João Morgado em grande destaque

João Morgado em destaque

Depois do sucesso em 2010, o provocador «Diário dos Infiéis» regressa pela mão da ‘Casa das Letras’ (LEYA) 

– este romance vai já na 3ª edição e continua a surpreender os leitores pela sua incursão telescópica à intimidade dos casais.

Este é já um livro recomendado por terapeutas, para instigar reflexões e debates sobre o relacionamento dos casais…

parece um livro romântico mas destapa muitas feridas

– como viver num casamento sem amor? sem desejo? Sem comunicação? Como manter a ternura, a cumplicidade? Como ser fiel a si mesmo?

Um desafio à leitura!

Diário dos Infiéis

Diário dos Infiéis

– veja a entrevista com o autor: João Morgado

https://escritores.online/joao-morgado-video-3/
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«Parece que João Morgado já leu tudo sobre o amor, de Ovídeo a Stendhal (…) 

tem uma escrita compacta e assertiva. Isto é, cheia de pensamentos categóricos, 

de uma escrita vivida, conclusiva…»

Manuel da Silva Ramos – escritor

Saiba mais do livro em:

Excerto:

«…Disse à porteira que era o pai da Diana, e esta abriu-me a porta do seu apartamento. Invadia sem pudor a sua privacidade, pelo que me revoltava comigo mesmo. Sabia de antemão que encontraria apenas gumes de facas onde me ferir. Sabia disso. Sabia que o ciúme me arrastava para um pedaço de inferno do qual a minha alma jamais voltaria sem chagas. Mas entrei. Entrei casa adentro com a mesma incontida atracção das traças pela luz. Passei os olhos pelo lavabo com lingerie pendurada no rebordo banheira, pela cozinha por arrumar, e entrei no seu quarto.

Sentei-me ao fundo da cama por fazer, a tentar reconhecer o cheiro da Diana, a imaginar como o seu corpo tinha ocupado as formas enrugadas daqueles lençóis pretos. Reconheci-os. Deixei as mãos deslizar por eles como se a tentasse acariciar. Mas as roupas emanavam um cheiro promíscuo a sexo. Não senti o meu cheiro. Apenas um cheiro intenso de homens ausentes que profanavam o leito que tinha como meu, a mulher que tinha como minha. Senti suores frios percorrendo-me o corpo e lágrimas negras caindo sobre os lençóis, mas que não era suficientes para tingir ou apagar as infernais máculas de prazer ali derramado.

Tive vontade de fugir, mas não consegui. De uma forma doentia, ainda revolteei o caixote do lixo. Ainda remexi nos papéis sujos até enojar as mãos…. Corri então para os lavabos, vomitei. Fiquei de joelhos com a cabeça caída na sanita, com o coração a regurgitar fel no vómito que me saía das entranhas… O ciúme implode o coração. Torna-nos inimigos de nós próprios, como uma demência que nos cega e nos sangra.

Fora de mim, sentindo-me vulgar, voltei ao quarto. Estava branco, sem forças, mas varado pela raiva. Revoltei as gavetas e espalhei tudo pelo chão. Arranquei as roupas dos armários sem suportar o cheiro que vinha dela. Despejei os velhos discos de vinil, o rádio a pilhas, os colares, as pulseiras, o estojo de maquilhagem, os perfumes baratos… Reconheci ainda um frasco de aftershave que fora meu, já quase no fim… Com loucura, arrastei para o chão tudo o que estava na sua secretária, as revistas, os cadernos, as folhas de apontamentos, os livros que abriram as páginas e vomitaram fotografias minhas mas também de outros homens. Pisei-as com desprezo. Estava tão fora de mim que não me reconhecia. Em cada gesto sentia que me feria com uma navalha, me mutilava, me destruía, me tornava ordinário.

Numa das gavetas, junto à cama, encontrei rolos fotográficos por revelar e um diário. As minhas mãos tremeram ao abri-lo. O filme dos últimos dias da Diana corriam na frente dos meus olhos, ainda que estes se dilacerassem nas letras e mal conseguissem ler. Ali estavam descritas as suas aventuras, as suas últimas entregas, os seus sentidos poemas, as suas íntimas confissões. Absorto e perdido, nem me dei conta quando a Diana entrou em casa, acercando-se do quarto. Olhava-me da porta, incrédula, com as mãos na boca.

«Afonso, não leias», murmurou, «isso não significa nada… Isso não significa absolutamente nada, não leias», repetiu.

Levantei-me em direcção a ela. Temi por mim próprio. Tinha vontade de a destruir ali mesmo. Agarrei-lhe os cabelos compridos e atirei-a contra a parede. Agarrei no diário, coloquei-o bem na sua frente e gritei-lhe no rosto todos os nomes dos homens que tinham passado entre as suas pernas… Gritei-lhe todos os nomes, como a exorcizar os demónios que a tinham possuído. Ela não dizia nada. Não chorava. Apenas tremia de olhos abertos, muito abertos. Mesmo na raiva, reconheci-os. Eram os mesmos olhos onde eu tinha lançado pássaros aos céus, onde havia semeado sonhos. Eram os mesmos olhos. Eram aqueles mesmos olhos, mas que agora me fitavam com pavor. Com uma força incontrolada, atirei-a violentamente para cima da cama. Avancei sobre ela… mas voltaram as lágrimas negras e cegaram-me. Deixei de ver.

Arrastei-me para fora de casa, cambaleei pelas escadas do prédio, arrastei-me pelas ruas como um rafeiro enxotado, desonrado e sem olhos.

Retornei de novo ao sofá. Os dias que passavam por mim encontravam-me sentado, a imaginar a Diana como uma águia de asas abertas sobre o desejo. Voando para longe, seguindo as correntes de ar que sopravam dos oceanos, onde eu permanecia submerso, incapaz de a salvar ou me salvar a mim próprio. Tinha perdido a alma. Apenas sentia nos tímpanos a pressão do fundo dos mares e uma imensa escuridão nos sentidos. Ali permanecia, respirando lentamente como um peixe. Sentindo o sangue frio como um peixe. Vendo-me como um peixe alienado, que não fecha os olhos e por isso não pode sonhar. Os peixes não sonham. Se eu fosse um peixe, desses que pudessem sonhar, então, por certo, sonharia ser um peixe colorido dentro do aquário de águas quentes que era o sexo da Diana. Onde eu nadava como um peixe, um peixe feliz, nadando sem parar, húmido como todos os peixes…. Sentia falta da humidade agridoce do sexo da Diana, que sempre penetrara como um peixe, nadando feroz dentro dela… Mas ela tinha partido, e eu sentia-me louco, exilado do seu corpo como um peixe fora do aquário, sobrevivendo apenas nas gotas das minhas próprias lágrimas.

– Porque choras, pai? – perguntou a Dora.

– Não choro, filha. Estou a dar de beber a um peixe que existe dentro de mim.

A Dora colou-me os braços à volta do pescoço.

– Pai, és um poeta! – murmurou num sorriso.

– E tu um poema – respondi. Discretamente, meti no bolso a arma que tinha na mão… e abracei-a também com todas as forças. Foi quando senti de novo o sangue aquecer, abrasando as veias, afogueando o peito, inflamando vida…

Tinha sobrevivido de novo. E a Diana?…»

João Morgado

João Morgado

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