O último pescador de Vila Velha de Ródão chegou a ter o barco como casa

REPORTAGEM

O último pescador de Vila Velha de Ródão chegou a ter o barco como casa e os cigarros assumiam-se como a única companhia nas horas de solidão a percorrer os recantos do rio Tejo à procura de peixe.

Portas do Ródão

Portas do Ródão

João Domingos nasceu em Vila Velha de Ródão, às portas do rio Tejo, e tem, por isso, uma ligação quase umbilical com o rio e com a pesca.

“O meu pai foi toda a vida pescador em Vila Velha de Ródão e eu desde os sete anos comecei a acompanhá-lo”, afirma.

Conhece todos os recantos do rio e, enquanto dirige a pequena embarcação de fibra sintética para a recolha de mais uma arte de pesca, recorda os perigos que as águas do Tejo escondem.

Apesar da dureza da faina, João Domingos, 58 anos, diz que há algumas décadas tudo era diferente.

“Tinha um barco de madeira, a remos. Saída ao por do sol e só regressava pela manhã”, refere.

Dormia dentro da pequena embarcação e chegava a fazer cerca de 50 quilómetros a remar, rio abaixo, rio acima.

“Vivi e ganhei muito com a pesca, embora tivesse muito trabalho”, adianta.

Pesca

Contudo, os tempos eram outros. Eram os tempos de antes da barragem do Fratel, cuja construção ficou concluída em 1973.

“Apanhava enguias, lampreias, sável, bogas e carpas. O peixe era todo vendido para os restaurantes da terra e também vendia porta a porta”, recorda João Domingos.

Com o aparecimento da barragem e a desregulação do caudal do Tejo, surgiram muitas alterações e João Domingos explica que “hoje não se apanha uma boga no rio”, uma espécie que antigamente abundava.

“Cheguei a ter três barcos, mas a vida no Tejo é muito dura e não tenham inveja dela. Água dá, água leva”, desabafa.

Nos dias que correm, João Domingos já não se dedica à pesca.

Um problema de saúde que surgiu há dois anos fez com que entregasse a pequena embarcação de fibra sintética e as artes de pesca a um dos seus filhos.

Marco Paulo, que também acompanha o seu pai na pesca desde muito jovem, teima em não deixar morrer esta arte tradicional das gentes de Ródão.

Apesar de trabalhar numa empresa ligada ao setor do papel, sempre que pode vai para o rio.

Aprendeu com João Domingos a fazer as artes de pesca e diz mesmo que, se pudesse, fazia da pesca o seu sustento.

“Tenho pena de não poder dedicar-me só à pesca. É uma vida muito injusta e é preciso gostar mesmo”, disse.

*Jornal de Oleiros/Lusa

 

 

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