” No fundo da Europa”, por Joaquim Vitorino

                                                                 

O empobrecimento da população portuguesa foi levada ao limite nos últimos cinco anos.

A pobreza infantil constitui a mais vergonhosa agressão humana, sendo mais grave ainda quando esta se verifica num país subscritor dos direitos das crianças, que não podem fugir ao desígnio de serem pobres. Portugal caiu para o fundo da Europa; porque os países que nos serviam de referência não têm que arcar com a monstruosidade da dívida que o nosso contraiu nos últimos anos.

Recentemente a consultora Wealth-X e o banco Suíço UBS, divulgaram uma lista de multimilionários onde aparecem os países mais pobres da Europa com as maiores subidas. Portugal está no grupo da frente, com três das maiores fortunas pessoais, a somarem no conjunto 6500 milhões de euros; tendo subido num só ano  cerca de 700 milhões de euros 11%; sem questionar a legitimidade que o sistema lhes proporcionou na acumulação dessas fortunas, a situação miserável em que o país mais pobre da Europa se encontra, e que infelizmente é o nosso constitui uma infâmia, não obstante neste país elas serem legítimas; só não se compreende que em apenas ano, três homens vejam subir em 700 milhões de euros as suas riquezas pessoais, e tenham a coragem de ver morrer à fome milhares de crianças e idosos; alguns destes últimos provavelmente, ajudaram com o seu trabalho honesto na acumulação dessas fortunas, não raras as vezes pagos com salários miseráveis.

Juntam-se ao Ranking das fortunas meteóricas os romenos e os gregos estes últimos a liderarem as subidas, precisamente os dois países que nos seguem na pobreza. Por ironia subiu em Portugal para 870, o número de fortunas acima dos 22 milhões de euros.

Num só ano o nosso país ultrapassou a Letónia, Hungria, Bulgária e Roménia com quem nos nivelávamos em pobreza. As instituições de solidariedade estão à beira do colapso por falta de meios; é lamentável que os detentores destas enormes fortunas não tenham um gesto humanitário para ajudar as crianças portuguesas, sendo elas que irão contribuir em adultos para as aumentarem ainda mais; parece que o exemplo de Bill Gates que doou metade da sua riqueza pessoal a instituições de caridade, não os sensibilizou.

O que nos entristece é que duas das referidas fortunas, foram em parte conseguidas a vender comida; um direito inalienável de qualquer criança é ter acesso à alimentação.

Portugal deixou de ser um exemplo em solidariedade; a pobreza pode ser debelada numa década, mas outros valores que entretanto perdemos, podem levar gerações para os recuperar; na Grécia ainda se vai fazendo justiça como se viu recentemente a condenação de um ex-ministro; em Portugal os pobres são duplamente condenados; em que o primeiro castigo é já ser pobre à nascença.

Ninguém quer assumir esta vergonha que está a dividir os portugueses em três grupos distintos; ricos e pobres e aqueles que por enquanto ainda não foram atingidos pela desgraça dos outros; mas não tardará que também eles engrossem o caudal da pobreza.

Foram várias as vezes que escrevi sobre este tema para sensibilizar os mais ricos, para que ajudem as nossas crianças e idosos a viverem com um pouco de dignidade.

 O Papa Francisco tem vindo a alertar para esta assimetria que pode levar a uma explosão social; o Sul e o Norte da Europa estão de costas voltadas, e a solidariedade não é uma constante na União Europeia. Em Portugal travam-se duas lutas; por um lado os multimilionários numa competição “feroz” pela subida no “ranking” da riqueza; no outro a luta dos desgraçados que em busca de comida, vasculham diariamente os restos nos caixotes do lixo.

Muitos dos milionários portugueses apostam na continuidade do país pobre, para fazerem subir as suas fortunas com a oferta de trabalho barato, uma consequência do estado de pobreza em que nos encontramos; mas isso pouco lhes interessa porque não são a “Madre Teresa de Calcutá” pensam eles.

É o país da vergonha para quem a tem; não será um crime ser-se quase dono de um país, mas no estado em que o nosso se encontra é uma ignomínia; até porque um só homem não conseguiria produzir uma fortuna de milhares de milhões, se não fosse à custa de salários mal pagos que são em parte consequência da excessiva oferta de trabalho da qual tiram um enorme proveito, com milhares de licenciados que por necessidade aceitam trabalhar em troca do salário mínimo Nacional.

Portugal exibe-se no exterior como um país democrático, quando não passa de um apêndice de uma verdadeira democracia; porque esta pressupostamente tem que ser alicerçada na justiça, o que não é o nosso caso; e não apenas na liberdade de expressão.   

* Joaquim Vitorino, Colunista do Jornal de Oleiros, Director da Área de Ciência dos Jornais de Oleiros e de Vila de Rei.

Nota: A campanha de recolha de alimentos que este fim de semana teve lugar numa rede de supermercados, vai engrossar ainda mais a fortuna pessoal do seu proprietário. Normalmente os que mais dão, são os que menos têm.

 

Joaquim Vitorino

 

 

Criança pobre

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