Globalização, por Manuela Marques

 Globalização

            A humanidade tem interagido desde há largas centenas ou milhares de anos, a partir de rotas comerciais do antigo “velho mundo” até ao contributo fulcral dos descobrimentos, levados a cabo pelos europeus, nós portugueses particularmente, com o “novo mundo”. Os séculos XV e XVI contribuíram imenso para a interação cultural, filosófica, política e religiosa. O mundo passou a conhecer-se mais de perto e o movimento de bens, pessoas e ideias expandiu-se, largamente e grandiosamente, até aos dias de hoje. É no século XX e XXI que a palavra GLOBALIZAÇÃO ganha todo o seu sentido e ele é lato, pois não compreende apenas a interação acima referida, mas sim o crescimento, entre países, de mecanismos políticos e económicos que fizeram do mundo aquilo que hoje se apresenta aos nossos olhos, para além do liberalismo económico, um capitalismo exacerbado, fruto da necessidade do homem de viver escravo do dinheiro, da aquisição de bens a todo e qualquer custo. Vejamos se não é isto que qualquer trabalhador sente na pele, nos dias que correm? E as crises económicas pelas quais os países passam, advêm de que tipo de ações? Quem são os culpados?

            Tantas questões perpassam, por nós, sempre que nos encontramos frente a frente com o capitalismo diário, sim, porque ele não existe somente entre nações, entre governos, existe também no quotidiano de cada um, pelo menos a maioria de nós sofre as consequências desse capitalismo desmedido.

            Mas voltemos ao termo em refrega, a globalização afeta todos os setores da sociedade, especialmente, a indústria e o comércio, dependendo do nível de desenvolvimento dos diferentes países, mas também a comunicação. E nesta área, globalização é um termo até, quiçá, pouco adequado, pois a comunicação passou a ser mais que global é totalmente livre e o termo universalização parece assentar-lhe muito melhor. A internet, obviamente, é o exemplo mais visível do que é esta globalização/universalização da comunicação. Se, antigamente, tínhamos acesso ao jornalito da terra, agora podemos fazer parte dele e com um “touch” acedemos à informação mundial, eu diria mesmo, universal e galaxial, desculpando-me pelo neologismo forçado, pois não me parece que estejamos sós neste e noutros universos se eles existem…Num destes séculos vindouros, um pouco bem lá para a frente, em jeito de prolepse, atrevo-me a profetizar uma “galaxiglobalização”, com viagens interestelares, convívios com outros seres e vidas e sobretudo muita aprendizagem, porque o nosso mundo caminha a passo de gigante no avanço técnico, mas a passo de caracol, ou mesmo a passo de caranguejo, no que diz respeito ao conhecimento de si próprio e do relacionamento com os outros. Realmente, a globalização é como um pau de dois bicos: ora andamos como doidos a descobrir e a crescer cientificamente, ora caímos como tordos, mortos por aquilo que nos prejudica a alma e o sentimento. Muito nos preocupamos com o exterior e pouco ou nada com o interior. Estes equilíbrios sempre andaram desajustados desde que o nosso antepassado se tornou “sapiens” e sempre com o mesmo tipo de desculpa: ou mato, ou morro! Lá por estarmos mais próximos fisicamente, não significa que estejamos espiritualmente e este assunto pouco ou nada interessa à maioria das gentes, apenas aos mais “crescidos da vida” que vendo a sua hora derradeira cada vez mais perto se voltam para a espiritualidade, porque se lembram de uma máxima que os aterroriza, no fundo, «És pó e ao pó voltarás».

Contudo, a globalização com o seu brilhante desenvolvimento trouxe uma coisa extraordinária, o aumento da longevidade. Prevê-se que num futuro já muito próximo a média da esperança de vida chegue aos cem anos, nos países desenvolvidos claro, porque morte nos países pobres haverá sempre e particularmente nas crianças e jovens e embora por vários motivos, por uma razão particular, completamente absurda, num mundo que se diz GLOBAL, por fome, fome, muita fome. E que fazer então com uma sociedade de centenários e centenárias, na reforma (se ela existir)? Há uma expressão sábia para quando perdemos algo material nas nossas vidas, que reza: “Vão-se os anéis, mas ficam os dedos”. Supondo querer compor uma imagem metafórica um tantinho forçada, admito, imaginaremos que os anéis são a gente idosa, porque tem o atributo de ter ganho essa categoria de joia, numa vida e canseira de trabalhos e sacrifícios incríveis, os dedos serão pois os mais jovens, trabalhadores…Neste caso devemos começar a inverter alguma da sabedoria de antanho e como será certo, começando nesta expressão, alterando-a para “Vão-se os dedos, ficam os anéis”…E para bom entendedor…

            Por vezes, penso que somos como a metáfora bíblica de Adão e Eva e vivemos num paraíso, só que sozinhos, sem lei, nem rei, à mercê de umas serpentes sabichonas que se enrolam ao nosso pescoço, nos ludibriam, com promessas vãs, nos sugam como sanguessugas vampirescas, indefinidamente, incessantemente, sem podermos reagir.

            E porque motivo abordo a questão da globalização? Pois que há várias teorias à volta deste assunto, com muitos teóricos inteligentes e sábios e com muitos prémios atribuídos e etc, etc, etc. Embora eu seja “ninguém” também tenho a minha teoria quanto à globalização e gostaria de a partilhar, afirmando convictamente que mudar-lhe-ia o termo para “UMBIGUIZAÇÃO” e passo a explicar. Este termo por mim neologizado, nasce do vocábulo “umbigo” que todos conhecem e têm, é o espólio do elo de ligação com a nossa “mater” (mãe) e é forte essa ligação, independentemente da relação que possamos vir a ter mais tarde. Ora, o umbigo, tem em si conotadas algumas expressões que quase todos conhecem, tais como “Olhar para o próprio umbigo”; “Viver em torno do próprio umbigo”; “Meu umbigo, meu mundo!”, entre outras que filosofam o mesmo tema: egoísmo, egocentrismo, narcisismo…e outros –ismos de que se lembrarão certamente e agora seria uma perda de tempo expor aqui. Para completar a teoria do umbigo, falta dizer ainda que do ponto de vista da moda, há quem o esconda e há quem o mostre claramente, descaradamente (atrevo-me a dizer) o que certamente está relacionado com questões estéticas: há quem o tenha bonitinho, há quem o tenha menos formoso. Mas, como bem diz um adágio popular, nem tudo o que parece é(perdão para esta minha tendência em considerar sábia a longura da idade). E a verdade é que conhecemos muitos umbigos feios, mesmo feios, porque egoístas, narcisistas e egocentristas e outros imperfeitos, mas tão altruístas e benévolos, embora poucos haja nesta aldeia global que é a nossa Terra, lá no sistema solar, na galáxia “láctea”…Afigura-se-me que a globalização está na era da umbiguização! Cada vez com mais frequência, em tantas matérias, pensamos totalmente em nós e menos nos outros e decidimos mais a nosso favor que dos outros e vamos arranjando desculpas rotas e esfarrapadas para nos justificarmos, quer a nível pessoal, quer a nível político, religioso, e até filosofamos em grupo sobre o umbigo. Nenhum de nós escapa a esta reação umbilical, mesmo por mais que lhe fuja, porque a herdámos e porque nunca tentámos revertê-la, mas sim fizemo-la crescer com esta GLOBALIZAÇÃO. Se analisarmos bem a questão da globalização, concluímos que somos movidos, não pela necessidade de estar juntos e nos conhecermos bem, comungarmos daquilo que o nosso mundo nos oferece, mas pela necessidade de nos superiorizarmos, de nos agigantarmos em relação ao nosso semelhante. Por isso, a desigualdade governará sempiternamente, como bola de neve, enquanto a nossa raça não mudar para uma era cujos erros do passado, que é o nosso presente, sejam corrigidos. Que esperamos do futuro, nós a geração atual e a que virá na roda seguinte? Oh! Pois é…Uma roda, é uma roda.

 

 abril de 2014

Manuela Marques

 Professora Manuela Marques

Nota da Redacção

* A Dra Manuela Marques é Presidente do Conselho Editorial do Jornal de Oleiros.

 

 

 

 

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