Ex-Combatentes Sem-Abrigo!, por António Moreira

Ex-Combatentes Sem-Abrigo!

Dia 01.03.2014. Lisboa.

Mais uma manifestação de várias dezenas de ex-Combatentes, Veteranos de Guerra, dos 3 ramos das nossas Forças Armadas, Exército, Marinha e Força Aérea, percorreram algumas artérias de Lisboa, protestando contra os cortes sucessivos, aliás crimes de furto, que o Estado lhes impõe nas suas magras, e às vezes miseráveis, pensões de reforma.

Foi de facto impressionante, assistir, pela T.V., ao grito da indignação e revolta daqueles Homens simples e humildes, envergando símbolos militares, como as boinas da sua especialidade.

A maioria deles certamente oriundos de Famílias humildes, dos meios rurais, das aldeias e vilas do Portugal profundo, do Continente e das Ilhas, Açores e Madeira, que, quando a Pátria os chamou, entre 1961 e 1973, tudo largaram para a servir, apresentando-se nas unidades de recrutamento que lhes destinaram, prontos para as suas missões, com sacrifícios  e riscos sem fim, incluindo os da própria vida.

Para trás deixaram então as suas Famílias, as suas profissões, os campos, os arados, as enxadas e as fábricas, numa despedida dolorosa e triste, mas “disseram”: PRESENTE!

Serviram a Pátria com grande generosidade, lealdade e entrega, com sentido do dever patriótico, com galhardia e nobreza de carácter, nos contactos, com os nossos Irmãos Africanos, então o nosso IN (Inimigo).

Tivemos a honra e o privilégio de, como comandante de um grupo de combate, e também de uma companhia, ter comandado, nos campos de batalha da Guiné, entre 1967/1969, cerca de cento e oitenta (180) desses excelentes Soldados, os melhores do mundo, aqueles cujo comando a Pátria nos confiou, de que muito nos orgulhamos.

Quantas e quantas noites de vigília, nas matas da Guiné, lado a lado, sem uma palavra, um ruído, um vestígio da nossa presença, à espera do IN, protegendo-nos mutuamente, até o sol raiar nas copas das palmeiras. Criaram-se então laços fortíssimos de solidariedade, lealdade e amizade que nos acompanharão para toda a vida.

Estes Veteranos de guerra que hoje desfilaram em Lisboa, com tristeza, amargura, indignação e revolta, pelos sucessivos cortes que o Estado tem aplicado nas suas magras pensões de reforma, declararam publicamente que havia cerca de 2.500 (dois mil e quinhentos) desses ex-Combatentes, sem abrigo, isto é, na miséria absoluta, sem um tecto para se abrigarem.

Provavelmente entre estes estão alguns dos meus Soldados, algures por esse País, que se envergonham de comparecer aos habituais almoços anuais da Companhia, o que para eles é também, seguramente, uma tremenda humilhação, uma tristeza e um imenso desgosto.

Como seu Comandante, senti, e sinto, também, uma imensa tristeza e tremenda vergonha só de pensar que alguns daqueles que então tive a honra e o privilégio de comandar estarão provavelmente, também, na mesma situação, isto é na miséria e sem abrigo.

Tenho a certeza que todos os meus Camaradas de então, nas mesmas circunstâncias, sentem a mesma vergonha, e a mesma tristeza.

António Martins Moreira escreve ao abrigo da antiga ortografia.

* António Martins Moreira, Colunista Especializado do Jornal de Oleiros

Advogado

(Alferes Milº Inf “Operações Especiais”-C. Artª.1690-Guiné 1967/1969)

António Moreira

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