25 Abril, 40 Anos, 40 Depoimentos

Muitos dos portugueses que ainda hoje lutam pelos seus ideais e convicções ideológicas, têm uma vida de combate político que é anterior ao 25 de Abril. Naquela época de obscurantismos todos eram “comunistas” como dizia o regime ditatorial de então. Eles eram, primeiro que tudo, anti-fascistas. Carlos Vale é um exemplo disso. É um dos nossos convidados de hoje. Por outro lado temos aqueles que, ainda muito jovens, foram “apanhados” no coração da Revolução e participaram nela por dentro. É o caso de Aníbal Neves o nosso outro convidado de hoje. Um e outro, cada qual à sua maneira, têm sido combatentes da Liberdade ao longo dos últimos quarenta anos e defensores daquilo em que acreditam. Isto é, afinal, a essência do pluralismo e da democracia. Seja bem vindo quem vier por bem.

1ª – Onde se encontrava no dia 25 de Abril de 1974?

Carlos Vale, anti-fascista e militante do PCP

Coincidência. Estava em Santarém de onde tinha partido a coluna militar com Salgueiro Maia no comando. Era manhã e preparava-me para regressar a Castelo Branco. Mas, com as rádios a difundirem notícias sobre as movimentações militares em Lisboa, a minha atenção centrou-se em precisar quais as origens e seus fins. Como alguns avisos que aconselhavam as pessoas a não saírem de suas casas não coincidiam com os apelos feitos à população para ocupar as ruas em apoio dos militares revolucionários, ainda porque consegui informações mais fiáveis, decidi viajar para Lisboa e dar o meu modesto contributo na Aliança POVO/MFA para o derrube da ditadura fascista. Estive na Baixa, no Chiado, para depois me fixar no Largo de Camões de frente para a rua António Maria Cardoso (sede da Pide), de onde as balas assassinas dos Pides feriram e mataram. Acabei por ficar três dias e meio. Dos mais felizes da minha vida.

2ª – O que representa para si, passados 40 anos, o 25 de Abril?

Com a Revolução do 25 de Abril foram aprovados os pilares fundamentais do funcionamento da nossa democracia, inscritos na Constituição. Só com a sua defesa, alcançaremos: um regime de liberdade no qual o povo decida do seu destino e um Estado democrático, representativo e participado; um desenvolvimento económico assente numa economia mista, dinâmica, liberta do domínio dos monopólios, ao serviço do povo e do País; uma política social que garanta a melhoria das condições e vida dos trabalhadores e do povo; uma política cultural que assegure o acesso generalizado à livre criação e fruição culturais; uma pátria independente e soberana com uma política de paz, amizade e cooperação com todos os povos. O momento trágico que se vive nada tem a ver com estes valores. Ou seja, não representam os valores de Abril e da Constituição. Então, que se cumpra ABRIL.

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1ª – Onde se encontrava no dia 25 de Abril de 1974?

Aníbal Neves, sindicalista, co-fundador da UGT

No dia 25 de Abril já me encontrava no teatro de operações para a queda do governo, pois pertencia a uma companhia de Cavalaria oriunda do campo militar de Santa Margarida, que para além da noite do dia 24 para 25 ter participado em lugares como o Aeroporto, Praça da Figueira e por fim no Largo do Carmo, na rendição de Marcelo Caetano. Fui um militar do 25 de Abril com todo o gosto, mas confesso que somente soube que ia participar num golpe de estado no dia 24 de Abril já perto da noite, na qualidade de Furriel Miliciano tenho o maior prazer em pertencer ao grupo dos militares que deitaram abaixo o fascismo. Muitas coisas lindas se passaram nessa noite, o que daria muito tempo para explicar.

2ª – O que representa para si, passados 40 anos, o 25 de Abril?

O 25 de Abril representa para mim uma total frustração, todos os valores porque lutei estão a desaparecer, ainda fui para Angola durante 32 meses, quando regressei em 1975, pensava que tudo ia mudar, que os trabalhadores começavam a ter os seus direitos, e que finalmente a liberdade porque todos ambicionávamos era uma realidade. Com os sucessivos governos tudo se perdeu e vai perdendo. Grande preocupação o futuro dos meus filhos e dos meus netos. A minha grande esperança, que a mudança se verifique com ou sem armas. Assim é que não podemos viver.

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