“Crónicas de Lisboa”, Avô, é um Pai em segunda mão?

“Crónicas de Lisboa”

Avô,  é Um Pai em Segunda Mão?

Por estes dias, celebra-se o Dia do Pai (19 de Março), embora apenas alguns tenham o privilégio de poderem experienciar essas vivências, porque as sociedades desenvolvidas vivem numa crise de natalidade, sendo acentuada no nosso país, fazendo perigar o nosso próprio modelo socioeconómico e a “raça lusitana”. A II Grande Guerra Mundial (de que o nosso país se safou), provocou uma razia na população dos países beligerantes, mas as melhorias socioeconómicas posteriores, geraram um “baby boom”, fazendo crescer a população da Europa até números nunca antes vistos. Mas o bem-estar adquirido, levou as pessoas a interessarem-se por outros valores que não a família e, desse modo, a população europeia começou a diminuir, só atenuada pelos imigrantes que, ávidos de atingirem o paraíso do desenvolvimento e do bem-estar, arriscam a própria vida nessas epopeias na travessia dos desertos e dos mares circundantes duma Europa que, apesar da crise de que todos nos queixamos, continua a representar o céu para os milhões que nada têm a não ser a pobreza, as doenças, as guerras, etc.

Pobre deste mundo tão fortemente desequilibrado e injusto, cujos líderes se entretêm em guerras palacianas ou fomentando e alimentando guerras reais, locais e regionais. Dói a alma, ver, via imprensa, os horrores e os dramas humanos, com maior dor porque vitima os mais frágeis (as crianças, os idosos e as mulheres). São crianças, por vezes geradas já no leito das guerras e dos ódios e às quais é negada uma vida própria de criança, mesmo sem as extravagâncias e os luxos das crianças dos países ricos. Ricos, materialmente falando, mas nos quais outros valores se foram perdendo e neles muitos “crimes” são cometidos sobre as crianças, seja por carências, omissões ou excessos, porque estes podem fazer tanto mal como as carências. Criamos, assim, pequenos monstrinhos a quem cedemos e damos tudo, menos os afectos, a educação e o amor, porque também nós, de geração em geração, nos tornámos mais frios, mais materialistas e mais ausentes na educação dos nossos filhos.

Tardam os nossos governantes em acertar nas medidas de incentivo à natalidade, olhando mais o problema na óptica da sustentabilidade financeira do sistema da Segurança Social (SS), isto é, o problema económico e financeiro e que coloca também em causa o modelo da nossa sociedade, porque a queda da natalidade não gera novos trabalhadores e contribuintes para a SS e financiarem as reformas dos actuais e futuros pensionistas, mas também decrescem os consumidores e os contribuintes. São inegáveis aquelas premissas, mas o problema do decréscimo da natalidade é mais grave do que a questão da sustentabilidade e sobre isso, o silêncio é total, isto é, a alteração contínua e inexorável da estrutura etária da nossa população, devido ao aumento contínuo da longevidade, graças à medicina e outras ciências, enquanto a natalidade decresce dramaticamente. Por cada criança portuguesa há, cada vez mais idosos e estes indicadores não chegam a ser compensados pelos imigrantes que arribam ao nosso país e também vemos partir os nossos jovens, em idade fértil.

A renúncia à natalidade está há muito instalada: “porque hei-de querer um filho se, em vez disso, posso fazer muitas outras coisas, para além do dinheiro envolvido?” Assim, vão dando desculpas “mentirosas”, e muitos consideram-se “vítimas”, como se alguma vez na história da humanidade se tenha vivido tão bem. Outros, assumem que não querem nem sentem a vocação para essa sublime realização humana, mas esquecem-se que se os seus pais tivessem agido assim, eles não fariam parte deste mundo e, como tal, não gozariam as benesses que a sociedade lhes proporciona. Esta sim, é a principal causa, porque as alternativas a ter um filho, criá-lo, educa-lo, etc, são imensas. Os pais criam a vida, ou colaboram na sua criação e a sua matéria-prima são os seres humanos. Geram os filhos, alimentam-nos, fornecem-lhes apoio e protecção, ensinando-lhes as normas para viverem no mundo e ajudando a concretizar as suas potencialidades. O papel do pai e da mãe é a arte mais bela de todas as artes, pelo que custa a entender a renúncia a algo tão belo e indescritível. Obviamente que há muitos senões na maternidade e paternidade, mas nem esses deveriam levar os adultos a desistirem desses papel tão natural como viver. A prática de “filho único” é uma realidade no nosso país há várias gerações, principalmente nos meios citadinos, mas agora reforçada por “zero filhos” de muitos casais, pelo que este nível da natalidade não garante a continuidade de muitas famílias, desaparecendo estas nas gerações seguintes. Não surpreende, assim, que aumente o número de idosos que morrem em total solidão e profundo abandono e que alguns nem tenham um familiar que lhes faça o funeral! Quem vai cuidar de nós, os avós, de facto, ou apenas os velhos? Este sim é um dos verdadeiros dramas da nossa sociedade , porque nos arriscamos a sermos abandonados, ademais porque os valores que incutimos nos nossos descendentes também não ajudam a alterar as condições actuais e futuras.

Diz o ditado popular que um homem se realiza quando, planta uma árvore, escreve um livro e tem um filho, embora haja outras vias de realização pessoal, mas estas deveriam ser complementares da paternidade. Felizmente para mim, fui pai e agora sou um “pai em segunda mão” e na “avosidade” posso continuar uma tarefa semelhante à paternidade, embora no papel de avô. Agora com outras mais-valias, embora também com outras dificuldades, nomeadamente capacidades físicas e as diferenças ocorridas nas gerações, mas é profundamente maravilhoso e de indescritível realização humana, ver e participar no crescimento e desenvolvimento dos netos e com eles reaprendermos a (re) viver. Pode ser um regresso a uma viagem passada e entusiasticamente vivida com os nossos filhos, agora noutros “filhos”, mas sangue do nosso sangue. Nessa dádiva, poderemos reencontrar os tesouros escondidos nas banalidades e superficialidades em que, muitas vezes, nos deixámos mergulhar, e reescrever a nossa história e (re) abrirmos-nos à felicidade neste nosso final de vida. Nesta celebração especial (Dia do Pai), dizem uns: “obrigado pai, por me teres gerado e criado “. E os avós dirão: “obrigado filho, pela alegria de poder ser avô”, porque com as crianças, aprendemos e descobrimos o amor, a inocência e a beleza humana, porque belo é este milagre da natureza humana. Por esta ternura, vale (u) a pena viver e este amor vale mil anos de fadigas e de sacrifícios. Dúvidas? O amor aos filhos e depois aos netos dá um sentido àquilo que, de outro modo, seria um vazio. Por mim, se não fosse pai e avô, não seria um “homem rico” e, neste dia e sempre, não esqueço também o meu pai, que há muito partiu. Para ele o meu : “Obrigado Pai”

* Serafim Marques, Colunista do Jornal de Oleiros

Serafim Marques

Economista

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