A morte anunciada da floresta ou a vitória do eucalipto, por Professor Anselmo Gonçalves

 

Nota do Director

É um previlégio do Jornal de Oleiros na ressaca de uma noite tenebrosa e de um dia que continua a não ser fácil, poder publicar a importante peça técnica do Professor Anselmo Gonçalves que, regularmente, nos empresta os seus conhecimentos.

Obrigado Professor.

 

GONÇALVES, Anselmo Casimiro Ramos. Mestre em Geografia especialização em Geografia Física e Estudos Ambientais pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Doutorando em Geografia ramos de Geografia Física pela Universidade de Coimbra. Investigador em Doutoramento do CEGOT – Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território.

A MORTE ANUNCIADA DA FLORESTA OU A VITÓRIA DO EUCALIPTO?

(Parte II)

Introdução

Passados que são doze anos sobre o violento incêndio que dizimou a maior parte do território do concelho de Oleiros, e dez anos sobre o incêndio que reduziu a cinzas mais de metade do concelho de Pampilhosa da Serra, eis-nos novamente perante um violento incêndio iniciado no dia 03 de agosto de 2015 em Oleiros, e novamente a ameaçar a vila de Oleiros e algumas povoações em seu redor.

Os incêndios florestais têm sido e são um dos graves problemas nacionais na maioria dos verões dos últimos 35 anos. Milhões de hectares de floresta e mato foram dizimados pelo fogo neste lapso de tempo.

O uso dos solos (terrenos) nas áreas onde ocorreram, e infelizmente ocorrem os incêndios, têm-se modificado radicalmente, para pior.

Esta modificação resulta não só como consequência dos fogos florestais, mas também em resultado da desertificação social, da crise da agricultura tradicional e da chegada de novas pressões como por exemplo, o interesse por parte das indústrias da celulose e do papel, no cultivo maciço de espécies florestais de rápido crescimento, como por exemplo o Eucalipto.

São sobretudo, os proprietários particulares que na procura de uma legítima rentabilização da terra optam erradamente por esta espécie, que sendo de crescimento rápido é explorada em regime de talhadia com cortes em cada 8 a 12 anos.

Em Oleiros e na Pampilhosa da Serra a evolução / alteração do uso do solo nestes últimos 35 anos é um exemplo claríssimo do que referimos anteriormente, ou seja, fez-se, como consequência directa dos incêndios florestais a alteração da espécie arbórea predominante, ou seja, passou-se de uma monocultura do pinheiro bravo para outra monocultura agora o eucalipto, sendo que este é mais agressivo para o ecossistema tendo em conta o elevado consumo de água desta espécie.

A par do agravamento dos fogos florestais e destes novos padrões de uso do solo, assiste-se, sobretudo a partir do início dos anos 80, à eclosão da “Febre Verde” e à irresistível atração pelo Eucalipto. Daí termos proposto como título deste texto: A MORTE ANUNCIADA DA FLORESTA OU A VITÓRIA DO EUCALIPTO?

Os Incêndios Florestais e as Modificações do Uso do Solo 

Neste capítulo convém começar por lembrar as palavras do Arquiteto GONÇALO RIBEIRO TELES[1], que “identifica o Eucalipto Globulus, como uma espécie estranha aos portugueses, originária da Austrália, que exige solos profundos e areno – argilosos e Clima marítimo (o contrário do que de facto identifica o clima e os solos de desta região Oleiros e Pampilhosa da Serra), e desde que foi introduzido em Portugal, têm provocado problemas de erosão do solo e alteração dos regimes hídricos”, situação pela qual o eucalipto é denominado como “CONSUMIDOR DE LUXO DE ÁGUA”.

Relativamente a este assunto podemos dizer que ao plantarmos eucaliptos num determinado local estamos a simplificar o ecossistema, ou seja diminuímos o número de espécies (fauna e flora) que dele fazem parte, bem como o número de interações entre elas existentes. Trabalhos científicos publicados indicam uma diminuição tanto no número de espécies de fauna e flora tanto acima como abaixo da superfície do solo.

A plantação de eucaliptos realizada nos moldes actuais, deixa sempre o solo, muito suscetível à erosão durante pelo menos o 1º e 2º ano. Ainda nesse aspecto, o conhecimento científico mais recente dá também indicações claras que um dos principais factores perturbadores é o modo como o solo é preparado, o tipo de máquinas utilizadas, a intensidade da sua utilização, seguimento ou não das curvas de nível.

Relativamente ao processo que se desenvolve após os fogos o Prof. Doutor Engº FERNANDO BATISTA[2] (1993, p. 74 – 75), de forma a tentar explicar o aumento indiscriminado de incêndios florestais, e consequentemente de áreas ardidas, começa por se referir às indústrias, onde há a diferenciar as serrações que consomem árvores de grandes diâmetros, das celuloses e das fábricas de aglomerados que trituram a madeira. Os fogos provocam, em geral, baixas no preço da madeira o que, como é evidente, é vantajoso para os que a compram (o sublinhado é nosso).

Note-se ainda que as celuloses compraram ou arrendaram largos milhares de hectares de terrenos onde a floresta ardeu (pinheiro bravo) para aí instalarem as suas próprias matas de Eucaliptos.

Os madeireiros e outros setores ligados à comercialização dos produtos da floresta são também um parceiro relevante dos interesses que se centram na floresta e para os quais os fogos, ao enfraquecerem a posição dos proprietários, favorecem as suas actividades (…).

Esta linhagem dos interesses diretamente relacionados com a floresta e com os fogos permite salientar a necessidade de assegurar a maior transparência a todas as atividades relacionadas com a floresta e de impedir que se possam concretizar benefícios e vantagens decorrentes dos fogos florestais”.

Como já foi afirmado, foi a partir dos finais da década de 70 início de 80, que os grandes incêndios começaram a ocorrer com maior frequência inicialmente no concelho de Pampilhosa da Serra e no início dos anos 90 começa a fazer sentir-se no concelho de Oleiros, desde logo, os seus efeitos fazem-se sentir, fundamentalmente no que se refere ao coberto vegetal, especialmente em termos de espécies e densidades arbóreas (gráfico 1).

Anos Pampilhosa da Serra Oleiros
Nº de

fogos

Ha ardidos  Total Nº de

Fogos

Ha ardidos  Total
1980 6 1648 17 311,6
1981 3 7581 73 282
1982 16 1241 25 39,1
1983 13 2701 51 158
1984 9 147 46 1340,5
Sub-Total 47 13318 212 2132,2
1985 21 10928 54 256,9
1986 15 429 36 125,6
1987 8 962 0 0
1988 5 1387 17 4
1989 25 2601 24 1883,6
Sub-Total 74 16307 131 2270,1
1990 10 10509 12 830,6
1991 36 3310 48 9443,9
1992 27 32 1 1080
1993 23 54 23 9,1
1994 4 2,8 29 2,67
Sub-Total 100 13907,8 113 11366,4
1995 60 1057,45 35 13,84
1996 48 53,72 33 4,7
1997 42 40 23 12,6
1998 61 236,8 27 6,9
1999 52 746,3 26 1000,7
Sub-Total 263 2134,27 144 1038,8
2000 39 1028,87 24 6379,6
2001 10 4049,12 3 10,55
2002 9 490,8 5 411
2003 2 2300 10 20139,9
2004 6 41,9 1 258,6
Sub-Total 66 7910,69 43 27199,65
2005 12 18046,9 7 1269
2006 2 6,7 2 6,2
2007 1 83,6 1 2,6
2008 1 1,6 4 44,9
2009 2 3,2 1 2,5
2010 1 5,5 2 53
Sub-Total 19 18147,5 17 1378,2
Total 569 71725,3 660 45385,4

– Na década de 1980 a 1989, neste dois concelhos foram consumidos pelo fogo 34026,6 hectares (340,26 Km2) de floresta e mato, o que corresponde em termos de área a quase 90% do concelho da Pampilhosa da Serra.

– Entre 1990 e 1999, foram consumidos pelo fogo 28447,1 hectares (284,47 Km2) de floresta e mato;

– Entre 2000 e 2010, os anos de 2003 e 2005 destacam-se respetivamente em Oleiros e Pampilhosa da Serra.

Em 2003 Oleiros sofre um violento incêndio que consumiu mais de 45% da área territorial do município, Pampilhosa da Serra, dois anos depois vê-se a braços com aquele que foi até hoje o maior incêndio em dias consecutivos de atividade consumindo mais de 45% dá área do município, nestes dois anos (2003 e 2005) em conjunto foram consumidos mais de 38186 hectares o equivalente à área do concelho de Pampilhosa da Serra, e no total da década (2000 – 2010) nestes dois concelhos os incêndios consumiram a área equivalente ao concelho de Oleiros.

Os grandes incêndios florestais representam, nesta área, uma pequena fração do número total de incêndios, acompanhando as tendências verificadas em Portugal e na Europa Mediterrânea, mas são responsáveis por uma grande percentagem da área ardida. Por outro lado, foi nos últimos dez anos que se registaram os incêndios florestais de maior dimensão pois, apesar de não se ter registado a maior percentagem degrandes incêndios, verificou-se a da maior área ardida, o que significa que, em média, nesta década cada grande incêndio queimou mais do que os das décadas anteriores. Isto resulta, por um lado, da redução do número de grandes incêndios florestais ao longo dos anos e, por outra parte, do aumento da área dos maiores “grandes incêndios” (A. GONÇALVES, 2015, inédito).

2 – Consequências da Alteração do Uso do Solo

Qualquer cidadão, minimamente interessado, verifica, que as consequências dos incêndios são por demais gravosas, para a vida humana, para os ecossistemas vegetais e animais.

O Engº MANUEL BATISTA[3] (1993, p. 78), chama a atenção para “(…) a implicação dos incêndios florestais na alteração dos regimes hídricos, com claro impacto nos processos de erosão em ravina e, particularmente, na erosão laminar, que provoca elevadas perdas de solo e um assoreamento  significativo dos cursos de água e de barragens de quantificação muitas vezes difíceis de quantificar”.

CELESTE COELHO[4], (1994, p. 57-59) referindo-se, aos efeitos dos incêndios florestais no que toca à erosão e à degradação dos solos diz: “sobre esta matéria devo dizer que a situação é verdadeiramente catastrófica em termos de efeitos dos incêndios florestais, ou seja, em termos de efeitos imediatos sobre a qualidade do solo, que se traduzem em perdas muito elevadas. (…)

Por outro lado não sendo as perdas de solo elevadas, há perdas de nutrientes, porque o solo já quase não existe. (…). Uma outra questão prende-se com o ordenamento da floresta a nível local. Trabalho num Departamento de Ambiente e Ordenamento, onde também se formam pessoas para o Ordenamento do Território, e devo dizer, que em análises feitas aos Planos Diretores Municipais elaborados e em curso tenho verificado um “voltar de costas” às questões do Ordenamento da Floresta, esta é a verdade”. (…) Mais à frente refere, “que estudos realizados na bacia do rio Águeda demonstraram a existência de um segundo pico de erosão acelerada associado à prática de reflorestação após os incêndios com ripagem e plantação de eucalipto”.

Relativamente aos efeitos dos incêndios florestais sobre o solo CARMEN FERREIRA,[5] quantifica já a influencia das espécies florestais na perda de solo afirmando que “o escoamento superficial nas plantações de Eucaliptos é 10 a 20 vezes superior ao observado nas plantações de Pinheiro Bravo, esta diferença de valores de escorrência estão relacionados com as diferentes capacidades de infiltração da água no solo, visto que o eucalipto anula a existência de outras espécies arbustivas, permitindo assim, uma rápida escorrência, acelerando a erosão e as consequências da mesma”.

Neste mesmo ponto a referida autora (o.c., 1996), vai mais longe e apresenta valores para a perda de solo em áreas de Eucalipto e de Pinheiros. Na análise feita, “foram encontrados valores para o Eucalipto na ordem das 4380 Kg / hectare, enquanto que o Pinheiro perde apenas 65 Kg / hectare, estes valores referem-se a perdas totais de solo (sedimentos e matéria orgânica) “.

No concelho de Pampilhosa da Serra estes efeitos verificam-se um pouco por toda a parte onde ocorreram incêndios florestais, sendo mesmo o concelho do Pinhal Interior, o que mais afectado foi nos últimos 35 anos, segundo LUCIANO LOURENÇO[6], (1997, p. 408), “de entre todos os concelhos do Pinhal Interior, o mais afectado foi o de Pampilhosa da Serra, com cerca de 3000 hectares / ano, ou seja, em média, todos os anos 7,5% da área concelhia foi percorrida pelas chamas. Este ritmo de incineração  permitiu que durante os últimos 27 anos, todo o concelho tenha sido percorrido duas vezes pelo fogo, e esteja presentemente a ser percorrido uma terceira vez…”

            Por fim, gostaria de deixar a reflexão do Engº Joaquim Batista[7] (1996, p. 103 – 104), que afirma que em Portugal raramente os incêndios florestais têm origem em causas naturais (…) Mais à frente aponta que “a intervenção humana pode ser potenciada pela falta de vigilância devido à tendencionalidade crescente da desertificação humana da floresta, o facto de quando se trata de incendiários, ser em acto solitário difícil de identificar o autor, o que conduz normalmente à impunidade, ou ainda por imagens e actividades espectaculares que a existência do fogo e a sua extinção proporcionam”.

Conclusão 

Todos os autores aqui referenciados, de alguma forma, directa ou indirectamente encaminham as suas preocupações para a radical alteração do substrato arbóreo e para as consequências desse acto. A troca parece só agradar a alguns (madeireiros, celuloses e alguns proprietários), para prejuízo da grande maioria.

Cito, em jeito de conclusão as palavras do então Deputado à Assembleia da República, e ex-Deputado Europeu Engº António Campos[8] (1993, p. 137 – 138), “como sabem nos últimos dez anos foram plantados quase 600.000 hectares de Eucaliptos. Hoje começamos a ter problemas com essa alteração, que não sabemos se foi em nome do interesse nacional (…). Uma grande alteração verificada nesta década diz, pois, respeito à criação do maior latifúndio da Europa num tão curto espaço de tempo. Esses hectares estão hoje nas mãos das fábricas de celulose, o que é grave, porque elas assumiram-se em Portugal como um Estado dentro do Estado: os Ministros, Secretários de Estado e Directores – Gerais saem do Governo e vão para as fábricas de celulose ou, então saem das fábricas de celulose e vão para o Governo; ninguém detém esta caminhada”! 

Perante estas afirmações o que podemos esperar?

Fogo em Oleiros

Fogo em Oleiros

 

Os resultados estão à vista, infelizmente

Técnicos, Cientistas e Dirigentes Públicos,  citados neste texto

Engº António Campos, À data da sua comunicação exercia a função de Deputado à Assembleia da República, atualmente é Deputado Europeu eleito pelo Partido Socialista.

Mestre Carmen Ferreira, Mestre em Geografia Física pelo Centro de Estudos Geográficos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Profª Doutora Celeste Coelho, Professora Catedrática do Departamento de Ambiente e Ordenamento, Universidade de Aveiro

Prof Doutor Engº Fernando Oliveira Batista, Professor Catedrático e à data da sua comunicação, Chefe do Departamento de Economia Agrária e Sociologia Rural do Instituto Superior de Agronomia / Universidade Técnica de Lisboa

Engº Joaquim Batista, à data da sua comunicação, pertencia à direção da Direcção Regional de Agricultura do Ribatejo e Oeste 

Prof Doutor Luciano Lourenço, Professor Auxiliar do Departamento de Geografia , Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Coordenador do Núcleo de Investigação Científica de Incêndios Florestais e ex – Director da Escola Nacional de Bombeiros.

Engº Manuel Batista, à data da sua comunicação desempenhava o lugar de Subdirector – Geral das Florestas

[1]) GONÇALO RIBEIRO TELES (1999) A Árvore em Portugal, Assírio e Alvim, Lisboa

1) FERNANDO OLIVEIRA BATISTA (1993) Intervenção no Seminário “Fogos Florestais, Defesa e Ordenamento da Floresta Portuguesa e do Espaço Rural”, promovido pela Assembleia da República, Comissão de Agricultura e Mar, Lisboa.

[3]  ) MANUEL BATISTA (1993) Intervenção no Seminário Fogos Florestais, Defesa e Ordenamento da Floresta Portuguesa e do Espaço Rural, promovido pela Assembleia da República, Comissão de Agricultura e Mar, Lisboa.

[4]  ) CELESTE COELHO (1994) Efeitos dos Incêndios Florestais e das Prácticas de Reflorestação após Incêndios Sobre a Erosão do Solo e a Dinâmica Fluvial – O Caso Português. Actas do III EPRIF, Coimbra.

[5] ) CARMEN FERREIRA (1996) Erosão Hídrica em Solos Florestais Estudo Em Povoamentos de Pinus Pinaster e Eucalyptus Globulus em Maceira de Alcôba – Águeda. Dissertação de Mestrado em Geografia Física, Coimbra.

[6] ) LUCIANO LOURENÇO (1997) Serras de Xisto do Centro de Portugal. Contribuição para o seu conhecimento geomorfológico e geo – ecológico, Tese de Doutoramento, FLUC, Coimbra.

[7] ) JOAQUIM BATISTA (1996) Os Fogos Florestais – Causas e Medidas Preventivas do Ponto de Vista Florestal. Breve Contributo. Actas do VI EPRIF, IEG, Coimbra.

[8] ) ANTÓNIO CAMPOS (1993) – Intervenção proferida no Seminário Fogos Florestais, Defesa e Ordenamento da Floresta Portuguesa e do Espaço Rural, promovido pela Assembleia da República, Actas da Comissão de Agricultura e Mar, Lisboa

 

 

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