INQUIETUDE – Guerra Colonial

Inquietude

GUERRA COLONIAL   

Mata da Sanga...

                                                                                 Corria o ano de 1961. Estávamos no dia 4 de Fevereiro. Eu tinha acabado de fazer quatro anos, quando eclodiu o primeiro ataque em Angola, então sob administração de Portugal.

Comemorou-se portanto cinquenta e três anos do episódio, porque disso se tratou, que marcou o princípio do fim do império colonial português.

Luanda viveu este episódio, com espanto, porque do primeiro sinal se tratava, mas simultaneamente com apreensão, porquanto poucos saberiam o que já na altura isso significava.

...debaixo de fogo

Foi o princípio da guerra, outrora denominada do ultramar. Foi o princípio de muitas frustrações de imensos milhares de jovens portugueses. Foi o princípio do fim da vida para outros tantos milhares. Foi ainda uma condicionante para tantas e tantas crianças que, como eu, cresceram sob o espetro da guerra e da necessidade de acabar os estudos antes da chamada para a “tropa”. Para outros foi o princípio de uma vida de fuga à guerra, uns por questões políticas ou ideológicas, outros por uma questão de falta de coragem, para empunhar uma arma e ir para África, para matar ou ser morto. Porque afinal era disto que se tratava. Era uma questão, em primeira análise, de sobrevivência.

Claro que com o decorrer da guerra, com o crescendo do poderio tático e militar dos intervenientes dos movimentos de libertação, o panorama foi-se alterando e em qualquer dos territórios sob o domínio português, começaram a verificar-se a determinada altura a atos de pura carnificina, principalmente da parte dos militares dos Comandos, que ultrapassaram a barreira da decência, porque de alvos militares passou-se rapidamente para alvos civis, com operações de “limpeza” que visavam matar indiscriminadamente tudo o que era vida, crianças, mulheres e velhos. Um dos chefes militares que mais se destacou como mandante deste tipo de operações foi Kaúlza de Arriaga, em Moçambique.

Mas este quadro foi extensivo a todos os territórios onde estava na ordem do dia, combates entre os militares portugueses e os “guerrilheiros”, apoiados de uma forma cada vez mais eficaz e concreta por grandes potências mundiais, a antiga URSS, EUA e países nórdicos.

Foram 13 anos de uma guerra injusta, para os jovens portugueses, para os naturais dos países, hoje denominados de expressão portuguesa, mas também, se não mesmo a parte mais injusta, para aqueles que fizeram das ex- colónias a sua nova casa, impotentes muitas das vezes para perceber a razoabilidade de uma guerra, que inevitavelmente conduziria a um fim como aquele que veio a ter, não só com a independência desses territórios, mas sobretudo com tudo o que veio a acontecer antes e depois dessa independência, com os acontecimentos de Angola a sobreporem-se sobre todos os outros.

Acabei por escapar à guerra!

Guerra Colonial

Com a revolução do 25 de Abril, os militares devolveram ao Povo Português as liberdades e acabaram com a guerra, que durante anos sempre haviam alimentado.

Acabou-se assim em 74 o meu dilema sobre a guerra, eu que então tinha dezassete anos. Ser solidário com os restantes portugueses que combateram em África numa guerra injusta ou ser solidário com a vontade inequívoca dos povos africanos que lutavam pela sua “liberdade” e independência.

No final, restou a Portugal, chorar os milhares de vidas perdidas, de ambos os lados, receber e apoiar aqueles que regressaram ao país e pagar a fatura de uma política salazarista de falta de visão estratégica para o problema africano, que até tinha dentro do regime defensores de uma solução pacífica par o mesmo.

Hoje resta-nos, cinquenta e três anos depois do início da guerra e quase quarenta anos depois do seu final, encarar o presente e o futuro com a esperança de que todo o sofrimento das mães, avós, irmãos e demais familiares deste país tenha servido, pelo menos, para nos dar uma postura crítica em relação a outras situações de guerra, sejam elas quais forem e travem-se elas onde se travarem!

* INQUIETUDE é a coluna do Director-Adjunto.

José Lagiosa escreve às 5ªs feiras.
 

 

 

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Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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