Arquiteta portuguesa dedica coração a Idanha-a-Nova

REPORTAGEM:

Em meia dúzia de palavras escritas na parede do ateliê, em Idanha-a-Nova, a arquiteta Cristina Rodrigues dedica o coração a este concelho do distrito de Castelo Branco e diz que o seu trabalho reage ao espaço arquitetónico.

Cristina Rodrigues

Cristina Rodrigues Foto: António José

Cristina Rodrigues, arquiteta e artista portuguesa que divide a vida entre Manchester, em Inglaterra, e Idanha-a-Nova, onde possui o seu ateliê em Portugal, gosta de “tocar” as histórias dos outros, “com matérias e cores da vida”.

São as narrativas das pessoas que a preenchem, que a inspiram e que lhe dão alento.

“Todos os trabalhos que tenho feito são reflexões sobre o meu país”, salienta.

A catedral de Manchester hasteou em julho a bandeira de Portugal para uma instalação artística de grande escala da arquiteta, que incluiu uma manta de 63 adufes (instrumento musical característico de Idanha-a-Nova) trabalhada por mulheres portuguesas que vivem naquela região de Inglaterra.

Cristina Rodrigues 1

Foto: António José

Nascida no Porto, divide atualmente a vida entre Manchester e Idanha-a-Nova, terra que adotou como sua: “tinha que me sediar em algum lugar, para me enraizar, ter paz e poder criar”.

As grandes cidades não a atraem, porque têm muitas camadas de informação, geradoras de ruído.

“Eu funciono no processo oposto. Tenho que funcionar num espaço de quase meditação, isolamento e paz. Tenho que estar só, em exílio, para desenhar e criar. Não preciso de gente à volta”.

“Se não fosse arquiteta, hoje não era artista. A arquitetura deu-me as ferramentas para construir os sonhos que hoje construo. O meu trabalho reage ao espaço arquitetónico”, sublinha.

Apreciadora confessa de espaços medievais (catedrais e mosteiros) em detrimento das galerias de arte contemporânea, como artista diz que “olha para o país todo”.

Arquiteta de formação fez o primeiro mestrado em história medieval e do renascimento.

“No fundo, o que faço com arte contemporânea é olhar para o povo, para as suas histórias, e tento contar essas histórias do meu tempo, a partir das pessoas que as vivem, com alegria”, explica.

Crisrina Rodrigues 2

Foto: António José

“Uma coisa que me dá muito prazer é que todas as pessoas que visitam a minha exposição dizem que o meu trabalho lhes dá alegria e paz”.

Cristina Rodrigues vai buscar parte da inspiração à literatura clássica portuguesa, sobretudo a Eça de Queirós e Júlio Dinis.

Cita mesmo este último escritor português para explicar a sua postura na arte: “se queres fazer parte de uma comunidade, tens que te misturar com as histórias da comunidade”.

“Este foi um princípio que sempre utilizei como arquiteta e como investigadora, de ir aos lugares, trabalhar com as pessoas, fotografar, recolher as suas histórias”.

Atualmente, está a preparar duas grandes exposições que vão acontecer em 2015: uma em Portugal, no Mosteiro de Alcobaça (18 de abril), sob a chancela oficial da Presidência da República, e outra, no Reino Unido (a 21 de maio), no Palacete de Tatton Park.

Lá para o final de 2015, segue-se o Brasil, com uma nova exposição.

Assentou “praça”, como diz, em Idanha-a-Nova, no ano de 2010, onde trabalha não só com artesãos mas também com funcionários do município, alguns deles alocados ao seu projeto durante um espaço temporal.

São quase 20 pessoas, entre homens e mulheres.

“Temos uma equipa de artesãos idanhenses que trabalham os ferros, eu faço os desenhos, e quando estou a fazer uma manta nova é sempre um grupo fixo de mulheres que me ajudam”, explica.

“Eu toco o meu trabalho, tudo é feito por mim. Não desenho e dou o meu trabalho para ser feito. Eu toco o meu trabalho e produzo”, adiantou.

Neste momento, estão a trabalhar nas peças que vão fazer parte das exposições de Alcobaça e de Tatton Park.

Cristina Rodrigues, a arquiteta do Porto que um dia escolheu viver em Manchester e adotou Idanha-a-Nova como sua, diz que um dia, o seu trabalho, “contará as narrativas e histórias do povo”.

*Jornal de Oleiros/Lusa

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