Mosteiro, doce aldeia!

 

    Junto à lareira, refugio-me do frio cortante que caracteriza uma época.

As pinhas e os pequenos troncos de pinheiro e de oliveira vão-se consumindo, transformando-se em cinza e crepitando, fazendo subir pela chaminé o fumo que se espalha no ar e parece misturar-se com as estrelas da noite.

Há um silêncio doce no ar.

É um silêncio que me fala dos meus pais, dos meus avós e do tempo em que eles buliam à nossa volta; lavravam a terra com um arado puxado por uma junta de bois; guardavam as cabras pelos montes, no meio de tojo, fetos e flores ou no prado por entre flores amarelas e brancas, pequenas, cheias de pólen e que se destacavam por entre a erva verde e fofa; faziam o queijo com o leite das cabras; ajudavam a nascer as pequenas crias; colhiam as uvas e faziam a sua famosa água-pé; plantavam; cavavam; mondavam; colhiam frutos…

E depois… depois vinha a Festa da Nossa Senhora da Vitória: as cantigas de roda onde os rapazes e raparigas cantavam e dançavam alegremente; onde os foguetes estalavam no ar, sem parar; onde a concertina tocava dia e noite e se cantava ao desafio; onde as fogaças cheias de oferendas e o andor da Nossa Senhora da Vitória espalhavam sorrisos e lágrimas de emoção pela sua beleza desfilando pelas ruas silenciosas da aldeia e impondo solenidade à procissão.

À noite, juntava-se a família à lareira; comia-se, por vezes, da mesma malga de barro, as couves com nabos e batatas, cortados em pequenos quadrados ou as sardinhas divididas em diferentes partes e distribuídas por todos os membros da família, com broa cozida no forno de lenha. Rezava-se à Sagrada Família; cantava-se ou contavam-se histórias sobre seres fantásticos e havia sorrisos nos olhos que brilhavam à luz da candeia, apesar do cansaço de um dia de trabalho duro na terra.

O gato tudo ouvia, dormitando, enrolado sobre si mesmo, no colo do mais petiz e o cão olhava o seu dono à espera de um pequeno osso, de uma côdea de pão ou simplesmente de um afago.

Hoje… hoje o silêncio paira no ar. Só o silêncio… É um silêncio doce. Muitas destas coisas aconteceram antes de eu nascer mas foram histórias contadas com tal amor que ficaram sempre gravadas na minha memória . No entanto, ainda recordo a luz ténue da candeia, a mão pequena e cheia de carinho da minha avó e a voz forte do meu avô a chamar-me para ver mais um cabritinho que nascera e para me levar a passear pelas hortas à procura de cerejas madurinhas!

Apesar de já cá não estarem para me abraçarem, sorrio ao recordá-los porque, com todas as suas histórias deixaram-me um pouco de si e continuo a ver os seus rostos nas gentes desta aldeia tão pequena mas tão rica em bem receber e na vontade que põem ao transformar a terra bravia em frutos tenros, suculentos e viçosos, continuando a lutar, para oferecerem o melhor que têm à Terra que os viu nascer.

As histórias, guardo-as na minha memória; os gestos, a simpatia, a amizade e o amor guardo-os no meu coração…

Bem hajam!

  • Lucília Mateus
  • Nota do Director
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    Nossa Senhora do Carmo

Lucília Mateus. com 52 anos; é professora em Lisboa, e vive em Penela.
Sou albicastrense, mas a minha família é toda dessa zona: o pai João Mateus, nasceu e viveu a infância em Oleiros, tocou na banda, quando jovem, e ainda hoje está ligado à música; a mãe, Maria dos Anjos, nascida e criada no Mosteiro filha de gente boa e trabalhadora.
Muitos primos,tios e tias. Infelizmente já não estão presentes os avós e a mãe.
Mas as suas vozes e os seus gestos alimentam a minha lembrança e fazem-me sentir bem quando visito os lugares onde com eles convivi. Daí terem-me saído do coração as palavras que envio em anexo”.

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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