Um inquietante inconformismo, por Joaquim Vitorino

UM INQUIETANTE INCONFORMISMO

Balança da Justiça

Quando há um ano atrás escrevi “Nós os Gregos e os Outros” e perspetivei que seguíamos o trilho da Grécia; ainda ressalvei alguns aspetos que nos diferenciavam daquele país, que como nós portugueses foram os escolhidos como cobaias para a aplicação de terapias para combater uma crise que os ricos despoletaram, escolhendo como alvos as economias mais débeis da Europa, onde o “analfabetismo” e a pobreza estão na origem de uma frágil cultura democrática; o povo português é neste momento o menos conhecedor dos deveres e direitos que um regime democrático tem para lhes dar; tirando alguns partidos políticos, dividendos desta triste realidade. Portugal é o país menos culto da Europa, não obstante os nossos emigrantes serem dos mais evoluídos e qualificados de todo o Mundo; não o afirmo por ter sido emigrante mas porque hoje a emigração portuguesa é a elite de todos nós; 93% dos que partem levam na bagagem Cursos Superiores tirados nas melhores Universidades, e outros estabelecimentos de ensino dos mais conceituados; eles partem para não voltar porque deixam o seu país cheios de ressentimentos, deixando-o a afundar-se cada vez mais na pobreza material e cultural. Um caso único na história dos povos, foi um governo mandar emigrar os portugueses como este o fez. Portugal é o país com o maior desnível de literacia de toda a Europa em contraste, há quinhentos anos eramos o mais avançado em quirografia; se cairmos num segundo resgaste nada mais resta aos jovens que é emigrar também, deixando a população mais velha e sem sustentabilidade das suas reformas, e que levará também a uma grande queda nos nascimentos; um drama social de deprimente dimensão humana. Começa a apoderar-se da nossa Juventude “um inquietante inconformismo” porque sentem que o seu futuro está seriamente comprometido e hipotecado, onde os portugueses já não conseguem afastar o sentimento de que vivem numa República desvalida. A perspetiva que resta aos que cá ficam será terrível; terão que emigrar também mas não têm aceitação no mercado de trabalho por falta de escolaridade, porque muitos destes Jovens vão deixar de estudar ou por falta de meios ou porque estão desmotivados; eles serão os novos romenos a estender as mãos à caridade nas cidades dos países ricos da Europa; utilizarão os filhos bebés nos sinais stop dos cruzamentos para despertar a caridade nas ruas e passeios gelados dos países do Norte. Um segundo resgate terá como consequência um terceiro e assim sucessivamente, porque o governo não tem coragem para tocar nos inticáveis, dividindo assim a sociedade em dois grupos; os mais fracos que pagam a crise, e os que não querem perder os privilégios; como recentemente disse o comentador Marques Mendes, este Governo é forte com os fracos e fraco com os fortes, os portugueses entendem bem o que se está a passar. Se a equidade e justiça fosse uma prática corrente neste país, há muito que não se falava da dívida mas sim da recuperação. As recentes eleições em que todos os partidos e independentes se assumem como vencedores, servem para esconder uma trágica realidade, que é a catástrofe social que espera o povo português a tradicional vítima da euforia política. Os juros da já monstruosa dívida não param de subir; algum dinheiro vai entrando porque a Alemanha não quer abrir uma nova crise no euro, e quando este estabilizar Portugal terá que o abandonar. Os portugueses andam distraídos com sucessos de futebolistas e acontecimentos socialmente irrelevantes, esquecem o seu futuro e especialmente o dos seus filhos já seriamente comprometido; o endividamento nunca foi sinónimo de prosperidade para nenhum povo ou família; um segundo resgate que leva sempre a um seguinte, terá um preço colossal a pagar pelas gerações futuras, com consequências dramáticas imediatas. O pior que nos pode acontecer é não admitirmos a nossa ignorância de que muitos estão a tirar partido; mas nunca será tarde, para nos vermos livre dela.

* J. Vitorino – Vermelha, Colunista do Jornal de Oleiros

Cavaleiro Cruz Azul

 

 

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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3 Respostas a Um inquietante inconformismo, por Joaquim Vitorino

  1. JP diz:

    Caro Sr Vitorino
    Concordo plenamente com praticamente tudo o que relata nesta sua crónica, apenas gostaria de frisar que quando o Sr fala na falta de justiça para com o Povo Português, é mesmo verdade, se não vejamos (não irei dizer nada que todos nós não saibamos…), não só no custos que trazem ao País, mas também pelas asneiras que fizeram e fazem, políticos, quem lhes toca?; Ex políticos e as suas subvenções, quem lhes toca; magistrados, quem lhes toca; altas patentes militares, quem lhes toca; ex governantes que roubaram o País e o Povo, quem lhes toca; gestores e ex gestores públicos, quem lhes toca…
    Nós na realidade vivemos num pais de gatunos e intocáveis que se escondem nos diversos lóbis existentes tais como a Maçonaria, Opus Dey, entre muitos outros… e depois e tal como o Sr refere, é o desgraçado do povo que paga a factura, e fica com o futura das suas gerações hipotecado…
    E pior, o nosso grande problema, é que somos e temos sido (des)governados (todo o puder politico), por uma cambada de fraldinhas demagogos, ignorantes e arrogantes que nunca deram provas de nada nas suas vidas, nem deram nada ao país onde vivem nem ás suas terras, e que se julgam detentores da razão e da verdade. Quando estes não são portadores de qualquer vivencia publica, politica ou até mesmo detentores de qualquer saber empírico, que é aquilo que nos faz crescer como homens e cidadãos, de excelência tendo estes apenas (julgo que irá concordar) uma ânsia enorme de se usarem do povo para se auto promoção e encherem os seus bolsos…
    Desculpe, e ainda falam mal do Salazar…
    Saudações cordiais
    JP

  2. geiza abreu diz:

    es cronica rica em detalhes da historia do teu povo gostei do que le , tudo que governates fazem bom ou ruim fica de brinde para gerações futuros no caso nada de bom . geiza

  3. Joaquim Vitorino diz:

    Em referência às duas respostas acima, os meus sinceros agradecimentos por nos leram, e estarem solidários com o que escrevi e com este Jornal que o publicou; enquanto possível estarei sempre na vanguarda da defesa, dos mais fracos e desditados deste pobre país. Temos que combater esta fatalidade; o nosso passado Histórico e as nossas crianças merecem mais. É bom saber que muitas pessoas como no vosso caso estão muito preocupadas. É evidente a insensibilidade do poder central para com os mais atingidos; a reposição de uma verdadeira justiça, porque é de falta de justiça que se trata é urgente; onde os reais problemas de que o nosso país sofre, começa na barra dos tribunais. Um abraço a ambos.
    Nota: Pesquisar no Google “Portugal, a Grande Assimetria Social” por Joaquim Vitorino largamente publicado há 6 meses.

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