25 Abril, 40 Anos, 40 Depoimentos

Ao longo de 40 anos, a sociedade portuguesa alterou os seus padrões de vida e  a participação política não fugiu à regra. De participações ativas e grandiosas, no início da democracia, temos vindo a assistir a um alheamento, por parte dos portugueses, em relação à política, aos partidos, com índices de participação em atos eleitorais, baixos. Afinal que fizeram os políticos nestes 40 anos para que tal tivesse vindo a acontecer? E de que estão à espera para inverter esta situação. A democracia constrói-se com e para as pessoas. Sem elas, a democracia e a liberdade correm perigos. A esperança no entanto continua latente no espírito de Maria Celeste Capelo e de José Pires, ambos intervenientes na vida política, social e cultural da cidade de Castelo Branco nestes últimos quarenta anos.

1ª – Onde se encontrava no 25 de Abril de 1974?

Maria Celeste Capelo, professora

Tinha nessa altura 28 anos e dava aulas no 1º ciclo na escola de Azenha de Cima na freguesia de Sarzedas. Deslocava-me de carro de Castelo Branco até lá. Nesse dia não liguei o rádio, pois ia na conversa com a colega que ficava em Sarzedas.

Dei as aulas normalmente, cumprindo o plano que estava previsto, mas, na hora do recreio, dirigiu-se à escola o avô de um aluno perguntando-me se eu sabia de alguma coisa estranha que se estava a passar em Lisboa.

Dizia ele:

─ Sra. Professora, o rádio está só a dar música e a televisão não tem imagem. Respondi-lhe:

─ Deve ter havido alguma avaria e corte de luz. Na hora do almoço já lá vou (ia tomar café, ao café, mercearia, depósito de rações etc. de que Sr. Francisco de seu nome, era proprietário).

De facto a essa hora tudo se mantinha na mesma. Acabei as aulas, regressei a Castelo Branco, mas antes de ir para casa passei pelo escritório do meu marido, para me inteirar sobre aquilo que eu pensava ser falta de energia lá para os lados de Lisboa. Naquele tempo não havia telemóveis.

Fui para casa e liguei a televisão que entretanto começou a funcionar, mas com muito pouca informação. Naquele tempo, eu já tinha uma televisão a cores e antena que me permitia ver a TVE, pois em Espanha já havia transmissão a cores. Foi através de Espanha que percebi mais concretamente o que se estava a passar. Mudava da TV Portuguesa para a TV Espanhola, e assim passei o serão até bastante tarde.

No dia seguinte fui dar aulas, pois as crianças não estavam avisadas de que poderia não haver escola. Nesse dia só dei aulas de manhã, e regressei a Castelo Branco mais cedo. Durante o fim-de-semana fui estando atenta ao desenrolar dos acontecimentos.

2ª – O que representa para si, passados 40 anos, o 25 de Abril?

Ao nível da teoria do Regime, representa o mesmo: Democracia, Liberdade, Igualdade e Solidariedade, com a particularidade de, há 40 anos, ter mais uma função ─ a descolonização.

Ao nível da Praxis, muita desilusão:

Democracia exige respeito pelo outro. Pois até na Assembleia da República, que muitos chamam a casa da Democracia, vemos o espectáculo dado pelos deputados, pelos assistentes nas galerias, e pela desobediência de cidadãos que por força das funções que desempenham, deviam dar o exemplo.

Liberdade foi substituída por libertinagem, nos mais variados aspectos do quotidiano. Civismo? Não, é retrógrado, pode até ser apelidado de fascista.

Igualdade é uma miragem, sendo mais visível no campo da Justiça

Solidariedade, como? Se o leque salarial actualmente existente tem um enorme fosso entre o maior e o menor salário? Se o número de pobres, dizem as estatísticas, está a aumentar?

Resta-me, porque sou optimista, que se possa inverter este estado de coisas ao nível da Parxis, mas ajudada pela mudança de mentalidades, pela exigência do rigor, do desenvolvimento pelo trabalho, pela progressão através do mérito e da verdade.

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1ª – Onde se encontrava no 25 de Abril de 1974?

José Pires, presidente da Assembleia de Freguesia de Castelo Branco

No dia 25 de Abril de 1974 estava em Mafra, na Escola Prática de Infantaria, a assistir, deslumbrado, aos movimentos dos militares revolucionários.

Tinha lá chegado pouco antes da meia-noite do dia 24.
Mal eu e os outros adivinhávamos o que de bom nos estava para acontecer!

2ª – O que representa para si, passados 40 anos, o 25 de Abril?

40 anos depois:

Entre as ilusões e as desilusões, os acertos e os erros, apesar dos pesares, o balanço é muito positivo. Portugal não é o mesmo que seria sem o 25 de Abril de 1974. É, naturalmente, muito melhor. E estando, felizmente, muito melhor do que estaríamos, podemos (e devemos) lutar contra os que querem voltar as coisas ao contrário.

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