Postura e dignidade, por Joaquim Vitorino

Postura e Dignidade

Muitos dos políticos europeus estão a perder a postura e a dignidade; e os portugueses também vão acompanhando a moda.

Recentemente, no final de uma reunião do euro-grupo e durante a conferência de Imprensa, Christine Lagarde apelidou de não adultos os negociadores gregos; portanto, a Presidente do FMI por outras vias disse que não se pode negociar com crianças.

A Drª Lagarde, a quem já referi como uma das grandes economistas da actualidade, espalhou-se no desabafo mas não foi a única; talvez pecasse pela frontalidade com que comentou a firmeza do ministro grego Varoufakis; mas para se abrir num comentário tão deselegante, é preciso que se coloque do outro lado e na posição de alguém que representa um país, onde três milhões de crianças acordam todos os dias sem pão para comer.

É o desespero com  arrogância à mistura; compreende-se que a Drª Lagarde está a representar os credores, e que a situação está na linha vermelha onde o cumprimento da dívida já passou à escala da miragem.

A Drª Largarde, disse o que no momento lhe passou pela cabeça mas não é de certeza uma inimiga da Grécia; porque há muito que a ex-ministra de França compreendeu, que os gregos nunca terão condições de cumprir com o pagamento da dívida “brutal” que contraíram num tempo recorde, sem condenar a maioria do seu povo à fome e a uma crise humanitária de longa duração para fazer jus à tradicional “tragédia grega”.

O esticar da corda, vai continuar por mais algum tempo até que Varoufakis consiga mais alguns milhares de milhões sem os quais, a Grécia entra em default, uma situação que irá despertar uma grande solidariedade internacional com a exigência do perdão da divida; mas a isso os credores nunca poderão ceder, embora saibam que o dinheiro está perdido; porque iriam abrir um procedente a outros devedores, que no seu conjunto perfazem umas cinco vezes a divida grega.

Serão os negociadores do governo grego, que terão que admitir a impossibilidade do pagamento, para não arrastar para a “cascata dos caloteiros” outros países do Sul, onde se encontra à cabeça Portugal e Itália. Muitos, ingenuamente falam de falta de solidariedade na União europeia; esquecendo que o empréstimo aos países do Sul foi um negócio para os investidores, que simultaneamente salvou da falência bancos franceses e alemães; que utilizaram biliões dos seus depositantes a custo zero para “alugar” o dinheiro aos países despesista do Sul; pensando ter encontrado a “galinha dos ovos de ouro” criando naqueles países incluindo Portugal, o engodo de uma avalancha de riqueza virtual sempre baseada num forte endividamento das Empresas e Famílias. Os alertas foram dados; mas a ganancia dos credores, e a apetência consumista do recurso ao crédito tornou o processo imparável durante algum tempo, até que o crédito começou a correr sérios riscos; deixando a “falsa solidariedade europeia a descoberto” onde cada um se preocupa com o seu ego, não vendo para além do próprio umbigo.

A União Europeia foi um casamento que deu para o torto; beneficiou muita gente, mas no rescaldo muitos dos cônjuges vão ficar a perder.

Portugal fez o percurso da sua História quase sempre fora da Europa, onde se relacionou com povos de outras origens e fez fortuna; lembra-me do velho provérbio quando nos referíamos a Espanha, e que no momento se aplica a toda a Europa; de onde não se esperam bons ventos, não haverá bons casamentos.

A Grécia, é um bode expiatório das políticas de austeridade que se revelaram falhadas; a Drª Lagarde, sabe que é falso que as reformas naquele país absorvam 17% do PIB grego; porque ele desceu 25% motivado pelas imposições da “Troika”, e agora terão para colher o que eles próprios semearam; é que não se poder ter ao mesmo tempo, sol na eira e chuva no nabal.

Christine Lagarde

Christine Lagarde

Yanis Varoufakis

Yanis Varoufakis

 

 

 

 

 

* Joaquim Vitorino, Colunista Especializado, Director-Adjunto do Jornal de Vila de Rei e Mentor do “Blog” Povo de Portugal

 

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