Poeta albicastrense António Salvado estudado no Brasil

JORNAL DE OLEIROS ENTREVISTA ALICE SPÍNDOLA

Alice Spíndola, jornalista, articulista, ficcionista, artista plástica e poeta, escritora premiada tem sido, no Brasil, uma das estudiosas e divulgadoras da obra de António Salvado. O livro “Poesia – Asa da Espiritualidade, Obras de António Salvado Impressões de leitura”, da editora Kelps, surge associado a um importante projeto de investigação académico  sobre a poesia contemporânea em língua portuguesa onde António Salvado ocupa um lugar de destaque. Alice Spíndola foi a representante oficial de Sociedade Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro, no colóquio O caminho se faz por entre a vida… dedicado à obra de António Salvado que terminou hoje com o lançamento da antologia “Um Extenso continente” que inclui mais de duzentos poetas de todo o mundo admiradores do poeta albicastrense.

António Salvado um poeta da Beira Baixa para o mundo

António Salvado nasceu na zona histórica de Castelo Branco, mais concretamente na Rua d’Ega e desde muito cedo se interessou pela literatura, tendo publicado o seu primeiro título com a idade de 16 anos. Depois de terminar os estudos secundários em Castelo Branco partiu para Lisboa onde se licenciou na Faculdade de Letras em Filologia Românica. Em Coimbra e em Paris frequentou, posteriormente, outros cursos. Foi professor do ensino secundário em Lisboa, Luanda e Castelo Branco e, durante 15 anos, diretor-conservador do Museu Francisco Tavares Proença Júnior em Castelo Branco. Foi professor na Escola Superior de Educação de Castelo Branco. É poeta, ensaísta, crítico, antologista de referência, tradutor, diretor de publicações, tem colaboração poética em antologias, revistas e suplementos literários. Obteve distinções  nacionais e internacionais de que se destaca a comenda da Ordem de Santiago da Espada atribuída em 2010 pelo conjunto da sua obra poética desenvolvida ao longo de mais de meio século e plasmada em dezenas de títulos. A sua poesia está  traduzida para castelhano, francês, italiano, inglês, alemão, búlgaro e japonês tem sido alvo de saliente reconhecimento  internacional, com antologias poéticas editadas em Espanha e França.

Alice Spíndola com António Salvado

Alice Spíndola com António Salvado

 

Jornal de Oleiros – Como descobriu o poeta António Salvado?

Alice Spíndola – Ora, António Salvado era amigo, de longa data, de poetas de quem eu participava do convívio. Imagine você que muitos de nós conhecíamos Jean-Paul Mestas, ou já fóramos publicados por ele em JALONS. Editados, ainda, através de suas conferências, ou de estudos específicos em Clermont-Ferrand, em Vichy, em Paris. E, ainda, em diferentes países, reforçando um conceito único de união de povos através da Poesia.  Tudo partiu, creio eu, da incomparável Stella Leonardos [Rio de Janeiro] e do inesquecido José Afrânio Moreira Duarte, [já falecido], residente em Belo Horizonte. Ambos efetuando dinâmico intercâmbio cultural.

Em Lisboa, estava o Joaquim de Montezuma de Carvalho reunindo, em torno de si, imensa plêiade de intelectuais do mundo todo. Montezuma exercia a mágica de estampar textos de autores brasileiros, latino/americanos, enfim do mundo todo, em O PRIMEIRO DE JANEIRO, jornal secular do Porto, ou nos periódicos dos Açores e em outros veículos mais.

De Amarante, o António José Queirós, editor de publicações, como SAUDADE –  revista de poesia, em 2002. Recordo-me, agora, do Antonio Teixeira e Castro, sobrinho do Teixeira de Pascoaes, dirigindo a Revista PALAVRA EM MUTAÇÃO – Porto / Portugal, e nos colocando como correspondentes da Revista. No Brasil, aparece o Antonio Bacca, que nos leva para o Canadá e o México, a fim de apresentarmos nossos livros, e a antologia do Projeto Cultural SUR. Vindo de Lisboa, Miguel Barbosa e sua esposa Fernanda.

Indo do Rio de Janeiro para o Nordeste, Ascendino Leite trouxe sua lista de intelectuais. O Grupo Pórtico de Salvador / Bahia, editando antologias, estampavam nossos escritos em Cuba,  na Espanha e em outras terras. Assim, todos nós passamos a ter amigos de mundos vários. Uma efervescência sem par. Como não me lembrar de Ascendino, do Jorge Tufic, do Paulo Hécker,  do Enéas Athanásio, e Wagner Ribeiro, do Estado de Sergipe, trocando correspondência cartas, poemas e livros, com António Salvado? Jornais do Rio Grande do Sul e do Nordeste lançando poemas deste poeta luso?  União Brasileira de Escritores do Rio, a de São Paulo e a de Goiás organizavam eventos muitos. Fagundes de Menezes, Antonio Olinto, Tobias Pinheiro, Margarida Fínkel, Anna Guasque, Geraldo de Menezes e outros intelectuais, ao lado do brilho de Stella Leonardos, todos  do Rio de Janeiro, atreviam a promover festas anuais em que referendavam a obra de autores muitos de além oceanos. Branca Bakaj, de Brasília./DF. Acyr Castro, de Belém do Pará. Bariani Ortencio, de Goiânia.  Paulo Bomfim  e seus interessantes livros. Caio Porfírio Carneiro;  Rosani Abou Adal e  Adriano Nogueira, do Jornal Linguagem Viva,  de São Paulo. Todos em fase de intensa vida literária. Cartas, de elegante conteúdo, iam e vinham. Recebi telegramas até de Paris. As portas para a Arte estavam abertas.  Ambicioso entusiasmo.

Nelly Novaes Coelho, em livros de crítica literária, refere-se a este tempo, com brilho e intensa vibração.Foi em meio a esta efervescência cultural, que recebi, em Goiânia, região Centro-oeste do Brasil, OBRA IIIde António Salvado livro de 278 páginas. Graficamente bem produzido. Nas mãos, aquele exemplar de tamanho grande. A capa, suave ao tato, instigando a curiosidade sobre o autor, ensejando convite à leitura. A dedicatória me fez adivinhar o conteúdo.

A essa altura, anos oitenta e noventa, e início do terceiro milênio, António Salvado manteve estreito intercâmbio com inúmeros desses escritores. Teve poemas publicados na REVISTA LITERATURA – a Revista do escritor brasileiro – do editor Nilto Maciel, em Brasília, além de outros jornais e revistas literárias. Na mesma época, fora traduzido por Jean-Paul Mestas. E, ele, próprio, verteu livros de poemas deste poeta francês para o idioma de Lisboa. António Salvado foi diversas vezes editado em JALONS, na França.

Hoje, o albicastrense António Salvado comemora seus cinquenta e cinco anos de literatura e de vida literária, exibindo vasto acervo bibliográfico, celebrando edificante convívio internacional. Sobretudo, o fato de, com persistência, conseguir ser o que escolheu ser: um magnífico poeta. Façanha que tanto nos orgulha.

 Jornal de Oleiros – Quais as dominantes que, para sí, estruturam a poesia de António Salvado?

Alice Spíndola –Nem eu, nem você podemos analisar, em poucas palavras, a poesia deste poeta. António Salvado sabe que seu fazer poético não é um exercício de modéstia. Com toda certeza, tomemos, por exemplo, OBRA III, livro arrojado, em que Salvado carrega sua resistência ao ordinário, sua integridade, o domínio do artífice sobre si mesmo. Nas entrelinhas, uma crítica, e uma ironia saudável. Convence o leitor com sua alta poesia e não se abdica de mostrar seu fascínio pelas sílabas toantes, pelo decassílabo e, em especial, o soneto. Através deste fascínio, o poeta lida com a sedução da palavra, e compõe poemas de alta lavra. A poesia de António Salvado, portanto, se estrutura em cuidadosas sintaxes gerando versos que, ora se mostram com um rigor técnico apurado, muitas vezes expostos com rimas perfeitas ou toantes, ora em versos soltos, circunstância em que denuncia o seguro domínio formal na hora de compor o poema. Tal processo, via-de-regra, nunca dispensa utilização de raras figuras de estilo e de pensamentos refinados. Figuras, estas, sugeridas nos seguintes versos:

Janela aberta, parte.

É noite, deixa-me no meu canto

a olhar o papel branco

que se encolhe e se rasga.      

Jornal de Oleiros -Como poeta,  que também é, que função atribui à poesia na sociedade contemporânea?

Alice Spíndola – que excelente pergunta!

Poeta, de inquestionável importância, o albicastrense Antônio Salvado, por exemplo, parece crer na grande força da poesia como fator de estimulo para a união entre povos. O insigne Jean-Paul Mestas, também, erigiu uma obra imensa com o título: POVOS E POEMAS, em que une 101 poetas de cem Países.

Jornal de Oleiros – Como vê as relações culturais entre Portugal e o Brasil?

Alice Spíndola – Lembro, aqui, a frase de Teixeira de Pascoaes  que diz: – “A ciência desenha a onda, a poesia enche-a de água”. Arte funcionando como traço-de-união.O belo traz a alegria ou o desconforto com seus pontos estratégicos. Seus dizeres nos brindam com certo alívio. As relações culturais podem vir a ser pontes para a Paz, outras vezes, confirmam denúncias. Depende de quem participa da eventual feição do tema proposto, e de quem dirige qualquer evento, ou efetua a obra a ser estudada, ou o efeito que causa sua influência. Ações resultantes das Mídias, ou que vigore nas redes da internet. Depende da reação do público envolvido, o registro do segredo do sucesso, tanto dos eventos, quanto das relações do convívio. A raridade do acervo de cada País se torna, também, a responsável por este fascínio pela cultura, pela Arte, em si, e por seu valor intrínseco como fonte de união dos povos de cada uma destas duas Nações.

*Entrevista conduzida pelo nosso colaborador Pedro Miguel Salvado

 

 

 

 

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