25 Abril, 40 Anos, 40 Depoimentos

O leque de personalidades convidadas, pelo Jornal de Oleiros, foi vasto e abrangente no que diz respeito a vários setores da sociedade do distrito. Não nos ficámos só pelos que cá nasceram e vivem. Fomos mais longe, convidámos aqueles que não tendo cá nascido, por cá estão e por cá dão o seu melhor em prol do coletivo. Hoje temos os depoimentos de Maria Alzira Serraqueiro, última Governadora Civil do distrito de Castelo Branco e Jorge Neves, presidente da Junta de Freguesia da cidade albicastrense e dirigente nacional da ANAFRE.

1ª – Onde se encontrava no dia 25 de Abril de 1974?

Maria Alzira Serrasqueiro, última Governadora Civil do Distrito de Castelo Branco

No dia 25 de Abril de 1974, encontrava-me em Lisboa onde residia e estudava, estando no 3º ano do Curso de Direito na Faculdade de Direito de Lisboa; fui acordada às 7h da manhã com a notícia que havia um “golpe de estado“; liguei a rádio e a televisão, e percebi que havia algo mais que um golpe de estado; pelas 15 horas fui ter com colegas a Lisboa e fomos todos para o Largo do Carmo, entrando em festa até ao 1º de Maio.

2ª – O que representa para si, passados 40 anos, o 25 de Abril?

O 25 de Abril representa hoje como ontem, o restaurar da Liberdade, o caminho para o desenvolvimento, a vivência da cidadania, de valores cívicos, culturais e sociais, antes proibidos; infelizmente nos últimos tempos vemos tudo em regressão perante um Governo neoliberal e de direita; precisamos novo 25 de Abril.

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1ª – Onde se encontrava no dia 25 de Abril de 1974?

Jorge Neves, Membro do Conselho Diretivo da ANAFRE, presidente da Freguesia de Castelo Branco

Tinha 14 anos. Vivia em Ponte de Sor e estudava no antigo 5º ano que agora corresponde ao 9º ano de escolaridade.

Apesar da tenra idade, estava esclarecido sobre a situação em que vivíamos no nosso país.

Alpiarça foi a terra que me viu nascer e que tinha a particularidade de ser uma terra de resistência e de luta pela liberdade. Aí a PIDE tinha instalações para mais de perto poder vigiar movimentos e situações atentatórias contra o regime ditatorial. Estava na memória daquele povo, o facto de um dos seus filhos – Alfredo Lima – ter sido assassinado, supostamente, pela polícia política em 1950. Na minha infância ouvia, com demasiada regularidade, aterrorizado, que durante a noite, a PIDE tinha invadido uma casa e teria levado para interrogatório e tortura, um dos seus habitantes apenas devido a uma denúncia, por ventura falsa de um informador. Não podia haver desabafos espontâneos, porque aos ouvidos de “gente errada” poderiam significar problemas inesperados. Conversas abertas e livres, só com pessoas da mais insuspeita confiança e ajuntamentos não eram nada bem vistos. Ali até das próprias paredes se desconfiava. Apesar de ter saído muito cedo de Alpiarça, conheci estes dramas.

Mais tarde, quando já vivia em Ponte de Sor, regularmente, com o meu pai, os dois dentro do automóvel que possuíamos e que tinha um rádio “Blaukpunt”, ouvíamos emissões em português, em banda curta, através da BBC e da Rádio Voz da Liberdade, a partir de Argel. Vozes como a de Manuel Alegre, denunciavam as manobras do regime e informavam as notícias da imprensa internacional que criticavam o regime, em concreto, a guerra colonial e a ausência de liberdade. Foi através dessas “clandestinas” ações que ouvi, temas musicais que hoje fazem parte do nosso património, e tomei contacto com vozes como as de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire ou Luís Cília.

Nessa manhã de 1974, 25 de Abril, quinta-feira, pela manhã, o meu pai disse-me que tinha havido um “golpe de estado” e que o regime iria mudar.

O dia avançou normalmente com atividades escolares. Mas essa normalidade era apenas aparente porque havia um grande nervosismo latente em toda a gente. Recordo um professor que era extremamente rigoroso e inflexível nas suas aulas, daqueles que não nos deixavam colocar “o pé em ramo verde”. Nesse dia o homem, que teria uma idade a rondar os 30 anos, estava irreconhecível. Não trabalhámos nada – a aula era de caráter prático, Práticas de Eletricidade- e solicitou, quase em tom de súplica, que não fizéssemos muito barulho e passou a aula a ouvir as notícias num pequeno transístor que tinha levado. Nunca consegui saber a causa exata do nervosismo desse professor, nem saber de que lado estaria: se estava ao lado do regime de então ou se desejava ardentemente que o movimento de liberdade vingasse.

2ª – O que representa para si, passados 40 anos, o 25 de Abril?

Tal como o comum dos cidadãos, passados 40 anos, não estou muito satisfeito quanto a este ponto de chegada. As condições em que vivemos não são as que com toda a certeza, os homens e mulheres verdadeiramente de Abril desejaram. Os valores de hoje assentam em ideias e acções neo-liberais. Os mercados, o capital subjugam tudo o resto. O estado social – em concreto a escola pública, a saúde e a segurança social – está a ser desmantelado. A crise sem paralelo nos domínios económico, social e financeiro a par de atitudes de controlo da comunicação social e apoiadas em estratégias consertadas da generalidade da opinião publicada e de comentadores a apelar ao consenso e a renegarem a ideologia, podem fazer perigar o regime democrático. A não ser que…

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