Vem aí São Che Guevara?

Vem aí São Che Guevara?

O facebook é um praça pública onde convivem pessoas com e sem fé, radicais ou mornos, desinteressados e ateus. É normal.

Todos nós sabemos que hoje é Domingo; alguns se lembram que o Domingo significa o dia do Senhor.

Neste Domingo, considero oportuno testemunhar um belo passo da Igreja, pela mão do Papa Francisco e em plena continuidade com o Concílio Vaticano II que já leva 50 anos.

A 11 de julho, o Papa Francisco promulgou uma sua Carta apostólica cujo mote é «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13) e que estabelece uma nova via para a santidade.

Num país que continua a escutar palavras e a praticar atos de religião mas que tem evidentes e justificados traços anti-clericais, o preconceito contra a linguagem teológica está instalado. Genericamente, desconfia-se de tudo o que vem da Igreja Católica, por antonomásia, “a Igreja“.

“Beato” significa originalmente “feliz”; mas na linguagem corrente é sinónimo de “seguidor de rituais da Igreja” e “quase hipócrita”. “Mártir” significa originalmente ” testemunha” mas entende-se no quotidiano como “pessoa sacrificada”. “Santo” significa originalmente “divino” ou “com Deus”; mas a linguagem corrente faz dele ora um “santinho” ou um “santarrão” ou é “santo” quem tem paciência.

Ora querer ser “feliz”, “testemunha” e “com Deus” é uma descrição que toca, possivelmente, muitas mais pessoas que os crentes. Mas usados pela linguagem da Igreja, estes termos, imediatamente suscitam barreiras de compreensão quase intransponíveis.

Este esclarecimento prévio é necessário para ajudar a entender o que a 11 de Julho, na sequência de João Paulo II, o Papa Francisco, veio promulgar. Em resumo, quebrou os muros identitários do catolicismo e abriu as portas para haver mártires e santos cristãos evangélicos, ortodoxos, anglicanos, uniatas…

A Carta SOBRE A OFERTA DA VIDA estabelece uma quarta via para a santidade: “a oferta de vida por amor”

Assim, passa a haver quatro critérios para o reconhecimento da “santidade”.
1. A disposição de oferecer livre e voluntariamente a vida por amor; o ato heróico de caridade e a morte prematura estão relacionados.
2. A prova de alguém ter vivido as virtudes cristãs – mesmo que de modo comum e não necessariamente heróico.
3. A prova de uma reputação de santidade, pelo menos após a morte.
4. A atribuição de um milagre com intercessão do candidato.

Deixe-se de lado o debate sobre o que são “milagres”,”atos heróicos”, “virtudes cristãs”. Uma vez mais, temos um conflito de significados entre o sentido doutrinário e o entendimento corrente destes conceitos,

A consequência do articulado exigente da Carta Apostólica MAIOREM HAC DILECTIONEM – SOBRE A OFERTA DA VIDA é que poderá haver santos de confissões cristãos não católicas. Por outras palavras, ser cristão católico não é condição necessária para ser “feliz”, “testemunha” ou “estar com Deus”.

Para os mais incautos, e também para os maliciosos, convém lembrar que esta proposta doutrinal de santos cristãos mas não necessariamente católicos não é uma criação do Papa Francisco.
Como tudo o que sucede na Igreja tem fundas raízes.

Desde logo o Concílio Ecuménico Vaticano II, com mais de 50 anos. Depois, desde há 20 anos, com João Paulo II que, em homilias, e cartas sobre a “Comunhão dos Santos” deu a ler o seguinte:

“Em muitos lugares, os cristãos têm reconhecido homens e mulheres que são mártires e testemunhas da fé, esperança e caridade. Alguns, como André Rublev, João Sebastião Bach, Monsenhor Óscar Romero, Elizabeth Seton, o mártir Anuarite do Zaire, e Martin Luther King foram reconhecidos por muitas razões que vão além da puramente religiosa”.

Uma penúltima nota é que, perante tanta meridiana clareza e abertura, surgem vozes de católicos reacionários e tradicionalistas, presos ao passado identitário, a zurrar que vem aí São Che Guevara… Não escutaram o Concílio: não escutaram João Paulo II a falar do “ecumenismo dos mártires“. Agora vão-se revoltar contra o “ecumenismo do amor que dá a vida pelos amigos”.

Felizmente, diz o povo que “vozes de burro não chegam ao céu.” Mas a voz do povo cristão que fez um São João Sebastião Bach e um São Martin Luther King, e tantos outros, essa deverá ser escutada.

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

  • Mendo Castro Henriques, Colunista do Jornal de Oleiros

 

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
Esta entrada foi publicada em Comunidades, Destaques, Igreja católica, Oleiros, Opinião com as tags . ligação permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *