Hecatombe educacional, por Manuela Marques

Manuela Marques

Hecatombe Educacional

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Ao ritmo a que o MEC (Ministério da Educação e Ciência) impõe medidas desajustadas e afrontosas à classe docente, muito em breve se registará uma hecatombe ao nível da educação, sendo as principais vítimas os alunos.

Parece mesmo, eu diria, vergonhoso para a classe política, termos todos os anos erros atrás de erros, políticas economicistas que me levam a questionar se efetivamente esta gente tem categoria e competência para estar à frente dos destinos das crianças e jovens deste país.

Muito se aborda agora a questão da Prova a que os professores contratados serão sujeitos, mesmo após anos de docência, ou acabadinhos de sair do ensino universitário. Esta prova faz sentido? Claro que não. Contudo, não vejo muitas reações em desfavor de tal despautério…Porque não realizar uma prova de competência para diretores, ministros ou mesmo para outros cargos de suma importância? Já que esses sim têm os destinos de uma escola, de uma nação nas mãos e não reconheço competência enquanto não forem prestadas provas. Va lá, vamos testar a capacidade de certas pessoas que não se lhe reconhece competência administrativa ou polemicamente obtiveram licenciaturas ao domingo ou com mais de trinta anos de idade…Provem eles que são capazes, deem eles o primeiro exemplo!

Cada vez menos consigo entender esta guerra aberta aos docentes que se vem registando há um bom número de anos e me leva a considerar que o respeito pela profissão é nulo. Aliás, parece-me que a educação neste país nem sequer é levada a sério.

Para além destes ataques à docência, as medidas administrativas já são bem dolentes para todos os cidadãos, mas quando sentimos que neste país nada está a salvo do desrespeito então perdemos a fé num novo rumo e acomodamo-nos às situações vigentes, como fazem agora certos docentes que vão corrigir a prova dos seus colegas. Impensável, pensava eu… Como se pode trabalhar com brio e dedicação quando por força de certos comodismos políticos “Troikianos” somos forçados a viver em autocaravanas porque o ordenado não chega para os filhos e as suas necessidades primeiras? O direito à saúde, alimentação, educação que os pais têm de pagar cada vez mais com uma conta mais alta. E que país é este que pretende matar o ensino público e promover o ensino privado? Qualquer coisa que não entendo mais uma vez é a de que, talvez, suponho eu, se um país está em crise e todos contribuem para sair deste beco financeiro, por que razão há mais ricos? E porque razão se promove, se financia, se vende aos pais, que supostamente são cada vez mais pobres, o ensino privado? Há qualquer erro nesta dimensão…Afinal que objetivos há em reduzir pessoal docente, quando tantas crianças precisam de auxílio individual na sala de aula? Por que razão se aumenta o número de alunos por turma, quando se sabe que isso é desproporcional com o sistema de aprendizagem claro e eficaz? Os jovens de hoje não são os de ontem. Nos últimos 40 anos a tecnologia e a ciência evoluíram tanto que no fundo a sociedade não teve tempo de se adaptar a essas mudanças, que concordo inovadoras e necessárias, mas contudo um pouco em catadupa, uma vez que nem temos tempo para respirar e ao virar da esquina está uma revolução tecnológica a surgir.

Tudo isto provoca nas crianças, nos jovens determinados problemas ao nível do crescimento e adaptação, parecendo-me que ninguém ou poucos evidenciam esta preocupação. Impor um sistema antigo num mundo altamente modernizado será desajuizado, no mínimo… Turmas com trinta ou mais de trinta alunos, escolas com uma burocracia entupidora, desajustada do processo de ensino, horários inconcebíveis, financiamento cada vez mais reduzido, inúmeros alunos da educação especial mal integrados na escola, sem apoio, falta ou ausência de psicólogos suficientes nas escolas, menos funcionários, cada vez mais trabalho, menos salário. É assim que se visa melhorar o sistema de ensino em Portugal? Bem gostaria que os parceiros europeus se pronunciassem face a estas políticas. Parece-me que a “Troika portuguesa da Educação” está a fazer um papel bem melhor do que a sua homóloga internacional faz com o governo deste país…Caso para rir ou para chorar? É absurdo viver assim e os docentes e outras classes sociais bem sabem como vivemos ao rumo de uma tempestade incerta que não tem fim e que provavelmente em 2015 terá outro rumo, ao que adivinhamos incerto, imponderado como este até ao momento.

Quem ler este artigo certamente pensará, “mais um discurso sindicalista”, porém emendo já esse pensamento livre e corrigirei: não se trata de sindicalismo, são preocupações graves, chamadas de atenção, formas de alerta, sinceramente, são desabafos de alguém que sabe que sozinhos nada conseguiremos fazer, mas se nos juntarmos todos, classes à parte, mostraremos que não podem brincar com famílias inteiras de professores, polícias, enfermeiros, agricultores, trabalhadores do comércio, funcionários disto e daquilo, todos, todos aqueles que sofrem diariamente a falta de emprego, a subida de impostos, que veem os seus direitos salariais comprometidos, gente que vive com decisões tiradas à hora ao Tribunal Constitucional, com chantagem governativa, um povo que sabe que constantemente lhe mentem quando afirmam “já saímos da crise, os mercados estão crentes…”. Ninguém é estúpido para não perceber que estamos a poucos passos de uma hecatombe e não é só na classe docente, basta lembrarmo-nos da manifestação das forças de segurança frente àquela, agora cada vez menos, Assembleia da República, pois de acordo com o seu primo significado, «res publica» ali se deveria tratar com respeito, brio e consideração da «coisa pública», mas neste momento das nossas vidas, ali trata-se mais da coisa pessoal de quem por lá trabalha…Peço desculpa pelo engano, trabalha não, projeta a sua próxima pensão, a sua próxima fonte de rendimentos e sabe-se lá mais o quê…

 

* Professora Manuela Marques, Presidente do Conselho Editorial do Jornal de Oleiros

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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2 Respostas a Hecatombe educacional, por Manuela Marques

  1. Américo Lourenço diz:

    Gostava, mas gostava mesmo, de saber como se podem juntar “todos” na luta contra esta política.

    • Manuela Marques diz:

      Caro leitor,
      Agradeço o seu comentário e não tenho uma única receita para lhe dizer mesmo, mesmo (e penso que ninguém tem) como combater esta política, é difícil encontrar uma saída para tamanha crise, que vem crescendo há tempo demais, mas ninguém é tolo que não saiba que há alternativas bem mais dóceis para poupar e governar. Sei muito bem que a constituição portuguesa refere que temos o direito a resistir à violência e à falta de regras (e regras justas e claras é algo que este governo não tem imposto) e se para isso for necessário chegar ao extremo de, todos, nos juntarmos num combate e numa luta (pacíficas) para evitar a calamidade em que vivemos e viveremos, é certo que chegaremos mais longe, seja qual for a forma de luta (que eu saiba, na história do nosso país, lutas se fizeram para acabar com ações ditatoriais). Uma luta de professores é uma luta de todos (os cidadãos têm filhos na escola); uma luta de enfermeiros é uma luta de todos (precisamos de atendimento de saúde eficaz); uma luta de pensionistas é uma luta de todos (muitos de nós têm os pais ou os avós a viverem com más reformas que nem para o comprimido da tensão arterial chega e muitos de nós nem um tostão veremos se lá chegarmos); uma luta de pobres e desempregados é uma luta de todos (pode acontecer a qualquer um passar pela pobreza ou pelo desemprego) e tantas outras situações que certamente e claramente não abrangem o número de grandes empresários e novos milionários (não à custa do euromilhões…) que cada vez mais surge no país. Quando me refiro a juntar “todos” desde logo, todos, implica aqueles que sofrem na pele as agruras desta política e não sou imberbe para julgar encontrar um rico, numa manifestação, a lutar por um pobre, nem um corrupto por um trabalhador honesto! Muita folha se vai fazendo, neste país, aos trabalhadores e aos que já contribuíram com o seu quinhão de labor e que agora se veem espoliados dos seus direitos, aos jovens que não têm esperança de futuro e são forçados a viverem longe da família num outro país…
      Que precisamos de fazer sacrifícios em virtude de outros erros do passado, todos concordamos, pois vamos calando as medidas que nos têm sido impostas, mas sacrifícios que já fazemos há algum tempo e não surtem efeito nenhum, porque alguém se abarbata do nosso dinheiro, é desrespeitoso, corrupto, vergonhoso e é necessário que, seriamente, mostremos o descontentamento e a falta de regras e violência a que estamos sujeitos e estaremos porque isto é uma bola de neve…Mas bolas de neve provocam avalanchas, mais cedo ou mais tarde. Isto de sermos um povo de brandos costumes já teve os seus dias, pois o desespero leva as pessoas a fazerem o que não querem.
      Para finalizar, parece-me que há uma outra situação que se nos afigura grave em termos sociais, mas essa não abrange o tal “todos”, pois o respeito pelos outros, a partilha no trabalho e com o próximo, a lealdade para com o semelhante e sobretudo a humildade na atuação com os outros não é para todos, essa é uma riqueza, apanágio de cada vez menos pessoas! E para essa já não há luta, nem combate que valha…

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