Covid-19, O “milagre” de Idanha-a-Nova

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Rodeada por zonas de contágio e tendo uma fronteira aberta com Espanha, Idanha-a-Nova tem sido exemplar. Casos confirmados de covid-19: zero

Com o mapa do contágio pintado em seu redor e uma fronteira aberta com a Extremadura espanhola, onde o número de mortos já é tão elevado quanto os de Portugal inteiro, o concelho de Idanha-a-Nova tem sido exemplar.

Casos confirmados de covid-19: zero.

Não é uma feliz coincidência.

Tem subjacente uma estratégia e um ancestral ADN beirão. Que importa, como se diz por estes dias de pandemia, sequenciar.

O tráfego nas redes sociais está em permanente hora de ponta e as cidades mais desertas do que nunca, como territórios ambíguos de baixa densidade, com os domicílios transformados em prisões sobrelotadas.

Instalou-se um estado de sítio bipolar: quanto mais o confinamento dá os seus frutos, refastelado no sofá, mais atrofiam os músculos da economia, mais enegrecem as profecias macroeconómicas. Dá a impressão de que o mundo só agora percebeu o que é estar isolado.

“Quando esta tragédia que atinge a Humanidade terminar, é momento de refletir sobre como vivemos em sociedade. Esperemos que todos possamos aprender a viver num território que não precisa de ser tão assimétrico.” Palavras de Armindo Jacinto, presidente da Câmara de Idanha-a-Nova, o quarto maior concelho de Portugal, território do Parque Natural do Tejo Internacional, que integra a Reserva da Biosfera da UNESCO, um imenso património cultural num imenso património natural.

No léxico de Idanha-a-Nova, Cidade Criativa da UNESCO na área da Música, isolamento é uma expressão um tanto démodé, mais ou menos como os mitos urbanos sobre a ruralidade.

Há muito que Idanha fez o seu trajeto de sustentabilidade, não fosse também a primeira biorregião portuguesa.

Noutra altura que não esta, só requer gente. Neste momento, a todos os títulos inverso, o pesadelo é aquilo que o circunscreve. A Re­gião Centro, a segunda mais atingida pelos números de fatalidade da covid-19, tem no concelho de Idanha, com fronteira ativa com a Extremadura espanhola, um exemplo de resistência à pandemia. Não é que este coronavírus, como está amplamente comprovado, tenha complacência pelo Interior. Não há coincidências. Um zero envolve muita logística.

A desinfecção das ruas e dos espaços públicos tornou-se norma. Gel, máscaras e luvas foram distribuídos nos supermercados e IPSS

Quando foi decretado o estado de emergência nacional, o plano de contingência idanhense já estava delineado. Em articulação permanente com as autoridades (GNR, SEF, unidade de saúde local, bombeiros e juntas de freguesia), foram estabelecidas medidas para apoiar a população, empresas e instituições. Os espaços, equipamentos e serviços presenciais, assim como a rede de transportes municipais, foram imedia­tamente encerrados.

Num concelho onde a cultura é pedra filosofal, foi também imediato o “adiamento de todas as atividades e eventos públicos da responsabilidade do município ou em parceria: espetáculos, eventos sociais e culturais, desportivos ou recreativos”. A Good Mood, sediada em Idanha, que organiza o Boom Festival, que traz ao concelho milhares de pessoas de todo o mundo, anunciou, em paralelo, que o evento foi adiado para julho de 2021. Como sempre, na lua cheia.

Com o município em estado de alerta e a activação do Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil, houve que adoptar medidas eficazes, adaptando-as às necessidades de uma população muito envelhecida. E, dada a dimensão do concelho, duplamente isolada. Por via do estado de emergência, Idanha encerrou duas das três zonas de fronteira com Espanha (Salvaterra do Extremo e Segura), mantendo aberta a das Termas de Monfortinho. “Na Extremadura espanhola existe uma situação muito grave, com um número de mortos quase equivalente ao total de Portugal. Temos vindo a falar com as autoridades, com membros do Governo, com o próprio Presidente da República sobre esta preocupação”, acrescenta Armindo Jacinto. Assim que as zonas de fronteira aberta foram decretadas, a autarquia contactou imediatamente a GNR e os elementos do SEF para lá deslocados. “Todos eles foram testados antecipadamente à covid-19. São, aliás, testados de 15 em 15 dias. Conseguimos motivar algumas instalações hoteleiras e da restauração para dar apoio. Adquirimos material de protecção individual. Até aquelas pistolas para a GNR medir a febre.”

PECAR POR EXCESSO

Os testes de despistagem são a espinha dorsal de uma imensa logística. “Fizemos testes preventivos numa fase primária aos chamados trabalhadores essenciais — forças de segurança, trabalhadores da autarquia, bombeiros e, em especial, às pessoas que estão a trabalhar com as instituições que lidam diretamente com os mais idosos.

Temos mais testes de retaguarda, para as pessoas que possam ter os primeiros sintomas ou para trabalhadores que tenham de deslocar-se para Idanha”, diz o autarca.

O espaço fronteiriço, a população idosa e carenciada, a quantidade de pessoas que foram chegando ao território, redescobrindo subitamente o que é bom estar no campo com o vírus na cidade e o período da Páscoa a aproximar-se, formaram uma só dor de cabeça.

“As pessoas olhavam para o concelho de Idanha como livre do vírus e vinham como se fosse tempo de férias, com a ideia de poder andar por aí a socializar. Nós, em colaboração com as juntas de freguesia e com os comerciantes locais, fomos sinalizando essas pessoas, avisando-as de que tinham de ficar em confinamento.”

A autarquia apostou forte na prevenção. “Temos de estar permanentemente atentos, acompanhar muito a população, as entidades comerciais abertas, os que estão a servir as pessoas para que elas fiquem em casa.”

A política é a de estar preparado para o pior cenário. “Temos cerca de 200 camas para a eventualidade de isolamento social com infectados. Preferimos pecar por excesso”, acrescenta Armindo Jacinto.

Uma viatura deslocou-se a todas as aldeias, por todas as casas, para difundir por megafone informação sobre como actuar na pandemia

A desinfecção das ruas e dos espaços públicos tornou-se norma. Foram distribuídos dispensadores de desinfectante, máscaras e luvas nos supermercados e nas IPSS.

A distribuição de alimentos às famílias inscritas no Banco Alimentar e Social passou a ser integralmente ao domicílio, assim como a entrega de bens alimentares e de medicamentos para os mais vulneráveis.

Na fase mais grave da pandemia, coincidente com as férias escolares e com a Páscoa, foi fundamental fazer chegar a informação a todas as aldeias.

Às muitas pessoas idosas, algumas verdadeiramente isoladas, para quem a internet é ferramenta inútil, além da televisão e das juntas de freguesia, havia que informar devidamente sobre o modo de actuar durante esta crise sanitária. Teve de se usar métodos menos convencionais. Uma viatura sonora, alugada para o efeito, deslocou-se a todas as aldeias, por todas as casas, para difundir a informação por megafone.

Além de medidas de apoio às famí­lias, como a prorrogação dos prazos de pagamento sem juros de faturas dos mais diversos serviços, foi criada uma linha de apoio às atividades económicas, outra de apoio às IPSS e ainda outra de apoio psicossocial para toda a população, com cinco psicólogos. Estas linhas, aliás, funcionam de maneira inversa. “Somos nós a ligar.

A linha de apoio psicossocial, para apoio psicológico, transportes, apoio na entrega ao domicílio de medicamentos e bens essenciais, assim como de sinalização das pessoas que cheguem ao concelho, está em contacto permanente com as pessoas.” Por outro lado, a câmara está “a fazer um levantamento dos empresários e produtores locais, do sector primário, agroindustrial e agroalimentar, além da restauração, hotelaria e das diferentes áreas do comércio, para perceber as suas dificuldades e encontrar soluções que assegurem o presente e o futuro”.

É no futuro que as consequências desta crise se demonstrarão. E nem todas são negativas. “A sociedade vai ter de se reorganizar. O teletrabalho representa uma oportunidade para este país, para não estar tão concentrado em áreas urbanas.

E poder fazer o seu trabalho a partir de áreas rurais, onde se pode viver com saúde, melhor ambiente e qualidade de vida.”

O concelho voltará a abrir os seus braços. Mal o abraço seja autorizado.

  • Com a devida vénia ao Expresso e a Luís Pedro Cabral

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