Festa da Lusofonia passou por Montemor-o-Velho

Equipa AECODE

Nos dias 5 e 6 de Outubro, em Montemor-o-Velho, a literatura, a arte e a música foram os principais ingredientes do 3º Encontro com Escritores da Lusofonia. Esta iniciativa, que pautou pelo intercâmbio literário e pela partilha cultural e afetiva, reuniu, ao longo dos dois dias, mais de cento e cinquenta participantes.

Na sessão de abertura do encontro, organizado por Analisa Costa Reis, em representação da Associação de Especialistas para a Cooperação e Desenvolvimento (AECODE) em colaboração com a escritora montemorense Lurdes Breda, a vereadora Alexandra Ferreira congratulou-se pela “iniciativa ter procurado outros territórios e ter-se descentralizado, trazendo mais cultura e arte ao concelho, reforçando a oferta que o município tem empreendido”.

Dra Analisa e Lurdes Breda

Com palavras de agradecimento e estímulo, a vereadora destacou ainda “o trabalho desenvolvido pela Lurdes Breda na promoção do livro e da leitura” e desejou que “possamos continuar a ser brindados com as suas criações”.

No final de um fim-de-semana “repleto de emoções fortes” e antes do encerramento das atividades na Biblioteca Municipal Afonso Duarte (BMAD), Lurdes Breda agradeceu o apoio “de todos quantos contribuíram para a realização deste encontro, nomeadamente às entidades locais” e destacou que “os objetivo de dar a conhecer autores menos conhecidos, promover o intercâmbio cultural e reforçar dos laços com as diversas culturas de Língua Portuguesa foram amplamente cumpridos”.

Para a escritora montemorense, “este foi também uma oportunidade para podermos mostrar a História do concelho, a arquitetura, a gastronomia e os patrimónios materiais e imateriais que nos cercam”.Com participantes de todo o país, de Cabo Verde e Angola e de escritores com ligações a Macau e a São Tomé e Príncipe, o 3.º Encontro dos Escritores da Lusofonia decorreu na Quinta do Taipal e na BMAD, incluindo ainda no programa um roteiro literário em torno da vida e obra de Afonso Duarte, que percorreu alguns dos espaços mais emblemáticos do concelho.

Escritores AECODE

Houve apresentação de escritores, dizer de poesia e um dos momentos altos passou pela apresentação dos livros “Fenestra” de Márcia Souto, e “Me_xendo no baú. Vasculhando o U”, de Filinto Elísio e Silva, escritores convidados de Cabo Verde. Nuno Camarneiro e John Bella foram outros dos escritores convidados. Este encontro contou também com a presença do consagrado ator Ruy de Carvalho, agora no papel de escritor.

Destacaram-se as participações musicais do maestro Sívio Rajado, do músico João Conde, do grupo Sax & Companhia e da companhia de dança Afriklave. Participaram ainda o artista plástico João Paramés e Jorge Valente do Centro de Artes do Papel, Teatro dos Castelos.

Testemunhos dos escritores Filinto Elísio Silva, de Cabo Verde, e do escritor Rui Teixeira a propósito da sua presença no 3º Encontro com Escritores da Lusofonia em Montemor-o-Velho.
Testemunho do Escritor Filinto Elísio Silva:

Não será por aí que a crítica, tão necessária quão urgente, se deva impor aos dias das artes e das letras. Deste modo «apressado», não se infere a razão, nem se afirma a justiça. Impõe-se que tudo se faça límpida que nem «água da lagoa» sobre essa minha participação e a de Márcia Souto, na 3ª edição do Encontro com os Escritores da Lusofonia, organizado pelo AECODE. Antes de mais, o esclarecimento de que fora um «encontro com escritores» (não necessariamente «de» escritores), alistando quem quisesse participar, aceitando quem fosse convidado e se predispusesse a assumir os encargos). Assim, inscrições abertas, foram muitos os escritores que ali se reuniram dos vários países lusófonos (não em paranóias de representação oficial), mas cada um (em seu fazer estético de língua portuguesa) a falar por si e das suas vivências. Outrossim, não em defensiva, nem em ofensiva, todos nós participámos por nossa «conta e risco» no diálogo com os nossos confrades de diversas paragens, em caso nosso, um dando autógrafos do seu nono livro e outro lançando o seu primeiro livro, aí pelas margens do Mondego. O diálogo, centrado e orientado para o labor individual e as preocupações que temos tido com as edições, publicações e distribuições das nossas obras (e dos nossos confrades nesse mundo grande, cabendo todos), com momentos de trocas de textos e de afectos, que realmente, sempre que se queira e se possa (já que não se pode, embora se queira sempre, ir a todas para as gratas aprendizagens) e nunca à fugaz passarela da feira das vaidades. Estando nos circuitos e não nos esquemas, temos recusado muitos convites já que não recorremos aos apoios e patrocínios para os atender, nem temos ocasião sabática (nem suficiente vil metal para estar em tantas). Voltando a Montemor-o-Velho, eis que nos agradou aprender as técnica de fazer papel e de como extrair a celulose do arroz, eis que nos encantaram os textos lidos nos três momentos, eis que ali pudemos encher a boca para falar de Manoel de Barros e de Mário Fonseca, como de Luís de Camões e de Mia Couto, eis que acolá agradecemos a oportunidade de gizar os folguedos do imaginário nosso, eis que não nos arrependemos de haver submetido à AECODE o nosso desejo de participar e de o termos feito…às custas nossas!

Testemunho do Escritor Rui Teixeira:

Não sabia muito bem ao que ia. Levava uma mão-cheia de livros e uma enorme expectativa, temperada com uma pequena porção de angústia, até aqui o autor sempre abafara o escritor que não reconhecia em mim. Encontrei Gente, na Gente me encontrei. Pessoas simples, outras nem tanto, pessoas amáveis, outras mais metidas consigo, valores reconhecidos, outros em busca de se reconhecerem, mas todas irmanadas nesse desiderato que é a partilha de histórias, de saberes ou, tão só, como se só fosse pouco, do que lhes vai na Alma na língua que, nascida neste canto da Europa, se viu crescida, fermentada no querer e cultura das gentes, temperada de pimenta, kaombo, sol e mar. Não encontrei um público ávido pela aquisição de livros, grande surpresa seria. Tão pouco editores à caça de novos talentos. Ou livreiros em busca “daquela” obra que pode relançar o negócio. Para dizer a verdade, não lhes senti a falta. Porque encontrei Amigos. Porque viajei, ao sabor de uma conversa boa, como só costumo viajar embalado nas páginas de um bom livro. Porque, tendo chegado autor, saí sentindo-me escritor, se não o melhor do Mundo, garantidamente o melhor cá de casa, pelo menos até a Leonor se deixar tentar pela escrita. Mais, saí sentindo-me poeta. Não me importa agora se poetaço, ou poetastro, saí apenas poeta. E esse respeito acrescido pelo meu trabalho resultou apenas de ter aprendido, com gente tão ilustre, que o que conta é o carinho que se dispensa à língua, esta, a nossa. Como em qualquer grupo heterogéneo há sempre a tendência de nos identificarmos mais com estes do que com aqueles. De muitos conhecimentos sobressaíram algumas amizades. Eles e elas sabem quem são. Não posso, contudo, deixar de nomear duas pessoas que foram, desde o primeiro instante, o rosto do Encontro: a Analisa e a Lurdes, almas enormes, gente do alto, que me deram a honra de me chamar seu Amigo. Não poderia o Encontro ter acabado de melhor maneira, que ter, literalmente, metido a mão na pasta (de papel) para fazer uma folha do mesmo (as ideias que por cá andam) e o acto lindo, público de uns, na clandestina privacidade de outros, de deixar enriquecido o acervo da Biblioteca Municipal Afonso Duarte, que tão bem nos soube acolher.
Que outra maneira de terminar senão com um até para o ano?

Feira do Livro

* Redacção com apoio AECODE

 

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