António D’Orey Capucho e a situação política actual

Fui muito crítico da estratégia política desenvolvida pelo Governo de Passos Coelho, que afastou o PSD da sua matriz social-democrata, sem embargo de lhe creditar o mérito de ter evitado a bancarrota à beira da qual o Governo Sócrates deixou o nosso País.

Também me pareceu desajustada a postura do Partido desde que foi remetido à oposição, assumindo então um nefasto negacionismo face aos repetidos sucessos do Governo que os índices macro-económicos revelavam mês após mês, facto que não foi compreendido pelos eleitores.

Por outro lado, quanto à organização interna do PSD fui também crítico pela apatia face ao crescente afastamento das bases, a supremacia crescente de oligarquias em muitas estruturas descentralizadas e, em especial, a inércia perante certos métodos condenáveis para arregimentar votantes nas eleições internas.

Considero, porém, que estão ultrapassadas as razões que levaram o Conselho de Jurisdição a anular a minha inscrição no PSD e a de outros 80 militantes de Sintra por terem em 2013 integrado uma candidatura independente liderada pelo Dr. Marco Almeida.

De facto, nas eleições subsequentes os mesmos órgãos partidários, sob as mesmas lideranças, convidaram aquele ex-militante para encabeçar a lista do PSD e proporcionaram-lhe os poderes necessários para organizar e apresentar as listas a todas as autarquias do Concelho.

Por outro lado, desde há pelo menos dois anos admiti publicamente ter a perspectiva de regressar ao PSD se Rui Rio viesse a ser eleito, na expectativa de que ele poderia proporcionar uma inflexão no PSD em duas vertentes fundamentais: desde logo a recuperação da matriz social-democrata, o que é patente na moção de estratégia que apresentou. Acredito também que a prática política do PSD vai confirmar essa orientação e ainda que a democratização do partido vai avançar, pois Rui Rio já demonstrou que não pactua com situações menos claras e menos transparentes na vida interna do Partido.

Rui Rio ganhou a Santana Lopes em eleições directas, apesar da grande maioria dos apoiantes de Passos Coelho e da máquina do PSD estarem alinhados com o candidato derrotado, com o qual teve o bom senso de estabelecer um acordo político, mostrando assim a vontade de unir o Partido. Acredito que Santana Lopes e os seus mais directos seguidores vão concorrer para o sucesso da estratégia do PSD, sem prejuízo do direito à diferença.

O problema é que os verdadeiros adversários internos de Rui Rio não são obviamente os chamados “santanistas”, mas aqueles que ainda estão agarrados à estratégia de Passos Coelho e alimentam inegável ambição de regressar ao poder a seguir às próximas eleições. Para tanto, têm a expectativa de que o PSD possa ser então derrotado pelo PS e, em consequência, Rui Rio entenda demitir-se ou seja derrotado em Congresso subsequente.

A intervenção produzida em Congresso por Luís Montenegro, que é reconhecido pela generalidade dos observadores e pelos seus apoiantes como o líder alternativo a Rui Rio. Acresce que diversas declarações de outros responsáveis com o mesmo alinhamento evidenciam que a expectativa que os anima é precisamente a de que as coisas corram mal a Rui Rio nas próximas eleições.

No mesmo sentido tivemos a lamentável votação verificada na eleição da Direcção do Grupo Parlamentar do PSD. Desde logo porque o indigitado líder parlamentar foi apoiante de Santana Lopes e não de Rui Rio, porque a equipa apresentada era manifestamente plural e com provas dadas, para além de que a legítima discordância sobre a lista apresentada, dada a inexistência de alternativa, seria mais apropriadamente traduzida num voto branco, com o significado de abstenção, e nunca com votos nulos. Esta atitude vem corroborar a tese de que há quem opte pela estratégia de “quanto pior, melhor para nós”.

Creio sinceramente que, no seio do Grupo Parlamentar, esta atitude de afrontamento a Rui Rio, assumida muito em cima do confronto democrático no Congresso, poderá atenuar-se progressivamente na decorrência da natural vontade de unidade na acção de oposição aos verdadeiros adversários, que não são internos mas sim o Governo e os Partidos que o apoiam. Mas também a proximidade das próximas eleições (estamos apenas à distância de ano e meio) poderá levar muitos dos que desejam a recandidatura a ponderarem melhor a atitude a tomar…

Neste momento o saldo da governação é positivo, apesar das diversas trapalhadas que ensombraram a imagem do Governo desde a tragédia dos fogos florestais, ao roubo das armas em Tancos, entre outras situações muito negativas.

Porém, para além da dívida que cresce em valor absoluto, os principais índices económicos que interessam aos eleitores são animadores e as pessoas estão contentes. Mas, como é óbvio, o cimento que unia os partidos que apoiam o Partido Socialista parece começar a esboroar-se e, ao mesmo tempo, qualquer pequena degradação na situação económica internacional pode fazer baixar esse tipo de apoios que o Governo tem merecido.

Mas será pelo mérito próprio que Rui Rio e o PSD souberem evidenciar no exercício da oposição que serão determinantes para o sucesso que desejam e acredito que podem merecer nas próximas eleições legislativas.

António D'Orey Capucho

António D’Orey Capucho

Cascais, 2018-02-27

  • ANTÓNIO D’OREY CAPUCHO, Colunista especializado do Jornal de Oleiros

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
Esta entrada foi publicada em Comunidades, Imprensa, Nacional, Oleiros, Opinião com as tags . ligação permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *