As caricaturas neo – liberais, por Mendo Castro Henriques

 

 

As caricaturas neo-liberais

  • Mendo Castro Henriques

 

Ao olharmos para Theresa May e Donald Trump, os dois dirigentes do mundo-anglo-americano que alcançaram o poder em 2016 com os inesperados avanço populistas de direita, é difícil deixar de pensar que são caricaturas. E vem-nos à mente o dito de que a história repete-se primeiro como tragédia e depois como comédia.

Trump e May são caricaturas patéticas e fora de prazo de, respetivamente, Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que há quase quarenta anos puseram fim ao período de 30 gloriosos anos de crescimento económico e equilíbrio social na Europa e nos EUA, após as devastações da 2ª. Guerra Mundial

Em 1979, com a subida ao poder de Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Helmut Kohl começou um novo ciclo que veio a terminar na crise de 2007. Numa fase de grande progresso educacional e científico, que permitiu revoluções espantosas nas tecnologias, estes estadistas conservadores arredaram de cena as políticas sociais democratas e os programas keynesianos que tinham feito o sucesso dos 30 anos anteriores.

Com as políticas magnetizadas pelo centro-direita, veio a desregulamentação do sector financeiro e das megaempresas; terminaram as políticas anti-trust por vias dos políticos da terceira via, fossem de direita ou de esquerda, como Clinton e Blair. Os neoliberais vieram ao de cima e o impulso ganho das décadas anteriores permitiu confrontar e derrotar o que Reagan chamou de Império do Mal e os regimes de economia mista e de políticas externas insubmissas.

Com a implosão e desintegração da União Soviética em 1991, a gradual adesão, a partir de 1979, da China ao capitalismo e a esmagadora vitória americana na Guerra do Golfo em 1990 começámos a assistir ao que os ideólogos neoconservadores americanos chamaram de fim da história. O primeiro Bush proclamou uma Nova Ordem Mundial, com hegemonia americana, a única Grande Potência mundial, em um mundo unipolar e cada vez mais globalizado.

Com a vitória do capitalismo neoliberal sobre o capitalismo social democrata, todos os países da periferia e do centro viram-se forçados a aderir às políticas neoliberais, sintetizadas no Consenso de Washington. Com este vieram a redução dos direitos dos trabalhadores e a emergência de uma nova classe, o precariado, criado pela marcha tecnológica e a preparação educacional sem correspondente transformação da sociedade em nome da coesão e justiça social.

Com os atentados de 2001 das Torres Gémeas veio a desconsideração dos direitos civis com a legislação americana e internacional de combate ao terrorismo. Este novo inimigo foi empolado de modo a justificar as novas guerras de invasão e de imposição da democracia, desde a Afeganistão e Iraque até à Primavera árabe de 2011. Com estas políticas, triunfou o complexo militar-industrial americano com novos gastos militares e restrição aos direitos civis.

A recessão iniciada em 2007 que se tem vindo a prolongar e transformar em estagnação até 2017, trouxe um novo impulso à vaga reacionária; o abalo da economia globalizada, provocado pelo descontrolo e corrupção no sistema financeiro, e a necessidade de sua recuperação com os enormes recursos dos contribuintes, veio maximizar o princípio de privatizar o lucro e socializar as perdas. Como declarou o papa Francisco na exortação a Alegria do Evangelho instalou-se uma economia que mata com a culpa imputada aos trabalhadores da classe média.

Foram implementadas políticas recessivas para recuperar a dita confiança dos investidores. Esta política desatinada a que por ironia se chamou de TINA “there is no alternative” provocou desemprego e reduções de salários, e diminuiu os direitos do trabalho e reforma. Cresceram na Europa e nos EUA a xenofobia e os movimentos de direita que atingiram em 2016 o auge com o Brexit e a eleição do empresário Trump. As agressões que vinham de trás a países como a Líbia e a Síria, onde já morreram mais de 400 mil pessoas, geraram as ondas de refugiados, deslocados e migrantes, e o contrapeso das políticas anti-migratórias nos EUA e países centro-europeus.

É neste cenário que se movem as caricaturas Trump e May e, em escala menor, Temer do Brasil. O futuro joga-se já no presente e o enfraquecimento progressivo destas figuras prenuncia um novo ciclo internacional em que terão de emergir novas forças políticas e novos protagonistas.

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

  • Mendo Castro Henriques, Colunista Especializado

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