Análise post morten de um cataclismo americano ( breves apontamentos para um ensaio político)

Análise post morten de um cataclismo americano (breves apontamentos para um ensaio político):

  1. UM TERRAMOTO PSICOLÓGICO. Esta eleição não foi só um verdadeiro terramoto político. Foi um choque psicológico. Porque o facto de quase ninguém, da esquerda à direita, liberais ou conservadores, não esperar o resultado apenas significa que ninguém quis, consciente ou inconscientemente, pensar diferente, olhar para as coisas com mais atenção. Afinal os sinais estavam todos lá. Pressentimos todos que há em todo o mundo ocidental um verdadeiro sentimento reactivo anti-sistémico a brotar das profundezas das nossas sociedades , mas nós não queremos ver.
  2. UMA BOLHA. Estamos confortavelmente instalados e mentalmente formatados por um soft power mediático, cultural e social, que uniformiza e legitima o sistema político e expulsa a verdadeira divergência política e cultural para as margens ou até mesmo para a clandestinidade. O progressismo tornou-se arrogante e pouco dialogante e transformou todo o tipo de perdedores (perdedores económicos e perdedores culturais e perdedores sociais) em pessoas dispensáveis. Hillary Clinton teve duas frases assassinas e suicidas durante a campanha eleitoral que lhe custaram caro: quando qualificou os apoiantes de Donald Trump como um “basket of deplorables” e quando a respeito das novas energias alternativas não poluentes afirmou que os mineiros de carvão velha mono-indústria carbonífera da Virgínia Ocidental estariam rapidamente “out of the jobs”. Empurrando assim segmentos inteiros populacionais para um território sem esperança e sem representação política. Ali estava uma mulher da elite, rica, poderosa, íntima dos grandes do mundo, a deitar milhões de pessoas angustiadas e revoltadas para o lixo. E de certa forma todos sentimos e fazemos isto no debate político ou social em toda a Europa – na polémica ubber versus taxistas quando queremos encaixotar todos os taxistas no lixo da história, quando a comunicação social passa dias a louvar e engrandecer o evento da web summer em Lisboa deslumbrando-se e tentando-nos deslumbrar com os empreendedores, os ganhadores, um admirável mundo novo, esquecendo-se que milhões de pessoas estavam fora daquele circo, que fazem as suas vidas banais todos os dias, e que milhares deles em Lisboa passam horas apertados e desprezados no Metro e nos autocarros cada vez mais ronceiros e insuportáveis. A deslegitimação constante da crítica dos descontentes (em Lisboa os insultos aos automobilistas e a sua imediata catalogação como inimigos da cidade e da modernidade e uns atrasados de outro tempo a par da elevação social de uma minoria de ciclistas, por exemplo) e a catalogação em categorias negativas de todos quantos ousam questionar a marcha do progresso social emprateleirando todos os divergentes como racistas, sexistas, homofóbicos, ou islamofóbicos, está a transformar as nossas sociedades em sociedades duais, dividas entre dois tipos de maiorias, as convergentes e as divergentes, entre uma maioria oficial, pública e legítima convergente e uma maioria silenciosa, ilegítima e sem representação política, divergente.
  3. DUAS AMÉRICAS. Ora nesta eleição os deplorables falaram. E os divergentes encontraram em Donald Trump o instrumento de expressão do seu descontentamento difuso e escondido, mas real. Com efeito Hillary Clinton e os Democratas até ganharam no voto popular: Hillary teve pelo quase mais meio milhão de votos (mais 0,3%). Se nos Estados Unidos as eleições presidenciais fossem directas seria hoje a Presidente eleita. E se uma 2ª volta estivesse prevista no sistema americano, haveria uma 2ª volta entre ambos os candidatos (cada um na casa dos 47%) e provavelmente até a ganharia. E se Hillary perdeu no voto da maioria dos Estados representados no Colégio Eleitoral o facto é que perdeu alguns desses Estados por margens mínimas: por menos de 30 mil votos no Wisconsin e na Pensilvânia, e por menos de 12 mil votos no Michigan. Na cidade de Detroit se não tivesse perdido para a abstenção os votos de 70 mil antigos votantes em Obama, teria vencido o Estado do Michigan. Em Milwaukee, no Wisconsin, teve menos 40 mil votos do que Obama teve há 4 anos. E assim acabou por perder o Estado. Bastava-lhe ter tido assim cerca de 70 mil votos mais, assim distribuídos nestes 3 Estados, e hoje seria Presidente e nós todos estaríamos reconfortados com o facto de tudo ter corrido como o previsto. No Estado do Oregon, na Costa Oeste, foi eleita uma Governadora lésbica, a primeira da história americana. Vários Estados aprovaram a legalização do consumo da Marijuana. Mas esta América progressista não conseguiu impor-se. Foi a outra América, a de que não queríamos saber, a América que desprezávamos, que se impôs.
  4. MUDANÇA MESMO. Esta foi uma eleição em que o factor-chave foi o desejo de MUDANÇA. Mas uma mudança verdadeira. Um desejo tão grande de mudança que motivou em largas camadas populacionais uma vontade de ruptura. Foi isso que motivou que Donald Trump ultrapassasse as previsões no voto rural (cerca de 46 milhões de americanos ainda vivem nas zonas rurais) enquanto manteve consigo, apesar de tudo, a base tradicional republicana dos subúrbios da classe média-alta branca e afluente. Mas tendo também penetrado em algumas das zonas com maior nível de endividamento familiar. Economicamente não foi portanto uma eleição de pobres contra ricos mas foi uma eleição de pessoas ansiosas e angustiadas contra os instalados e conformados.
  5. UM NOVO PARTIDO REPUBLICANO. O velho Partido Republicano, defensor do comércio livre, do Estado Mínimo, suportado pelas elites, e campeão do intervencionismo externo, entrou em coma. É hoje eleitoralmente irrelevante. Hillary Clinton não conseguiu atrair para si os votantes tradicionalmente republicanos ou independentes. No Alaska, em Oklahoma, ou na Virgínia Ocidental, por exemplo, TODOS os condados destes Estados republicanos votaram em Trump. O voto mórmon republicano do Estado do Utah manteve-se em Trump apesar da sua personalidade repugnante para os padrões morais dos mórmons. Por exemplo, no condado de Elliot, no Kentuky, uma ilha de democratas brancos num mar republicano, foi a primeira vez que um candidato oficial republicano venceu as eleições em 148 anos, precisamente porque Trump é um republicano de outro tipo, inclassificável ideologicamente. Apesar do apoio da família Bush, do empenho de Michael Bloomberg, de apoiantes como George Soros ou Steve Forbes, ou Colin Powel ou Condoleeza Rice, Hillary Clinton não conseguiu capturar o antigo voto republicano. O antigo voto republicano foi engolido no tsunami da revolta Trump.
  6. AS ELEIÇÕES NÃO SE GANHAM SÓ COM DINHEIRO E COM CELEBRIDADES. Nada disso substitui o entusiasmo genuíno por um candidato ou uma candidata. Nem toda a popularidade do casal Obama, de Katy Perry,de Beyoncé e de Jay Z, de Bruce Springsteen, de Bom Jovi, todo o circo eleitoral, valem na hora de ir buscar as pessoas a casa para ir votar. Para se perceber melhor: votaram menos 4 milhões de eleitores nestas eleições e cerca de 9 milhões a menos do que há 8 anos. n e os democratas perderam nestes 4 anos cerca de 9 milhões de votos para a abstenção. Para a apatia. Para a frustração. Para o desinteresse. Donald Trump teve até mesmo menos votos do que o candidato republicano Mitt Romney derrotado na eleição anterior. Então donde lhe veio a vitória? A resposta está no factor ENTUSIASMO. Enquanto Trump manteve a sua base eleitoral coesa e motivada e leal (ele chegou a dizer que até podia dar um tiro e matar alguém em plena Quinta Avenida de Nova Iorque que os seus apoiantes não deixariam de votar nele) os votos democratas desapareceram. Sumiram-se. Grande parte deles não votou. 4 milhões!
  7. A DEMOGRAFIA TAMBÉM NÃO SUBSTITUI A EMOÇÃO. Hillary Clinton não teve tantos afro-americanos a votar em si como teve Obama. Não teve tantos latinos como teve Obama. Não teve tantos jovens. E pasme-se, não teve tantas mulheres. Donde se pode concluir que o sexismo repuslsivo de Donald Trump não foi um despertador para o voto das mulheres.
  8. A ESQUERDA AMERICANA PERDEU OS SEUS TRABALHADORES. Hillary aguentou os votos das elites nas costas Leste e Oeste, e nas grandes cidades cosmopolitas. Aguentou os Estados em transição demográfica herdados de Obama (venceu convincentemente na Virgínia e venceu também nos Estados do Sudoeste), e os democratas conseguiram até eleger o Governador da Carolina do Norte. Mas foi no tradicional e operário coração democrata do Rust Belt que Hillary Clinton perdeu as eleições. As derrotas na Pensilvânia, no Michigan e no Wisconsin selaram o destino destas eleições. Derrotas dolorosas: desde 1984 que os democratas não perdiam no Wisconsin, e desde 1988 que não perdiam na Pensilvânia. Os Sindicatos, cada vez menos representativos (actualmente apenas 11% dos trabalhadores americanos são sindicalizados) mas ainda uma força política considerável nestes velhos Estados industriais, não conseguiram mobilizar os seus operários.
  9. O CENTRO ESTÁ ENFRANQUECIDO. O Partido Democrata está agora sem liderança e sem direcção. Sem Presidente eleito, sem o governo federal, com as lideranças dos seus grupos parlamentares no Senado e na Câmara dos Representantes, ou de saída ou a pensarem sair (o senador Harry Reid, o homem forte dos democratas no Senado, vai sair da vida política, e Nancy Pelosi, a líder democrata dos representantes já tem 73 anos) O Partido Democrata não consegue ganhar o Senado, mantém-se minoritário na Câmara dos Representantes, na maioria dos governos e legislaturas estaduais. O seu aparelho está doente, desmoralizado, e tem falta de músculo político, de capacidade para atrair novos candidatos, fortes e apelativos. O senador Bernie Sanders terá 78 anos daqui a 4 anos. O senador Tim Kaine saiu desgastado e desmoralizado desta campanha eleitoral frustrada para ser Vice-Presidente. Na Nova Inglaterra perdeu os governos do Vermont (o Estado de Bernie Sanders) e do New Hamphire. Se nada fizer, se não encontrar uma liderança e um caminho, a sua crise chegará a outras regiões do país.
  10. UMA GUERRA CIVIL CULTURAL PARA A PRÓXIMA GERAÇÃO. Donald Trump vai ter o poder de nomear já um juiz para o Supremo Tribunal, desempatando assim a actual composição de 4-4 a favor de uma maioria conservadora. E durante o seu mandato terá provavelmente a oportunidade de designar mais 2 ou 3 juízes vitalícios (3 dos actuais juízes já têm mais de 80 anos) moldando assim a doutrina ideológica do Supremo Tribunal por uma geração. Haverá uma guerra sem quartel reaberta em torno do aborto, dos direitos das mulheres, dos afro-americanos, dos homossexuais, dos muçulmanos, dos emigrantes, dos trabalhadores. Depois da evolução agora a reacção. Serão tempos dilacerantes.

Mas serão também tempos interessantes: a América renova-se e muda. E também o Mundo está a mudar.

Já o sentimos na Europa. Já o vimos este ano no Reino Unido. Iremos vê-lo em França.

E ou saímos da nossa zona de conforto mental, e da prisão institucional e mediática e cultural em que estamos, ou não conseguiremos agir a tempo.

E poderá aí ser tarde demais.

Porque o progresso nunca está garantido.

Não há nada eterno.

Nem alianças, nem organizações, nem sequer países.

Carlos Reis

Carlos Reis

  • Carlos Reis, Colunista convidado

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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Uma Resposta a Análise post morten de um cataclismo americano ( breves apontamentos para um ensaio político)

  1. J. Vitorino diz:

    Trump ganhou as eleições, mas não ganhou a América; porque esta já estava perdida em ambos os candidatos. Foi uma campanha pouco digna para ambas as partes, onde o insulto e a lavagem de roupa suja, estiveram sempre presente. Se eu fosse cidadão americano teria votado em branco; porque nenhum dos candidatos estão ao nível para serem Presidentes daquela Grande Nação; porque quer queiram quer não, são o único garante da defesa do Ocidente e da Cristandade; face aos vários perigos vindos do leste. Parabéns pela análise das eleições americanas aqui deixada pelo Articulista Carlos Reis. J. Vitorino – Jornalista

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