Apenas uma Fábula, por José Pires, Professor

Apenas uma Fábula

(Carta aberta às burrocratices de um ministro (sinistro) e burocrata, de aparência pacata, mas em frequente desacato, de sua graça, e para nossa desgraça, Nuno Paulo de Sousa Arrobas Crato.)

Permita-me vossa excelentíssima excelência que me dobre à excelente excelência do vosso saber de educação feito(dizem).

Olho-me, e continuo estático. Diz-me o corpo que não obedeça à minha cabeça, e que não me dobre a quem a dobrar nos dobra.

É obra.

Fica a intenção.

Permita-me então vossa excelentíssima excelência que, não me conseguindo dobrar à excelente excelência do vosso saber de educação feito (dizem), vos ofereça, sem saber se tal oferta neste momento vossa excelência tal mereça, mas sabendo que de investigador vossa excelentissima excelência se ufana (e se aproveita), vos ofereça, dizia eu, uma fábula (anotada)[1] que sendo sobre animais, é, como verá, bastante humana:

OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DE UMA INVESTIGAÇÃO SEGURA

Depois de concluída a superior formação[2] coloca-se ao coelho[3] um desafio novo: Saber exactamente as razões[4] dos que, movidos só pela tradição, vão devorando, um a um, todo o seu povo[5] fazendo-o prato nobre às refeições.

Definido o universo a estudar[6] preparou, com cuidado, o instrumento, sem descuidar, na recolha, a própria imagem.

E o espaço que encontrou para entrevistar os que sabia desejá-lo ter por alimento foi, junto à gruta do rio, a sua margem.

Chegou-se a ele o lobo faminto[7] e disse:

— Coelho, vou-te comer. Tem paciência!

— Está bem, eu sei que é esse o meu destino — retorquiu-lhe o coelho com matreirice[8]. — Mas, se não te importas, come-me com decência, dentro desta gruta que é mais fino.

Seguiu-o o lobo, entre salivas, ao imaginar a fácil refeição que tomaria debaixo de um tecto aconchegado.

Dentro da gruta o que se ouviu foi de pasmar: por entre uivos e muita gritaria o fim do coelho estava traçado.

Passado algum tempo, as patas esfregando, saiu o coelho do local do sacrifício.

— Já terminei, com êxito a primeira entrevista! — cantarolava. À margem de novo se chegando, deu de frente com outro entrevistado de igual ofício: uma raposa[9] que lia, distraída uma revista.

— Não espero que me digas, eu me ofereço, para ser por ti comido, raposinha! — disse o coelho, como se fosse esse o seu destino. — Só há uma coisa que te peço: come-me lá dentro, na cozinha que há ali na gruta, que é mais fino.

E a raposa, aceitando esta proposta, seguiu a sugestão que dada fora, e foi comer o coelho dentro da gruta.

Ouviu-se, de novo, uma algazarra descomposta, e, passada bem menos de meia hora, saiu o coelho, vencedor daquela luta[10].

Corre-me bem este meu estudo. É bom o material para a tese a redigir, pensava o coelho em voz alta. Na verdade, quem das entrevistas aproveita tudo, não necessita sequer de inquirir se há ainda algo que lhe falta.

Dentro da gruta, descansado, estava um leão[11], do coelho, as companhias esperando, para bem orientar a tese e sem favor.

Moral da história:

Hoje, para uma boa investigação pouco importa os valores[12] do doutorando, se for forte o poder dos orientadores[13].

José Pires

Professor, e cidadão que um dia andou a Sonhar Com Coménius[14]


 

[1] Para que não se diga estar eu marcado por qualquer vontade persecutória, utilizarei, para as notas, a extensa bibliografia de vossa excelentíssima excelência, e, sempre que tal ajude a clarificar a mensagem, alguns dos também excelentissimamente excelentes companheiros do governo a que vosssa excelentissima excelência pertence.

[2] Imagino que a vossa excelentíssima excelência (a partir de agora simplicarei para VEE), apesar de toda a profunda formação e informação que podemos observar nos seus, diga-se, muito interessantes livros, com os quais aprendi muito sobre a inveja da lua perante o sol e vive-versa (Eclipses) ou será que se referiria à experiência de vida dos principais responsáveis ministeriais?, assim como sobre as orientações da governação do governo a que pertence (Zodíaco: Constelações e Mitos), também fiquei a compreender melhor os conselheiros e assessores que o rodeiam a si (Trânsitos de Vénus), e ainda me enriqueci científicamente sobre como se destrói sem remorso, mas com alguma aventura, a escola pública (A Espiral Dourada, Coelhos de Fibonacci, Pentagramas, Cifras e Outros Mistérios Matemáticos d’ O Código Da Vinci). Só não arranjei correspondência educativa para  Relógios de Sol,  de Passeio Aleatório e A Matemática das Coisas, mas percebo que tenham tudo a ver com acção política (des)orientada nestes tempos de sombra.

[3] Não, não me refiro ao senhor primeiro-ministro, que de escola então é que não percebe mesmo nada, refiro-me a um arquétipo seu, ou melhor, à imagem que VEE me tem ajudado  a  construir de si: o coelho lunar, também conhecido como Coelho de Jade, que segundo creio ter aprendido num dos seus livros, ou talvez não, é um coelho que vive na Lua, portanto muito longe da realidade terrestre, e do qual os chineses muito gostam e os alemães respeitam, importa lembrar, o mesmo é dizer: tal coelho sois vós.

[4] As razões dos devoradores baseiam-se no simplificado princípio que VEE perfilha de que o saber não ocupa lugar, e como os estudos são sempre insuficientes, os devoradores resolveram ficar, do saber dos que devoram, senhores.

Tudo isto e apesar de, tal como dizia aquele de quem VEE tanto bebeu (Herbert Spencer, filósofo inglês), não se pode ensinar aquilo que não se explica para que serve, ou não se sabe (digo eu, se me permite).

[5] Os professores em geral, mesmos os que ansiavam por VEE no Ministério da Educação, iludidos nas promessas dos que criaram vernizes nas televisões, isto é, depois de terem lido o resumo do seu O Eduquês em Discurso Directo.

[6] Os professores contratados, e de acordo com o mais recente pensamento de VEE (ou desabafo ignorante?) especialmente os formados nas Escolas Superiores de Educação, outrora por VEE tão elogiados quando pelas Escolas Superiores de Educação andou VEE a lançar, e a vender, os seus primeiros livros. Outros tempos, não é VEE? Dizia o meu avô que é muito fácil falar, o pior é fazer, e o meu sogro que para mandar qualquer merda serve (desculpe o vernáculo) para fazer, e bem, é que é uma porra (d.o.v. de novo).

[7] Havendo outros que apaparicaram VEE no tempo do falar de fora, este lobo faminto é, nesta fábula, um tal de Lobo João (Grancho), aliás anteriormente Presidente da Associação Naional de Professores e agora secretário de estado de VEE e que em tempos sobre as ideias de VEE disse: O sector da educação estará no bom caminho caso Nuno Crato concretize as ideias que, ao longo dos anos, têm preenchido o seu discurso em matérias relacionadas com a educação. Não tanto como o patrão da educação, mas como o líder das mudanças educativas que se impõem fazer, confiar nas escolas e nos professores.

Que fez VEE? Concretizou ideias? Liderou as mudanças? Confiou nas escolas e nos professores? Deixou-se comer? Não! Nem pensar! Isso é que era bom!Claro que não!

[8] Há quem à matreirice chame estratégia, mas no caso de VEE acho que é apenas matreirice, e mesmo assim de qualidade duvidosa.

[9] A raposa é aqui uma figuração colectiva de alguns sindicalistas da educação que agora tanto mal dizem de VEE, os ingratos, mas que em tempos de atirar pedradas a outros (algumas até se justificavam) convidaram VEE para as suas conferências e até congressos.

[10] No caso de VEE ficaria triste por tal vitória, pois é sinal de desonestidade intelectual ser-se forte com os fracos, ainda por cima distraídos na ilusão da inevitabilidade, e pior: cobrar-lhes o medo!

[11]  Aqui o leão é apenas a máscara do verdadeiro coelho, aquele, batizado de Pedro, que nos tempos do circo saiu da cartola do ilusionista Angelo Correia e do aprendiz de feiticeiro Miguel Relvas, e que hoje vive escondido na gruta de Angela Merkl (salvo seja), acompanhado pelo outro apóstolo Paulo de cognome Portas (será que tal apelido lhe adveio por estar sempre comprometido com a saída?).

[12] Ora, os valores! Os valores hoje são outros, não é VEE? São os mercados sem rosto (mas com o dinheiro da especulaçao desenfreada), os interesses privados (coloridos de públicas virtudes) e os desígnios menos democráticos que a eles estão associados (rimei, infelizmente).

[13] Este é, nos nossos dias, o principal problema: não são de cá, não nos conhecem, nem lhes interessa conhecer-nos, e pior, VEE sabe muito bem, não falam português, mas fingem compreendê-lo!

Ah, é verdade, os orientadores têm por cá uma espécie de intermediários, ou delegados, que se sentam com vossa excelentíssima excelência à mesma mesma das decisões, mas que merecem, talvez, uma fábula só para eles, um dia destes.

 [14] Sonhar Com Coménius – 2005 – Coimbra, Alma Azul

José Pires

 

 

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