Sufragistas, feministas, sindicalistas às voltas no túmulo

Sufragistas, feministas, sindicalistas às voltas no túmulo

Feminista me assumo, e por isso, repudio a larga maioria das comemorações do dia dos direitos das mulheres, que por todo o país e espaços públicos, são promovidas.

Não por considerar que há uma forma mais correta de celebrar este dia, mas por considerar que se tem caído numa vulgarização e desrespeito por uma luta, muito longe de terminar no que à igualdade de género diz respeito.

O dia dos direitos da mulher surge devido a necessidade de romper com a Masculinidade Hegemónica, isto é, de romper com a supremacia do género masculino.

É internacionalmente instituído, no séc. XX, e acolhe o dia 8 de Março como seu dia, em jeito de homenagem às mulheres nova-iorquinas que morreram assassinadas por ousarem fazer greve por melhores condições de trabalho e pela igualdade de direitos, numa fábrica têxtil em 1857.

Estamos numa terceira vaga feminista, as lutas de outrora, não são mesmas de hoje no mundo Ocidental, mas há ainda todo um mundo subdesenvolvido, onde o género feminino, legal e juridicamente, é igualado a objeto.

Mesmo que não queiramos ver as anormalidades desse mundo muito longe do desenvolvimento, não nos podemos esquecer daquilo que falta caminhar para atingir a igualdade no mundo Ocidental.

No Ocidente, com todas as disparidades internas que este tem, de forma global, as mulheres continuam a ser vítimas de uma discriminação salarial; continuam a ser as maiores vítimas de assédio moral e sexual; continuam a liderar com larga maioria a lista de vítimas de violência doméstica; continuam como diria Temer a ser “belas recatadas e do lar”, longe dos espaços e órgãos de decisão; continuam a ser as responsáveis pelas lides domésticas; continuam a ser subjugadas à ideia do patriarcado: mulher sobre alçada de um homem.

É por tudo isto, que considero que todas as sufragistas, sindicalistas e feministas, dão voltas nos túmulos ao presenciarem as comemorações deste dia.

Tudo aquilo porque lutamos e lutaram tantos outros, se desvanece nestas ridicularizações permanentes e enraizadas do dia da mulher que são por tantos, promovidas.

O Município de Oleiros, do qual faço parte, não é exceção!

Vejamos, no dia 8 de Março decidiu oferecer às mulheres que são funcionárias da CMO, algumas lembranças.

Até aqui nada de errado, o problema é que os funcionários do género masculino, que fizeram a distribuição destes presentes, fizeram-no com uma tshirt com um corpo nu masculino estampado, o que é uma clara ofensa à integridade da mulher, não apenas por se incutir a velha ideia do patriarcado: mulher para satisfazer as necessidades do homem, mas também, porque incute um tipo de orientação sexual e de ritual de submissão às agraciadas com estas lembranças.

Não ficamos por aqui, as lembranças são: uma caixa de chocolates em forma de batons, sapatos de salto alto, perfumes e plumas, remetendo-nos de imediato para a ideia generalizada da futilidade da mulher e para a padronização da imagem que o sexo feminino tem de aparentar na esfera pública; uma flor; e panos para embrulhar a “merenda”, o que remete desde logo, para aquele que é aceitável como o lugar-comum da mulher – a cozinha.

Não acredito que estes festejos sejam para perpetuar, intencionalmente, a discriminação de género, considero apenas que é falta de consciência e conhecimento sobre a matéria que urge combater em todas as gerações.

Urge combater, inclusivamente, dentro do género feminino.

Urge incentivar as mulheres a repudiarem a escravidão que é aceite socialmente, pelo género em que se enquadram.

Por tudo isto, considero que, este dia deve ser celebrado com iniciativas de interesse público e de relevância no que à conquista de direitos e igualdades diz respeito e não com parvoíces que formatam comportamentos.

João Tomaz

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