as populações rurais contaram com a autoridade estatal centralizada ou com o regime de bombeiros voluntários para resolverem o problema dos incêndios florestais. Se conseguirmos servir-nos do perigo dos incêndios para inspirar uma recolonização das regiões rurais do interior, afirma Tiago Oliveira, “Portugal pode ser um estudo de caso para o resto da Europa”.

Contudo, ele sabe que há uma bomba-relógio a fazer tiquetaque nos bastidores. As mudanças feitas em Lisboa ainda não se enraizaram no mundo rural, onde pinheiros ardidos continuam  a espreitar nas colinas desnudadas como escovas de dentes gastas. Em muitas regiões, já há eucaliptos atarracados, carregados de óleo, a crescer no solo acastanhado. Uma das repercussões surreais de várias gerações de negligência nas terras montanhosas por parte da administração central é o facto de o governo não saber quem são os proprietários de grande parte das terras do interior, o que inviabiliza quase por completo a adopção de políticas públicas de ordenamento do território, embora esteja em curso um cadastro ordenado pelas autoridades nacionais.

Em contrapartida, a população rural, segundo a antiga bombeira Filipa Rodrigues, está mais enfraquecida e mais desmoralizada do que nunca. Dois anos depois dos incêndios de 2017, a experiência da tempestade de fogo deixou-lhe cicatrizes no espírito e nas extremidades do corpo. “Nunca tínhamos falhado antes”, diz ela em sua casa, em Castanheira de Pêra. “Agora, basta-me ver fogo e começo a tremer”, diz, apontando para a lareira. “Vivemos todos os dias com as consequências do que aconteceu e as pessoas que perdemos.”

Torna-se fácil, afirma, abandonar as terras que as outras pessoas já estão a abandonar. Filipa não quer partir, mas, com uma economia local limitada, uma filha jovem e um grave risco de incêndio no horizonte, não tem a certeza de conseguir ficar. A maior parte dos seus amigos vive em Lisboa, enquanto a vegetação vai crescendo nos terrenos das famílias deixados para trás.

Todos os dias vê eucaliptos a crescer, de forma descontrolada, a poucos metros da casa onde dorme.

Não sabe quem é o dono do terreno, nem quando saltará a próxima faúlha.

  • Com a devida vénia a Saul Elbein e ao National Geographic
  • ** Gotos Getty imagens

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