INQUIETUDE – Fittipaldi das Chaimites

Inquietude

Fittipaldi das Chaimites

Dinis de Almeida

Dinis de Almeida

Portugal atravessou quase todo o ano de 1975 sob uma pressão política medonha. Os acontecimentos, após o comício de que vos falei na passada semana, sucediam-se a uma velocidade alucinante. De entre os militares que foram, aos poucos, sendo notícia por tomarem parte ativa na vida política nacional, por intervenção direta ou por apoio a uma parte das forças políticas, leia-se PCP, emergiu um nome Diniz de Almeida, então no RALIS e que me marcou particularmente, talvez pelo episódio que vos vou relatar.

Nessa época valia tudo, ou quase tudo.

Antigo Ralis

Antigo Ralis

No então RALIS onde predominava o Diniz de Almeida, apelidado, à data, de Fittipaldi das Chaimites, por força do desaforo como circulava por Lisboa, nesse veículo militar, a determinada altura de 75, o juramento de bandeira deixou de ser feito com base no tradicional “juramos defender a Pátria…” e passou a ser feito de “punho fechado” com as palavras “juramos defender os supremos interesses das classes trabalhadoras” como se já se vivesse, em Portugal, numa qualquer república de influência soviética.

Desde essa altura passei a fazer observações das movimentações que ocorriam nesse quartel e a reportá-las à sede nacional do PS. Foi um período muito difícil, por diversas vezes fui intercetado por veículos militares provenientes do RALIS, alguma das vezes por “putos” da minha idade ou ainda mais novos que me apontavam as G3, tremendo que nem varas verdes. Nessas alturas só pensava quando é que iriam começar a disparar.

A coisa no entanto foi andando até ao dia que vi a morte sob a foram de uma chaimite.

Em determinado dia as movimentações eram maiores que as habituais e o movimento de carros e pessoas também aumentou. Eu, de peito feito lá estava para, o que desse e viesse. Em determinado momento apercebi-me da deslocação de uma coluna de chaimites dentro do RALIS que se estava a posicionar não no portão principal mas num outro que existia mais abaixo, uma centena de metros, e que ainda lá existe nos dias de hoje. Eram mais de seis chaimites, colocados em fila indiana, motores a trabalhar. De repente o da frente começou a acelerar, acendeu as luzes e dirigiu-se ao portão seguido dos restantes. Eu que estava  na avenida fronteira ao quartel, atrás de um Renault 16 estacionado a meio da faixa de rodagem e frente ao portão, apercebi-me que a tal chaimite iria passar por cima do portão. Só tive tempo de correr agachado para um terreno baldio onde se estava a iniciar a construção do bairro da ICESA, sentindo as rajadas das peças de artilharia montadas na chaimite a saraivar por cima da minha cabeça. Quando aquele barulho ensurdecedor terminou deparei com um cenário dantesco. O tal Renault R16 estava literalmente espalmado. Só me ocorreu um pensamento: se lá tivesse ficado estaria morto.

Foram acontecimentos como este que foram protagonizados por milhares de portugueses que determinaram, para o bem e o mal, o rumo democrático de Portugal.

* INQUIETUDE, Coluna semanal do Director-Adjunto José Lagiosa, todas as 5ªs feiras

Bravia - Chaimite

Bravia – Chaimite

 

 

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