25 Abril, 40 Anos, 40 Depoimentos

Lisboa, Coimbra, Timor, Beja, Penha Garcia, Castelo Branco e outros lugares. Os nossos convidados estavam, há quarenta anos, nos mais diversos locais. Em função disso mesmo, têm perspetivas diferentes na sua perceção do dia 25 de Abril e do que estava a acontecer. Mas após a confirmação do que realmente se estava a passar, a quase unanimidade em torno de sentimentos de alegria e regozijo pela devolução da Liberdade ao Povo Português é evidente. Já no que diz respeito ao que nos trouxeram estes 40 anos as opiniões divergem, como é aliás natural, em democracia.

1ª Onde se encontrava no 25 de Abril de 1974?

Maria do Carmo Sequeira, ex-deputada e ex- presidente da Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão, esteve no Largo do Carmo

EU ESTAVA LÁ!!!!!!

Tinha 21 anos….

Cerca das 8 da manhã, a campainha da minha casa (1ºandar tocava sem parar e eu, um pouco atordoada, pela noitada anterior passada em frente ao forte de Caxias a conversar com um grupo de amigos, sobre assuntos que nos preocupavam, levantei-me e fui abrir a porta…Alguém gritava lá em baixo……

Há uma revolução, levantem-se!!!!

Não queria acreditar, mas também não fiquei ali sem saber o que se passava!

E assim, com a Zélia Matos que morava comigo, fomos acordar o Pedro, na altura meu namorado e arrancamos de elétrico da Cruz Quebrada para Lisboa…

As voltas que demos foram tantas, as corridas muitas, mas terminamos aqui….

No Largo do Carmo. Quando o general Spínola chegou, no carro preto, que o transportava, ainda conseguimos furar pela multidão e ali estou eu com o Pedro e a Zélia…mesmo no local onde tudo aconteceu!!!!!!

2ª O que representa, para si, passados 40 anos, o 25 de Abril?

Passados 40 anos, celebramos este ano as comemorações do 25 de Abril no meio de alguma crispação política, muitas polémicas e alguma tristeza e, quem como eu, veio para a rua, carregada de emoção e paixão, acreditando que era importante lutar pela LIBERDADE, pela DEMOCRACIA… sente alguma frustração ao olhar hoje para o retrocesso de algumas conquistas determinantes nestes 40 anos.

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1ª – Onde se encontrava no dia 25 de Abril de 1974?

Fernando Freire, presidente da Câmara Municipal de V. N. da Barquinha

No dia 25 de Abril de 1974, com 14 anos e idade, encontrava-me a frequentar o antigo 4.º ano do liceu no Seminário de Beja, em regime de internato.

Recordo-me como se fosse hoje. Era 5.ª feira e estava um dia de sol. A minha turma tinha aulas no lado nascente do edifico do Seminário. Na disciplina de português, pelas 10 horas da manhã, o docente e Pe. António Manuel Aresta Guerreiro, atual Ecónomo Diocesano e do Seminário, transmitiu-nos que tinha havido um golpe de Estado. Mais nos informou que a Direcção nos manteria avisados do evoluir da situação. Os dias seguintes decorreram normalmente em ambiente escolar, pois não havia contacto com o exterior. Só podíamos sair aos domingos e feriados da parte da tarde, para passeio. A realidade com a revolução só se tornou efetiva na semana seguinte com a realização do 1.º de Maio em Beja. Aí participei na minha primeira grande manifestação, a de trabalhadores agrícolas, onde sobressaía o ícone “Catarina Eufémia”, ceifeira de Baleizão, morta numa greve de assalariadas rurais pela GNR.

Tudo para mim era novidade embora sabendo que, pela calada da noite, o meu pai em Oleiros, minha terra natal, ouvia, reiteradamente, a rádio “Voz da América” e a rádio “Deutsche Welle” para saber notícias do seu país.

2ª – O que representa para si, passados 40 anos, o 25 de Abril?

O 25 de Abril de 1974 é o maior acontecimento histórico do Séc. XX em Portugal. Permitiu ao povo exercer os valores da Liberdade, da Democracia, da Justiça Social e da Paz. Valores e princípios de um regime democrático que até ali lhe tinham sido sonegados.

Eu não conheço nenhum regime melhor do que aquele que saiu do 25 de Abril. Se há defeitos não são do regime democrático mas dos homens que nos regem.

Como advogado, fiz a reconstituição de muitas carreiras de militares que participaram na transição para a democracia iniciada em 25 de Abril de 1974 e, em consequência do seu envolvimento direto no processo político desencadeado pelo derrube da ditadura, foram afastados ou se afastaram ou cuja carreira foi interrompida. Tenho a honra de ter no meu arquivo, embora coberto pelo sigilo profissional, muita história relacionada com a transição do 25 de Abril e dos acontecimentos que posteriormente ocorreram, como são exemplos o 11 de Março e o 25 de Novembro.

Neste 40.º aniversário, como presidente do Município de Vila Nova da Barquinha, quis envolver as associações, as escolas e as pessoas pelo que as comemorações vão decorrer de 23 a 27 de Abril. Num ambiente de festa, de exposições e de desporto vão participar militares e políticos que participaram na transição para a democracia, alguns dos quais foram hostilizados na sequência dessa transição, para ajudarem, principalmente os mais novos, a perceber o que foi esse momento grandioso da nossa história recente. Participarão, por exemplo o Coronel Carlos de Matos Gomes, “Capitão de Abril” e escritor, natural de Vila Nova da Barquinha, e Francisco Fanhais, cantor de Abril, e natural, também, deste concelho.

Importa dignificar esta data e dar-lhe o relevo que ela merece na nossa memória e na história de Portugal.

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