Manifesto e Contra-Manifesto, por António L. Graça

O FAROL

António L. Graça

 

 

 

 

 

MANIFESTO E CONTRA- MANIFESTO

Um documento defendendo a reestruturação da dívida pública portuguesa, subscrito por cerca de 70 personalidades de vários quadrantes da vida nacional, veio provocar grande agitação nos meios políticos

Trata-se de um documento subscrito por cidadãos que, numa democracia, têm todo o direito de exprimir as suas opiniões sobre os assuntos de interesse para o país.

O primeiro-ministro, do alto da sua arrogante ignorância, rejeitou desde logo conteúdo do documento. Alguém, de entre o seu exército de assessores, lhe deveria explicar que, reestruturar não é deixar de pagar, nem implica, à partida, qualquer perdão de dívida, reestruturar é, tão simplesmente, ajustar as condições actuais da dívida, nomeadamente, taxas de juro e prazos de liquidação, à capacidade que o país possa ter para satisfazer os seus compromissos, diminuindo assim o risco de incumprimento dos mesmos, o que será favorável para as partes envolvidas.

Nas condições actuais, o país terá grandes dificuldades em liquidar a dívida, pois a economia está de tal forma asfixiada que não gera riqueza suficiente para cumprir aquele objectivo. Dizer que a dívida portuguesa é sustentável, é uma fantasia, a menos que se esteja a pensar asfixiar os portugueses até ao último cêntimo.

Como seria de esperar surgiram já várias posições a favor e contra as orientações contidas no documento.

Concordo com os que afirmam que o mesmo peca por tardio, uma vez que aparece a curta distância do fim previsto para o programa da troika, aparecendo também poucos dias antes da ida de Passos Coelho à Alemanha, receber ordens da sua “patroa” , factos que podem perturbar o sossego dos seres divinos que manipulam os sacrossantos mercados.

Aparte este aspecto, o documento contém uma análise objectiva e correcta sobre a situação do país que não deveria ser ignorada por quem tem responsabilidades governativas e as desempenha com seriedade.

De entre as várias reacções ao manifesto, gostaria de salientar aqui, a produzida pelo conhecido e conceituado comentador da SIC, José gomes Ferreira, que produziu um documento intitulado “carta a uma geração errada”, do qual, embora discordando frontalmente do conceito de conflito de gerações, me permito, com o devido respeito para com o autor, salientar algumas passagens, como segue:

E sim, Eng. João Cravinho, é bom lembrar-lhe que a 1 de janeiro de 1999, a taxa das obrigações a 10 anos estava nos 3,9 por cento mas quando o seu Governo saiu, em Outubro desse ano, já estava nos 5,5 por cento, bem acima do valor atual.

É bom lembra-lhe que fazia parte de um Governo que decidiu a candidatura ao Euro 2004 com 10 estádios novos, quando a UEFA exigia só seis. E que decidiu lançar os ruinosos projetos de SCUT, sem custos para o utilizador, afinal tão caros para os contribuintes. O resultado aí está, a pesar na nossa dívida pública.

É bom lembrar aos subscritores do manifesto pela reestruturação da dívida pública que muitos de vós participaram nos Conselhos de Ministros que aumentaram objetivamente a dívida pública direta e indireta.”

“Sim, todos sabemos que quem pôs o acelerador da dívida pública no máximo foi José Sócrates, Teixeira dos Santos, Costa Pina, Mário Lino, Paulo Campos, Maria de Lurdes Rodrigues com as suas escolas de luxo que foram uma festa para a arquitetura e agora queimam as nossas finanças. Mas em geral, todos foram responsáveis pela maneira errada de fazer política, de fazer negócios sem mercado, de misturar política com negócios, de garantir rendas para alguns em prejuízo de todos.”

Porque não ajudam a cortar a sério nas rendas das PPP e da Energia? Nos autênticos passadouros de dinheiros públicos que são as listas de subvenções do Estado e de isenções fiscais a tudo o que é Fundações e Associações, algumas bem duvidosas?

Acham que tudo está bem nestes setores? Ou será que alguns de vós beneficiam direta ou indiretamente com a velha maneira de fazer negócios em Portugal e não querem mudar de atitude?

O CONSENSO DE PASSOS

O primeiro-ministro, depois de, por volta do final do ano passado, ter afirmado que não precisava do PS para nada, tem vindo ultimamente a acenar com a necessidade de os partidos da coligação do governo, chegarem a um consenso com o maior partido da oposição.

Embora se saiba que a aproximação ao PS não passe de um presente envenenado, no sentido de o fazer embarcar como co-responsável numa nova vaga de políticas de confisco e agressão dos direitos dos portugueses, entendo que o PS deveria aceder ao convite e, se como se espera, o consenso do primeiro ministro se reduza a pouco mais do que dizer ámen às suas ideias, deveria o PS, sendo coerente, recusar as propostas de Passos, explicando aos portugueses que propostas lhe foram apresentadas e as razões pelas quais as não aceitou.

E…DEPOIS DA TROIKA?

A fazer fé no relógio do Paulinho, que, ao que parece, já não serve para nada, há quem apregoe o fim do cativeiro imposto pela troika.

Nada mais falso, como o Presidente da República afirmou há alguns dias, ainda vamos ficar debaixo de olho, por vários anos.

Gerou-se grande agitação sobre o tipo de saída do programa da troika, passando a falar-se muito sobre programa cautelar e, ou, saída limpa, à irlandesa.

Portugal não tem condições para apanhar uma saída à irlandesa até porque o caso da Irlanda é diferente do nosso, e, falar em saída limpa, não passa de uma manobra eleitoral, semelhante a qualquer publicidade a um detergente. Aliás, uma saída limpa seria a mais conveniente para limpar políticas menos limpas seguidas pelo governo.

Mas, a verdade é que a saída será feita da forma que a europa rica impuser, não sendo para tal o governo visto nem achado, apenas recebendo as ordens da criatura alemã, conforme veremos mais à frente.

Até breve

* António L. Graça é Colunista Especializado do Jornal de Oleiros e Sub-Director do Jornal de Vila de Rei

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Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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Uma Resposta a Manifesto e Contra-Manifesto, por António L. Graça

  1. Joaquim Vitorino diz:

    Caríssimo António Graça; acabei de ler o seu artigo que já não me surpreende, porque o meu amigo tem uma visão de todo o panorama político e económico muito fora do comum; a sua clarividência da situação não deixa dúvidas, de que vem mais austeridade a caminho. Quanto ao manifesto dos 70, peca por tardia e não só; muitos dos seus subscritores tiveram funções governativas, quando a dívida já tinha ultrapassado os 60% do PIB, cheira-me a abandono do Navio que se está a afundar.
    Parabéns pelo excelente trabalho.

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