Projecto “adoptar uma aldeia”, uma ideia fantástica

O projeto “Adotar uma Aldeia” quer que grupos de voluntários se reúnam na reconstrução e apoio às comunidades afetadas pelos incêndios, em especial no interior do país, mas não pretende impor regras a quem quer ajudar.

Nascido da ideia de um grupo de voluntários que foi para o terreno após o incêndio de Pedrógão Grande, em junho, e que tem a sua base operacional em Vieira de Leiria, o “Adotar uma Aldeia” pretende ser uma rede de voluntariado disseminada pelo país, que possa manter uma intervenção de longo prazo e de compromisso em cada uma das comunidades afetadas pelos incêndios e não apenas uma única visita ou intervenção, lê-se na explicação do projeto.

“Não queremos tutelar ninguém, mas sim que as pessoas se mobilizem e depois partilhem as suas experiências. Não impomos aquilo que as equipas de voluntários devem ou não fazer. Cada equipa escolhe uma aldeia que conhece ou que saiba que tenha sido afetada e tenta ajudar “, disse à agência Lusa José Almeida, um dos mentores da iniciativa.

O Bairro Norton de Matos, em Coimbra, por exemplo, já adotou uma aldeia na freguesia de Fajão, na Pampilhosa da Serra.

“Reúna um grupo de amigos/ Escolha uma aldeia / Faça um levantamento das necessidades / Angarie o material e, no fim de semana ou fins de semana, dê um pouco do seu tempo para ajudar na reconstrução” são os princípios associados ao projeto, a partir dos quais os promotores da ideia criaram uma página comunitária – disponível em https://www.facebook.com/ComunidadeSolidariaAdoptarAldeia/, onde reúnem uma série de informações que têm vindo a recolher no terreno enquanto voluntários e que podem servir de guia a quem pretende envolver-se na ajuda humanitária.

Desde logo, frisam que o projeto “não é individualista”: “Já podem existir iniciativas no terreno com que se pode colaborar e, sem dúvida, que as redes de materiais e equipamentos organizadas pelas juntas [de freguesia] e câmaras [municipais] serão essenciais para a ação do grupo [de voluntários]”, assinalam.

“Mesmo que a componente material possa ficar resolvida em um ou dois dias, há dimensões humanas e outras que levam mais tempo. Demora algum tempo até que a normalidade se estabeleça, os quintais [afetados pelas chamas] levam algumas semanas a recuperar, os animais também”, alertam.

Por outro lado, José Almeida defende que “cada caso é um caso”, exemplificando que uma aldeia da Sertã, Castelo Branco, “pode ter necessidades muito diferentes” do que outra em Vouzela, distrito de Viseu.

Nesse sentido, os promotores recomendam que uma primeira visita ao local possa servir “para identificar necessidades ainda não identificadas”.

“Se alguém puder ir antecipadamente ao terreno, melhor. Depois, a imaginação e a criatividade na descoberta de soluções é essencial”, alegam, acrescidos dos eventuais conhecimentos técnicos e profissionais de cada um dos voluntários da equipa.

Residente em Lisboa, José Almeida tem raízes familiares na zona Centro – o pai é natural de Celavisa, concelho de Arganil, no interior do distrito de Coimbra – onde o voluntário passava os verões enquanto criança e onde, já adulto, reconhece que deixou de ir com assiduidade.

Agora, enquanto mentor do “Adotar uma Aldeia”, defende que a intervenção pressupõe a deslocação aos locais, se não de toda a equipa, pelo menos de um ou mais elementos do grupo de voluntários, com alguma regularidade, a cada fim de semana, para o futuro, assumindo esse compromisso.

“Depois dos primeiros fins de semana, em que o trabalho é muito e mais duro, porque há muito para fazer, desde limpezas a pinturas e outras intervenções, a ideia de adotar também é a de nos deslocarmos às aldeias, regularmente. São pequenas ajudas, assim, que fazem a diferença na vida daquelas populações”, adiantou.

Aos eventuais voluntários, os promotores lembram ainda que o “simples facto” de consumirem na zona afetada pelos incêndios – em cafés, restaurantes ou mercearias – “é uma ajuda à economia local”.

José Almeida gostaria de ver empresas nacionais a envolver os seus colaboradores no projeto, bem como as associações académicas de estudantes universitários e estabelecimentos de ensino.

Disse temer que com a chegada do inverno, do frio e da chuva, a solidariedade diminua e aponta Arganil, mas também o município vizinho da Pampilhosa da Serra, como dois exemplos em que “mesmo com todas as ajudas e muitos voluntários continua a haver zonas esquecidas e muito isoladas”.

“Começamos a compreender que o território afetado é muito vasto e que há muita gente a precisar de ajuda e 10 ou 15 voluntários fazem toda a diferença. Há pessoas que nunca tinham ouvido falar, sequer de algumas aldeias ou de como lá se chegava, quisemos lançar para a terra esta semente e esperar que comece a crescer”, argumentou José Almeida.

“Mas adotar não é tomar como propriedade de alguém, pode haver um dia em que as pessoas que lá moram não nos queiram ver lá e temos de ter a humildade de aceitar que a `criança` cresceu` e quer viver sozinha”, ilustrou.

Álvaro em Oleiros

Álvaro em Oleiros

  • Com a devida vénia ao DN.

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