Brasões das freguesias em vias de extinção?

Nas últimas eleições deparámo-nos com um processo de fusão de freguesias que em muitos casos irá atenuar a História e cultura das populações com uma tradição secular.

Um dos factos que realmente me preocupam neste processo, parece ser a intenção recente de alguns dos autarcas eleitos em querer mexer na heráldica dos brasões das freguesias extintas, fazendo uma espécie de “mix” num novo brasão que possa representar a nova entidade autárquica.

Como se tratasse de atribuir um novo número de contribuinte, muitos autarcas começam já a fazer projetos de novos brasões quando a argumentação usada aquando da fusão das freguesias foi precisamente a contrária, ou seja a continuidade da existência da História, da cultura e da identidade de cada uma das freguesias com a sua individualidade presente na nova estrutura autárquica.

Percebo até, que do ponto de vista prático; o da impressão de um logotipo num ofício, etc… um novo brasão vinha mesmo a calhar a estes novos autarcas mas não podemos esquecer que o municipalismo em Portugal resulta de um longo processo através de centenas de anos e que as mudanças abruptas dão geralmente erros em que depois “a emenda é pior que o soneto”

Apelo neste artigo a que os responsáveis das autarquias façam o debate em Assembleias de Freguesias juntamente com a população, sobre a utilização da simbologia de cada terra, de forma a ser preservada a cultura de um povo.

Uma memória coletiva comum e uma tradição preservada são âncoras que nos deixam seguros quando toda a sociedade nesta crise parece vacilar.

Outra situação que deve ser cuidada é a questão técnica de elaboração da simbologia heráldica, hoje tantas vezes secundarizada e tantas vezes feita com pouco critério e com pouco conhecimento.

A investigação da simbologia feita por especialistas e a utilização das suas regras segundo a História deverá ser tida em conta e realizada paralelamente ao trabalho das Assembleias de Freguesias.

Para além desta questão de forma, também desejo às autarquias que realizem um bom mandato nestes tempos que a população bem precisa e que para além desta questão que é uma questão de forma, as autarquias no seu conteúdo, ou seja na proximidade e no apoio às pessoas, continuem com a eficácia que demonstraram até à data.

Mais do que nunca a vigilância na preservação daquilo que ainda temos por parte de cada cidadão é essencial para deixarmos aos nossos filhos, aquilo que herdámos dos nossos antepassados. Não deixemos os tempos de dificuldades vencer aquilo que mais nos identifica e aquilo que é revelador da fibra que somos feitos!

* Paulo Freitas do Amaral, Colunista do Jornal de Oleiros

Paulo Freitas do Amaral

Nota do Director: Saudamos a chegada do Dr. Paulo Freitas do Amaral que vem ajudar os títulos que editamos e acrescentar valor editorial. Bem vindo Paulo Freitas do Amaral.

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