Não há Natal em Alepoo, por Mendo de Castro Henriques

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Não há Natal em Aleppo

Natal é a festividade cristã em que um menino vem trazer a paz. Os meninos da Síria que conhecemos são Aylan Kurdi morto na praia, fugido de Kobani, cidade mártir das batalhas entre terroristas muçulmanos e forças curdas; e Omra Daqneesh numa cadeira de ambulância, coberto de sangue e poeira após um ataque aéreo russo…

Este será o Natal da nossa vergonha em Aleppo. Ninguém sai ileso.

A começar pela mínima culpa do silêncio de quem escreve estas linhas, mas que há muito conhece o hino da resistência de Niemoeller. “Um dia vieram e levaram o meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei…Sabemos como termina esta ladainha.

Falar sobre Allepo não exige ser especialista em geopolítica nem economia; exige compaixão. E essa escasseia entre quem presume saber o que passa com a massa de informações da net e wikileaks.

Informação não substitui discernimento, e contagia e intoxica a massa de pessoas que quer encontrar um culpado …quando o grande culpado é a falta de solidariedade em tempos de chumbo, a falta de ética em sociedades doentes que deixam à solta o terrorismo, o vencedor da competição entre poderes brutais.

Um dia saberemos a verdade sobre Aleppo.

Mas desde já sabemos que tudo começou há quase seis anos com a Primavera árabe, em março de 2011. Durante um ano, as pessoas saíam das mesquitas e protestavam contra Assad. Em resposta, o regime matou dezenas de manifestantes. Nas semanas seguintes, esses mortos eram usados ​​como mártires para inspirar novos protestos, e assim até à guerra civil.

 A Primavera Árabe foi uma criação das populações árabes.

Há muito racismo por detrás do argumento que foram os EUA e a Europa a conspirar: como se os tunisianos, líbios e egípcios fossem massas de gente ignara e prontos a serem manipulados pelos ocidentais. Foi genuína a revolta do estudante que se imolou pelo fogo na Tunísia; a dos tripolitanos que já não suportavam o jugo de Kadaffi; a dos egípcios que detestavam Mubarak, o carrasco e bom aliado dos norte-americanos. Claro que não houve Primavera Árabe na Árabia Saudita; e a do Iémen é esmagada noutra guerra remota.

O movimento de massas árabes ameaçou americanos e europeus. Mas os governos ocidentais alinharam com as novas forças emergentes e seu desejo de liberdade, entretanto muito frustrados.

No Norte de África, alcançaram-se equilíbrios instáveis. Sobrou a Síria, sem petróleo nem gás e com um mosaico de religiões e etnias coladas pelo regime de exceção do regime Baath desde 1963.

Queremos culpados pela deterioração da situação da Síria em guerra civil? Um deles foi o próprio Assad, cujo regime começou a matar quem exigia um novo governo.

Queremos culpados?

O Exército Sírio Livre com desertores do exército e civis guerrilheiros que iniciaram represálias contra o regime.

É uma força sunita mas inclui Alauitas, uma corrente xiita a que pertence o próprio Assad.

Queremos culpados?

Os jihadistas e outras forças islâmicas juntaram-se à luta contra Assad: a Frente de Nusra, controlada pela Al-Qaeda, apoiada com dinheiro e armas pela Turquia e Arábia Saudita, E muitos outros grupos menores com alianças mutantes. E por cima de todos, o califado terrorista DAESH ou IS.

Queremos culpados?

Os EUA e a UE que, uma vez iniciada a guerra civil, ajudaram a “oposição moderada” do Exército Sírio Livre com armas e apoios aéreos.

Queremos culpados?

A nova Rússia de Vladimir Putin que envia os Spetnaz a preparar o terreno e os aviões em bombardeamentos indiscriminados;

Queremos culpados?

O islamo-fascista Erdogan que colocou a Turquia a ganhar com a espoliação das riquezas da Síria, e controlou o tráfico de refugiados para a Europa.

A lista de responsáveis é grande.

Hillary Clinton recomendou as operações norte-americanas; os mercenários da Arábia Saudita e do Qatar na Jihad de Aleppo.

A Arábia Saudita e Turquia, potências sunitas.

O Irão, o poder xiita rival que controla o Hezbollah.

Quando os distúrbios da Primavera Árabe se desencadearam no início de 2011, a CIA e a frente anti-iraniana de Israel, Arábia Saudita e Turquia viram uma oportunidade de ganhar uma vitória geopolítica.

Regime change, no jargão neoliberal de Washington. O embaixador americano Stevens, foi morto em Benghazi enquanto dirigia uma operação da CIA para enviar armas da Líbia para a Síria.

O califado do DAESH, ou ISIS é até agora o único vencedor da guerra civil síria.

Mas é pouco provável que contra ele se consiga reconstruir um grande acordo dos culpados da guerra da Síria.

Até à queda de Aleppo, a regra era: a mudança de regime em primeiro lugar, o cessar-fogo depois.

Após a queda da Aleppo dos resistentes, a regra mudou. A política ocidental sofreu uma derrota. Assad cantou vitória com o apoio da Rússia e do Irão.

Os mercenários enviados para derrubar Assad são jihadistas radicais com suas próprias agendas, agora derrotados em Aleppo mas há uma semana reconquistaram Palmira.

A manipulação da comunicação social é grande. Até parece que ninguém sabia, que uma boa parte da Síria já estava destruída; que muitas das centenas de milhares de mortos já tinham morrido; que os oito milhões de refugiados já se estavam a refugiar.

Ninguém sabia? Alguns denunciaram. A Amnistia Internacional avisou desde o início da repressão pelo regime de Assad em março de 2011. O Vaticano avisou sempre desde 2011. Os médicos e capacetes brancos avisaram. A Organização para os Refugiados avisou. Ninguém ligou.

Não vai haver Natal na Síria para ninguém. Um dia saberemos o que se passou na Síria, sobre quem inventou o DAESH, sobre o que a humanidade tem de pior ao destruir um país que era viável.

Mas que haja Natal em nós, ao pensarmos ou rezarmos pelo quase meio milhão de mortos que a guerra já levou, dizendo Nunca mais, Aleppo!

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

  • Mendo de Castro Henriques, Colunista Especializado

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009. Lutamos arduamente pela defesa do interior, o apoio às famílias e a inclusão social. Batemo-nos pela liberdade e independência face a qualquer poder. Somos senhores da nossa opinião.
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