INQUIETUDE – Abril, Abril, Abril…, por José Lagiosa

Inquietude

Abril, Abril, Abril…

                                                                            

Abril...

Tinha 17 anos, quando naquela madrugada de Abril, um punhado de valentes avançou de Santarém até Lisboa com o objetivo firme de derrubar um regime de más memórias e dar aos portugueses a esperança, para muitos já perdida, da conquista da Liberdade.

Acordei naquela manhã, de 25, como em tantas outras, meio ensonado, com o propósito de, depois de um banho retemperador, ir apanhar o 31 da Carris, morava em Moscavide, para me dirigir ao Liceu Padre António Vieira, no Pote d’Água, onde frequentava o 6º ano.

Fiquei-me pelo banho. A notícia de que havia tropas no aeroporto e em outros pontos estratégicos da capital, levou a minha mãe a travar-me a ideia da viagem até ao estabelecimento de ensino. A minha consciência, no entanto, não permitiu que me mantivesse em casa, alheio ao que se estava a passar e resolvi ir mesmo para Lisboa ver o que se passava.

Abril...

 Por lá andei, na euforia que se espalhou por toda a cidade, com a certeza que o derrube da ditadura era já irreversível, como aliás, aconteceu. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Foi a tão desejada liberdade que, finalmente, chegava. Era o corolário das lutas estudantis, no secundário e em particular no Padre António Vieira, uma das escolas na vanguarda da luta dos estudantes não universitários. Foi o abrir uma janela de oportunidades para todos, foi o início de alguns meses de loucura, sensações novas, de um respirar aberto, sadio e feliz. Mas rapidamente se começou a verificar que nem tudo era o que parecia. Hoje os mais novos têm dificuldade em perceber o que se passou a seguir, os desvios de setores do FMA que perigosamente escolhiam caminhos, que porventura tivessem ido avante, teriam sido o regresso a sistemas opressores, embora de outra matriz. Foi uma época, e refiro-me aos meses que mediaram abril e novembro de 1975, difícil, de muita coragem e de, reconheço hoje, alguns erros. Mas preservámos a liberdade. E digo isto porque fui um participante ativo do processo, empenhado, destemido, aquele dia no jornal República, o dia da manifestação do Partido Socialista na Alameda, o confronto com o Diniz de Almeida no Ralis, tudo foi, quase surreal, visto há distância de 39 anos.

Mas a liberdade venceu, avançamos em direção à Europa, construímos, apesar de tudo, um país melhor.

Infelizmente, nestes últimos anos, os portugueses viveram momentos de apatia cívica, descrédito em relação à classe política, as consequências de políticas europeias mal definidas e que quebraram, vamos ver se transitoriamente ou em definitivo, a solidariedade que deveria ser o apanágio de uma Europa mais igual, mais solidária e porque não dizê-lo mais livre.

São os tempos da globalização que ao invés de coisas boas parece só ter trazido coisas más. A usura dos mercados, o descontrolo completo do sistema capitalista, a falta de coragem de políticos que não são mais aqueles que fizeram nascer uma Europa que fosse um polo de igualdade e solidariedade e passasse a ser uma fonte de problemas, desemprego, crise sistémica.

É urgente um novo Abril, em Portugal, um Abril na Europa e porque não, também um Abril no Mundo!

* José Lagiosa, Director – Adjunto dos Jornais de Oleiros e de Vila de Rei, escreveINQUIETUDE em todas as 5ªs feiras.

Abril...o povo

 

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
Esta entrada foi publicada em Destaques, Opinião. ligação permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *