Mártires e Heróis em Lampedusa, por Joaquim Vitorino

Intolerância e insensibilidade têm vindo a marcar a Velha Europa, onde muitos dos valores que nos diferenciavam se tem vindo a perder; tudo isto em nome de interesses que a globalização vai impondo, esquecendo a solidariedade que é devida entre os povos e Nações.

Lampedusa

 Lampedusa é um revoltante exemplo de tragédia que nações inteiras estão a viver no norte de África, levando à deslocação de milhares de seres humanos que fogem da pobreza extrema, da escassez da água e também das guerras e ditaduras; muitos dos que partem dos seus países são muito jovens mas já trazem com eles filhos ainda Bebés; quando chegam ao “virtual paraíso europeu” preferem atirarem-se à água e morrer, a terem que regressar para o flagelo das suas curtas e torturadas vidas; eles são considerados por algumas das novas Nações globalizantes e também de muitos europeus, como um dano colateral entendido à margem dum inquestionável valor humano, que é o direito à existência. 

mártires…

 O Papa Francisco fez questão que a sua primeira visita fosse a esta Ilha Italiana, porta de entrada para a Europa; esta visita cheia de simbolismo, foi um gesto de solidariedade para com o povo da ilha e todos aqueles que ali procuram proteção e abrigo; é também um grito de revolta contra a indiferença para com os que ainda pensam que a Europa é a terra prometida. Quando publiquei “Francisco o Papa” imediatamente a seguir à sua aclamação como Sumo Pontífice, sabia que este Homem veio para marcar a diferença entre os seus antecessores; Francisco é dotado de uma inquestionável envergadura moral que constitui uma esperança para o Mundo, e lança um alerta para a perigosa situação de conflitualidade latente que representa o drama dos refugiados em todo o mundo; este Papa está a dar um grande contributo para o equilíbrio e a paz entre as Nações. Os europeus que foram os grandes globalizadores no passado, não estão a lidar com esta tragédia humanitária com a devida lisura; o desemprego e o retrocesso no crescimento do ocidente, não justifica só por si o fechar de olhos permanente a este drama sem fim à vista; e a Itália não pode sozinha arcar com esta enorme responsabilidade de recolher no seu território centenas de milhares de refugiados, que num futuro próximo vão aportar naquela Ilha mediterrânea. A visita que o Papa Francisco fez a Lampedusa, foi precisamente sensibilizar o mundo Cristão e em especial a Europa que é um continente de emigrantes, para criarem condições de sedentariedade a estes povos em deslocação, tendo em conta que os países europeus estão a atravessar uma situação de grandes dificuldades, em consequência da crise que está a oferecer grande resistência por motivo de ter sido deslocalizada grande parte da produção europeia para os países emergentes. Motivos económicos foram sempre uma constante que marcou a deslocação dos povos ao longo da história da humanidade; não tenho qualquer dúvida, de que esta situação de que Lampedusa é um exemplo, se vai inverter num futuro que não será muito longo. A África é o maior dos continentes e também o mais despovoado; os países africanos são ricos em recursos que escasseiam na Europa que começa a entrar em decadência de produtividade, fazendo mais que sentido termos que regressar a África de onde saímos há um milhão e meio de anos. Lampedusa será nessa altura que não está muito distante; não a porta de entrada para a Europa; mas sim, a de saída para África.

* Joaquim Vitorino, Colunista do Jornal de Oleiros

Vermelha – Cadaval 

PS: A todos os que perderam as suas vidas, ao tentarem um futuro mais digno; e à mártir Ilha Italiana de Lampedusa.

 

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