Sócrates na Universidade de Verão das Mulheres Socialistas e Juventude Socialista

Num evento promovido pelas Mulheres Socialistas e pela Juventude Socialista de Lisboa, a presença na plateia de muitos cabelos grisalhos, e maioritariamente do sexo masculino, já fazia adivinhar – a quem por distração ainda não o soubesse – que o arranque da Universidade de Verão da distrital de Lisboa não iria ser apenas mais um evento de final de semana para militantes de base.

Pesos pesados do PS ausentes

Não estavam lá nomes sonantes do partido.

Mas estavam lá muitos, ansiosos por ver e ouvir o ex-primeiro-ministro.

E José Sócrates não defraudou as expectativas, com uma intervenção sobre “globalização” que acabou por ir parar aos “direitos individuais”.

Nomeadamente aos direitos do principal arguido da Operação Marquês, por oposição ao poder que considera ser dado “demais” a certos setores do Estado.

O ambiente em torno da presença do ex-primeiro-ministro, principal arguido do processo Marquês – é suspeito de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção -, já tinha começado a aquecer dois dias antes, com a eurodeputada socialista Ana Gomes a acusar a federação lisboeta de dar cobertura a “efabulações” do antigo líder do partido: “Vejo o convite com preocupação, porque vem de setores que acham que a imagem de José Sócrates é recuperável. Eu acho que ela é extremamente danosa para o PS e para o país“, disse então.

Susana Amador explicou convite

Naturalmente, a primeira coisa que teve de fazer Susana Amador, presidente do Departamento Federativo das Mulheres Socialistas, foi explicar aos jornalistas as razões do convite.

Fê-lo sem grande convicção, “lamentando a polémica”, defendendo que o convite a José Sócrates, para falar de globalização, se ficou a dever a ser “uma área que tem que ver com o seu percurso académico” – estudou Engenharia Civil na Universidade Independente e Ciência Política em Paris – e invocando os valores do PS, “um partido plural” e “um partido de homens e mulheres livres”.

Duarte Cordeiro, presidente da Concelhia de Lisboa, Diogo leão, da Juventude Socialista da capital, e a própria Susana Amador foram aquecendo os motores da audiência, arrancando ocasionais aplausos com referências a medidas do atual governo e críticas à atuação do anterior.

Mas ainda esta última rematava a sua intervenção e já metade dos olhares se desviavam ostensivamente para a esquerda, para a porta de onde iria sair a atração principal da tarde.

Quando finalmente chegou, não soou o tema do filme O Gladiador, como acontecia em tempos não muito remotos, mas José Sócrates – erradamente apresentado como “primeiro-ministro ” pela moderadora, que logo emendou a mão – teve ainda assim direito a uma entrada apoteótica (à escala do pequeno andar no edifício do Imaviz), com boa parte da plateia a recebê-lo com aplausos e de pé.

Referência ao Processo Marquês era inevitável

Dizia o programa que José Sócrates vinha falar de “Política externa e globalização”, mas este logo tratou de assumir que descartaria a primeira da sua intervenção. Sobre a globalização, o ex-primeiro-ministro encadeou uma reflexão, que começou nos julgamentos de Nuremberga e na emergência do direito individual – que classificou como o maior valor já exportado pela Europa, passou pelo tratamento dado aos refugiados por vários Estados europeus e por outras atitudes europeias que “ameaçam” esses valores, e fatalmente se aproximou do tema que todos esperavam, mesmo que não desejassem. “Prometi a mim próprio não falar [aqui] do processo em que estou envolvido”, disse, “mas quero falar deste aspeto: os poderes que estamos a dar demais ao Estado.”

Mais tarde, entre críticas à quebra do sigilo bancário, nova alusão, desta vez mais clara, “se queremos prestigiar as instituições, devemos dizer: “Cumpram criteriosamente a lei e respeitem os cidadãos.” Vocês sabem do que estou a falar.”

E no final, aos jornalistas, foi direto ao assunto: “O que eu acho que os portugueses esperam [do meu processo] é que o Ministério Público não abuse dos seus poderes.”

Declarações de Ana Gomes consideradas repugnantes (*)

Sobre as declarações “absolutamente repugnantes” de Ana Gomes, deixou o aviso: “Só abandono a política quando eu quiser e não quando outros o pretenderem.”

  • À margem da Conferência, o nosso jornal ouviu vozes perguntando ” ..quem é essa senhora…?

    José Sócrates

    José Sócrates

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