“Crónicas de Lisboa”, As opções do consumidor, por Serafim Marques

“Crónicas de Lisboa”

As Opções do Consumidor

O senhor Silva não resistiu à agressiva publicidade sobre o chorudo prémio do euromilhões. Afinal, quem é insensível a tão forte apelo, em não arriscar meia dúzia de euros,  mesmo sabendo que a probabilidade de acertar é ínfima? Aliás, os gestores dos jogos ditos sociais sabem manipular os sonhos e expectativas dos apostadores. “Corto em três ou quatro bejecas e posso arriscar mais duas apostas  no euromilhões desta semana” – assim pensou e assim agiu o sr Silva – reforçando a sua aposta e o sonho de ganhar alguns euros no viciante jogo dos mais aflitos. Assim, nessa noite e colado em frente ao ecrã da tv, aguardava pelo sorteio da chave vencedora e que poderia ser a sua felicidade e, conferida a chave com as apostas do seu boletim, o sr Silva verificou que acertou em quatro dos cinquenta números e mais uma das onze estrelas, batendo à porta do prémios grandes. Afinal, a sua fé esteve perto do sonho. Mesmo assim valeu a pena, pensou, pois iria receber umas centenas de euros, de consolação e foi logo ao frigorífico tirar uma bejeca para molhar a garganta que estava seca, um pouco pela emoção de ter estado tão perto do sonho milionário. De imediato, pensou o que faria com aquele ganho extra. Gastar ou poupar, tal como tinha ouvido num debate televisivo em que os “opinadores” diziam que os portugueses deveriam poupar mais, para que dessas poupanças surgissem os capitais para se investir mais, mas também se lembrou de ouvir, sistematicamente, de que a diminuição do consumo interno está a atrofiar ainda mais a nossa economia.

Ficou confuso, mas decidiu oferecer à esposa um fim de semana romântico, naquele lugar onde há quatro décadas tinha passado a sua lua de mel e que há muito lhe tinha prometido, e, porque não sendo longe de casa, o valor do prémio a receber seria suficiente. Se assim pensou, melhor o fez e agarrou no telefone para fazer a marcação da estadia, mas da recepção do hotel pediram-lhe que fizesse uma transferência bancária de duzentos euros, como sinal, porque o preço estava incluído numa promoção daquela unidade hoteleira, pelo que após, receber o dinheiro do prémio, foi ao seu banco e operou a transferência bancária.

Alguns dias depois…

Com os fundos transferidos pelo senhor Silva, o hotel (H) estava em condições de poder liquidar uma dívida de igual valor ao seu fornecedor de mercearia (M) e assim o fez. A empresa (M) pôde fazer o mesmo para com o seu fornecedor grossista (FG) e este igualmente liquidou uma dívida que tinha com a agência de viagens (AV). Por fim e com o mesmo valor, esta agência (AV) liquidou ao hotel (H) o remanescente duma dívida referente a um grupo excursionista que ali tinha alojado. Assim, os duzentos euros recebidos, adiantadamente, pelo hotel, do sr Silva, ao qual ainda não lhe prestou qualquer serviço, voltaram à conta bancária do hotel. Confuso, caro leitor? O que se passou entre estes agentes económicos, com transacções entre si, foram apenas meras operações contabilisticas, perfeitamente normais. Foi o circuito do dinheiro, seja através das próprias notas seja através do dinheiro virtual das transferências electrónicas, que graças às notas recebidas do prémio do prémio e que nem saíram do banco, puderam cumprir a sua função em que a despesa (D) de uns é  receita (R) de outros. Neste exemplo, não foi criada ainda riqueza, mas o dinheiro cumpriu a função contabilistica permitindo àquelas pequenas empresas saldarem as dívidas entre si, muitas delas atrofiadas por insuficiência de capitais próprios e de acesso ao crédito, algumas não resistindo à falência.

Algum tempo mais tarde…

Afinal, o sr Silva e a mulher mudaram de ideias e deixando-se levar pelos instintos da “avosidade”, cederam ao apelo natalício do seu único neto e iriam usar o valor do prémio ganho na oferta duma dessa maquinetas modernas que deliciam a nossa juventude. Assim, o sr Silva telefonou ao hotel a pedir o cancelamento da reserva e solicitou a devolução do dinheiro, invocando um “motivo de força maior” e, com esta opção,  “marimbou-se” nas muitas “lições de economia” que ouve por todo o lado e optou pela despesa que menor efeito tem na nossa economia e nas suas variáveis (PIB, emprego, etc), porque o bem é importado. Opções soberanas  do consumidor (ou vítima da forte manipulação do marketing?), muitas vezes insensível ao efeito dessas decisões na economia nacional e, indirectamente, no seu próprio rendimento ou de familiares e amigos, porque numa economia pequena como a nossa, as opções dos consumidores e demais agentes económicos, adquirindo bens e serviços “made in Portugal” têm um importante efeito na nossa sociedade, gerando e distribuindo riqueza, através de salários, lucros, etc e, sem falsos nacionalismos, a importância dessas escolhas é vital para combater a crise económica e social e que as medidas de austeridade, internas e externas, agravaram a nossa economia. “Só se sai da crise com o aumento da procura interna (consumo) e externa (exportações)” –  tese académica e defendida pelos dez milhões de economistas que somos, embora a poupança, que é contrária à opção de consumir, seja necessária para que o país possa aplicá-la nos investimentos que façam crescer, sustentadamente, a nossa economia. O velho consumismo, odiado pela esquerda, porque é gerador do “odioso” lucro, esquecendo-se que também ele cria emprego e distribuição de salários, é hoje visto como panaceia. E a poupança, própria da tradicional prudência operária, do passado, mas avessa à classe média mais consumista e hedonista, e que a crise os tornou “dependentes” da poupança e das privações dos “velhotes”, é olhada como barreira ao combate da recessão na nossa economia.

Dilemas da Economia, num país em crise.    

* Serafim Marques, Colaborador do Jornal de Oleiros

Economista

 

Serafim Marques

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Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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