O “Daesh” e o Califado – Portugal, evidentemente na mira

AS ORIGENS DO CALIFADO E O IMPÉRIO ÁRABE-ISLÂMICO: “UM HARÉM DE SOBERANOS”

Com a devida vénia, pela importância, publicamos na íntegra a apresentação cedida e editada pelos profs. Rodrigo Teixeira e Rafael Ávila
No primeiro momento é preciso tomar cuidado em relação as políticas “orientais” para não cairmos nos relatos fantasiosos atribuídos aos povos da Ásia e da África.
A maioria dessas atribuições fantasiosas é apresentada pelos europeus, principalmente a partir do século XVIII, quando o Oriente se transforma na “menina dos olhos do Ocidente”.
E em nome do “progresso” e da “civilização” o imperialismo no Oriente foi justificado.

Para falarmos desse império é preciso considerar as suas origens e formação reforçando a relevância de se compreender seus elementos constitutivos e sua trajetória histórica a partir de uma experiência política polissêmica e plural, evitando a comparação com os modelos do império do Ocidente.

Para conferir mais seriedade a esse capitulo, Meihy ira debater as origens e formação do império árabe-islâmico a partir do califado.

Os europeus e os norte-americanos apresentaram um Oriente ao seu modo para dominar, reestruturar e ter autoridade sobre os povos orientais.

Em decorrência dos fatos colocados e dessa assimetria sobre o Oriente, debates entre os pesquisadores se tornaram intensos.

Na historiografia, a assimetria também é encontrada, como por exemplo, “despotismo oriental” e “teocratismo”, argumentos interpretativos que comprovam o fato de que os ocidentais queriam atribuir ao Oriente as características de um povo de ações irracionais e violentas.

Edward Said discute essa questão do Ocidente querer ser superior aos orientais e chama a atenção para a necessidade de se realizarem leituras mais críticas sobre os estudos “orientais” vindos de todos os lugares.

Para entender a história do império árabe-islâmico desenvolvido a partir do século VII, é preciso entender o sentido dos termos “árabe” e “islâmico” e as mudanças de significado que cada termo adquiriu em épocas distintas após a morte do profeta Maomé.

Alguns estudiosos falam das vicissitudes que cercam os conceitos de “árabe” e “islâmico”.

Um desses estudiosos se chama Miguel Attié Filho.

Esse afirma que o termo “árabe” faz referência “aos povos nômades do deserto da Península Arábica, em um antagonismo direto com a população sedentária que habitava algumas cidades da região” (p.72). Com a morte de Maomé e o surgimento do Islã, os “árabes” passaram a ser designados como aqueles que adotaram a nova religião e falavam a nova língua dos povos da Arábia.

Com a perda da hegemonia árabe sobre o poder político do império ao longo do século VIII, houve a necessidade de se criar um distanciamento conceitual entre os termos “árabe” e “islâmico”, pois a ascensão de líderes vindos de áreas fora da Arábia, mas convertidos ao Islã, criou a urgência de separar definitivamente essas categorias, fazendo com que a organização política desses povos influenciasse a maneira como os conceitos eram definidos” (p.72). Apresentação cedida e editada pelos profs. Rodrigo Teixeira e Rafael Ávila

O início da expansão do império árabe-islâmico entre os século VII e XI precisa ser entendida através de conceitos políticos desenvolvidos pelo Islã ao longo de sua história. Maomé (570-632) foi muito importante para a expansão desse império. A Península Arábica começou a receber muitas pessoas devido a nova religião.

O discurso islâmico resultou na afirmação do comércio e da religião como princípios básicos da nova organização política instituída por Maomé.

A religião foi a base para essa expansão, e suas fronteiras não eram fixas, fundamentando-se apenas na divisão simbólico-religiosa do mundo entre Dar al-Islam e Dar al-Harb.

A função do poder da política no mundo islâmico era apenas para criar garantias de defesa ao Islã e dar as condições necessárias para que os crentes fossem bons mulçumanos. Nesse caso, o Estado era o meio para esse projeto e não o fim.

O Alcorão precede a formação do Estado islâmico e, por isso, está mais preocupado na salvação dos fiéis do que com os princípios teórico-políticos da Umma.

O discurso islâmico resultou na afirmação do comércio e da religião como princípios básicos da nova organização política instituída por Maomé.

A religião foi a base para essa expansão, e suas fronteiras não eram fixas, fundamentando-se apenas na divisão simbólico-religiosa do mundo entre Dar al-Islam e Dar al-Harb.

Maomé marcou a estrutura política do Islã. Isso pode ser observado pela sobrevivência do seu legado após a sua morte e a inexistência de critérios fixos para a sucessão política.

Para substituir a figura do profeta foi criado o cargo de “califa”. O primeiro a ocupar o cargo foi o sogro de Maomé, Abu Bakr (570-634).

A função do “califa” se embasa na delegação do poder de Deus e de Maomé. Ele tinha autoridade sobre o povo. Abu Bakr em seu governo buscou controlar a comunidade de maneira que a mesma não entrasse em rebeliões de tribos que pretendiam reassegurar sua independência após a morte de Maomé.

Essas revoltas são conhecidas no Islã como movimentos de apostasia. Pode-se dizer que tais rebeliões não passaram de manifestações de tribos que queriam aproveitar as discussões sobre a legitimidade política do califa para romper os laços mantidos com o profeta.

Abu Bakr conseguiu aquietar as rebeliões e terminou a unificação da Península Arábica. Isso reforçou a figura de Abu Bakr.

Alguns historiadores têm pontos de vista diferenciados em relação à maneira de como as rebeliões foram sufocadas.

Karen Armstrong afirma que “Abu Bakr apaziguava as sublevações com sabedoria e clemência (…).

Ele lidou de maneira criativa com as queixas dos rebeldes e não houve represálias contra os que voltaram ao rebanho” (p.73). Robert Mantran alega que “contra as tribos separatistas, foram seus motivos de ordem religiosa ou não, Abu Bakr não tardou em usar a mão de ferro” (p.73).

O que se pode afirmar, é que esses conflitos favoreceram a criação de um exército islâmico forte e coeso. Em dois anos de governo, Abu Bakr estava com tropas prontas para expandir ainda mais as fronteiras do império. Umar ibn al-Khattab (586-644) foi o segundo califa.

Esse encontrou uma boa condição para a expansão territorial do império para além da Península Arábica.

Umar também recorreu aos hábitos guerreiros das tribos árabes para expandir a Dar al-Islam. Por causa de promessas de vultosas guerras, cada vez mais homens queriam ingressar no exército.

Esses homens serviram para alargar as regiões submetidas ao comando do califa, alterando significativamente as fronteiras políticas de todo o Oriente Próximo.

O império sassânida e o bizantino foram surpreendidos pelo crescimento da ameaça islâmica.

Em dez anos de governo, Umar anexou parte das terras sassânidas e a importante província bizantina do Egito e da Síria.

O uso dos camelos foi decisivo na vitória islâmica sobre os impérios orientais.

As condições de guerra favoreceram as tropas islâmicas. Isso porque elas se adaptaram melhor às imensas áreas abertas e enfrentaram as epidemias, diferente dos bizantinos e sassânidas.

Mesmo se mostrando vitoriosos militarmente em relação aos demais impérios, cabe dizer que a formulação do califado assumiu aspectos autocráticos já observáveis em persas e bizantinos.

Cada vez mais se via a concretização do projeto de Maomé nas mãos dos seus sucessores, que era a afirmação de uma religião universal para uma organização política universal.

À medida que se expandia o império árabe-islâmico, o Islã se adaptava ao novo mundo redesenhado por seu exército. E uma das provas dessa adaptação foi a incorporação de cristãos e judeus à Umma.

A aceitação da validade de textos sagrados de outras religiões monoteístas afastou a necessidade de converter ao Islã muitos povos conquistados.

Esses povos que não precisavam se converterem receberam o status de “protegidos”, mantendo o direito a sua tradição, desde que pagassem tributos ao império.

E assim, como outras civilizações, o Islã se apoderou da religião para expandir seu território. Mas não se pode afirmar que essa expansão não foi violenta.

Esses povos que não precisavam se converterem receberam o status de “protegidos”, mantendo o direito a sua tradição, desde que pagassem tributos ao império. E assim, como outras civilizações, o Islã se apoderou da religião para expandir seu território.

Mas não se pode afirmar que essa expansão não foi violenta.

Impérios que foram anexados ao Islã durante o governo de Umar.
1. Damasco (636)
2. Jerusalém (638)
3. Regiões egípcias (a partir de 639). Com a morte de Umar ibn al-Khattab, o império sofreu modificações, e levou consigo uma das fases de maior prosperidade do império árabe-islâmico. O terceiro califa foi Utham ibn Aftan (570-656). Esse califa conduziu o califado para a superação de uma nova barreira: o Mar Mediterrâneo.

Utham foi um líder impopular, isso porque ele representava a vitória da tribo curaixista, os omíadas de Meca na disputa pelo califado. Utham foi assassinado em 656. Ele deixou seu desprestigio e a sede de vingança por seu assassinato entre os omíadas.

E foi nesse clima de tensão que o quarto califa foi escolhido, Muawiyyan ibn Abu Sufyan. O cenário político nesse momento marcou o fim de uma fase de harmonia entre os integrantes da Umma.

Até o quarto califa, os povos islâmicos considerava esse período como o período dos califas Rashidum (os corretamente guiados). A partir do quarto califa se observa uma nova concepção na figura do califa. Com o quinto califado se instituía a hereditariedade como prática de sucessão. Houve então a concentração de poder, e esse poder se encontrava nas mãos dos omíadas. ganhando uma forma e caráter diferente daquela defendida por Maomé.

Os mulçumanos estavam divididos e temerosos, pois mesmo vencendo os inimigos externos, eles passavam por problemas internos. Muawiyyah fez algumas mudanças durante o seu califado, sendo elas:

1. Centralização do governo, transformando o califa numa figura mais poderosa;
2. Estreitou laços com os chefes tribais beduínos;3 Transmissão do poder por hereditariedade; 4. Transferiu a capital do império de Meca para Damasco. Após a morte de Muawiyyah, houve uma manifestação por parte dos xiitas na cidade de Medina para que não fosse transmitindo o poder ao seu primeiro filho, Yazid I.O segundo filho de Aftan, Talib Hussein, aliado aos xiitas, tentou impedir a posse, mas foi morto por tropas dos omíadas. A morte violeta de Hussein é lembrada todos os anos pelos xiitas. A questão sucessória do califado conseguiu sobreviver junto com os omíadas por quase 70 anos.

Durante o governo de Yazid I, foram feitos:
1. Da agricultura a base econômica do império;
2. A concentração administrativa na construção e manutenção de canais de irrigação nas províncias, o que permitiu que a população se fixasse;
3. Fizeram da região da Síria um ponto estratégico de comércio. Os omíadas obtiveram êxito ao levar a supremacia árabe por uma extensa porção de terra. Esse território ia da costa africana, ibérica do Atlântico, até a Ásia Central.

Merece ser destacado que dentro os grupos descontentes com os omíadas tinham os xiitas, kharidjitas e mawalis. Esse último tinha razões particulares e os dois primeiros se opunham ao califa por causa de princípios religiosos. Os mawalis partiam de reivindicações devido as questões sociais e econômicas. A transformação omíada da sucessão do califado e a ocupação pública em processos hereditários, privilegiando socialmente os súditos de origem árabe, mostraram que o califa não mais podia continuar existindo através da sua forma original.

Com o fim do califado omíada, e o início da nova dinastia, a dos abássidas, foram feitas novas formulações para o califado. Para evitar qualquer proximidade com o governo dos omíadas, os abássidas estabeleceram modificações importantes:
1. Retiraram Damasco do status de capital do império;
2. O centro administrativo saiu da região da Síria e foi transferido para Kufa e posteriormente para Bagdá.

Bagdá foi criada pelo califa Abu Ja’far Abdallah ibn Muhammad al-Mansur (712-775) e foi erguida estrategicamente no local das margens dos rios Tigre e Eufrates. Essa cidade também era ponto de rotas comerciais, ligando a Ásia Central ao resto do império árabe-islâmico.

Foi criado no governo de abássidas:
1.Novo processo de centralização política;
2.Nova divisão administrativa do império, que passou a ser governado por secretários;3. Extensa hierarquia de funcionários espalhados por todas as províncias; 4. Sistemas de informações que levava notícias das regiões até o califa; 5. Criação do cargo de vizir, uma espécie de conselho do califa; 6. Grande desenvolvimento intelectual e científico ocorrido entre os séculos VIII e X. As cidades do império serviam de palco para o surgimento de centros de pesquisas e estudos variados.Os califas abássidas envolveram no desenvolvimento de um espaço destinado a formação de um ambiente intelectual, envolvendo a área como matemática, filosofia, astronomia, medicina e outras áreas do saber. Meihy diz que um dos exemplos de como os estudos contribuíram para a grandeza do império é o crescimento geográfico e histórico. Mesmo diante desse avanço intelectual e científico, isso não foi suficiente para sufocar as diversas tentativas de insurreição e emancipação espalhadas pelas províncias do império.

Meihy recorre a Albert Hourani para falar da trajetória do império árabe-islâmico. Albert Hourani “alerta para a impossibilidade de se apresentar de maneira cuidadosa a trajetória política de todas as dinastias surgidas a partir do território do império árabe-islâmico” (p.79). Uma transformação política do califado abássida foi a instauração de um processo de desestruturação da ordem vigente que causou grandes estragos nas relações do poder império.

A revolta de escravos negros que buscavam melhores condições de vida e de trabalho e o fim da exploração de sua mão-de-obra por traficantes e intermediários ameaçava, na metade do século IX, o poder dos abássidas. Apesar do apelo social, esse movimento possuía uma bandeira religiosa. O que era uma revolta transformou-se em uma grande rebelião. Camponeses empobrecidos, tropas negras do exército do califa e tribos beduínas aderiram ao movimento.

Eles controlavam e saqueavam as principais cidades do sul da Mesopotâmia. O império demorou 14 anos para extinguir com esse movimento. Outras províncias também tiveram movimentos de revoltas. Essas revoltas tornaram públicos os descontentamentos de setores distintos da população com o poder central e seus representantes.

Entre o século XI e XIII, a face oriental do império foi invadida por exércitos de tribos turcas e mongóis das estepes asiáticas, e, no ano de 1258, Bagdá foi capturada pelos invasores que, em contato com suas novas possessões, acabaram convertendo-se ao islamismo.

Os turcos e mongóis tornaram-se condutores da política da maior parte das terras do Islã.

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