25 Abril, 40 Anos, 40 Depoimentos

40 anos, muita escrita, muita luta. Qualquer arma é um bom pretexto para defender aquilo em que se acredita. Os nossos convidados, que hoje dão à estampa os seus testemunhos, estão em setores de atividade diferenciados mas têm uma coisa em comum: ambos lutam, escrevem, enfim, interveem graças a um dos legados do 25 de Abril, a restituição da Liberdade ao povo português. Muitos dos sonhos de Abril estão adiados. A democracia e a liberdade, esses nunca podem estar em causa. Maria Manuel Viana, que ficou ligada a Castelo Branco, felizmente, graças a um erro de preenchimento de um formulário num concurso de professores e Luís Garra na sua atividade sindical, são dois protagonistas que nos garantem que é com luta que se constrói o futuro de Portugal. Sempre…

1ª – Onde se encontrava no dia 25 de Abril de 1974?

Maria Manuel Viana, escritora e ex-vereadora da Câmara Municipal de Castelo Branco

Na noite de 24 para 25 de Abril, festejava os meus anos, em casa, com amigos. Fazia 19 anos e foi a mais longa noite da minha vida, feita de medo e esperança. Éramos um grupo de pessoas, unido pela cumplicidade e pelo desejo de um país novo: muitos vinham da crise de 69, outros do golpe das Caldas. Foi um aniversário estranho, a ouvir rádio, o coração apertado, poucas as palavras. Quando o Paulo de Carvalho cantou E depois do adeus, uma emoção única nasceu-nos por dentro. Era o sinal da liberdade, o primeiro dia de muitos outros que se seguiriam. Foi a noite mais feliz da minha vida.

2ª – O que representa para si, passados 40 anos, o 25 de Abril?

40 anos depois, acredito que se concretizaram muitas das esperanças em que acreditávamos: liberdade de expressão, eleições livres, educação e saúde igual para todos, justiça social, igualdade de género, democracia. 40 anos é pouco na história de um povo: lutar para que as conquistas de Abril se mantenham é um imperativo ético e o lema da minha vida.

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1ª – Onde se encontrava no dia 25 de Abril de 1974?

Luís Garra, Coordenador da União de Sindicatos de Castelo Branco

Como se sabe o movimento dos capitães começou de noite e de manhã, como habitualmente, fui trabalhar na empresa de lanifícios Sá Pessoa e Irmãos e apercebi-me que os operários mais antigos estavam satisfeitos, alguns até eufóricos, e logo começaram a falar em sair à rua para apoiar a queda do regime fascista. A partir daí fomos sabendo mais notícias e a apercebermo-nos que em todo o país o povo estava a ir para a rua e, claro, nós também fomos. Confesso que não sabia bem porquê, mas os operários mais velhos, alguns não sabiam ler nem escrever mas tinham uma cultura e uma consciência de classe enormes (só mais tarde soube o que isso era), incutiram-me alegria e confiança e fizeram-me participar entusiasticamente. Foi assim no 25 de Abril, foi assim no primeiro 1º de Maio em liberdade e foi isso que me fez optar, política e partidariamente e abraçar a vida sindical porque logo que houve eleições sindicais, ainda com dezassete anos (só fui aceite aos dezoito) fui eleito delegado sindical pelos meus camaradas de trabalho e isso traçou uma opção que ainda hoje se mantêm.

2ª – O que representa para si, passados 40 anos, o 25 de Abril?

O 25 de Abril é para mim uma fonte de permanente inspiração. É a certeza que aqueles que enfrentaram a ditadura fascista o fizeram para que o seu povo se libertasse de uma ditadura opressora que aniquilou o futuro a gerações e gerações de portugueses e em particular à juventude e espezinhou a dignidade dos trabalhadores.

Por isso, neste tempo de retrocesso laboral e social, de empobrecimento de Portugal e dos portugueses, de definhamento e abandono do interior e de amputação dos pilares fundadores do regime democrático que a Constituição da República consagra, o futuro do país é indissociável dos valores de Abril naquilo que eles tiveram e continuam a ter de elemento determinante para a liberdade, a democracia e o progresso e para o desenvolvimento económico, social e cultural do país e da nossa região.

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