De fora para dentro – um olhar sobre o concelho, por Vânia Costa Ramos

De fora para dentro – um olhar sobre o concelho

Quando aceitei colaborar com o Jornal de Oleiros, fi-lo pensando limitar a minha colaboração a modestas contribuições de índole informativa sobre aquela que é a minha área e a minha paixão – o Direito.

As primeiras linhas que escrevo não podiam deixar de versar o tema do momento: as eleições autárquicas que se aproximam. É um tema político, mas também (neste momento até demais) jurídico.

Por todo o país, as eleições são notícia. Não tanto pelas propostas políticas, mas mais pelas dúvidas jurídicas que envolvem determinados candidatos. O acto eleitoral que se aproxima pretendia marcar o início de uma nova era na política local, com a introdução de limitações aos mandatos autárquicos. Não podemos deixar de concordar com a ideia de que a rotatividade política é essencial à democracia e ao desenvolvimento, quer a nível local, quer a nível nacional. Porém, de forma inqualificável, o legislador não deixou clara a sua vontade, dando origem a por todo o país a reclamações junto dos tribunais e a decisões contraditórias destes órgãos, transformando aquilo que deveria ser a discussão pública sobre as ideias dos candidatos na discussão pública sobre se há ou não candidatos. Também em Oleiros houve reclamações, pelo menos relativas ao movimento independente de cidadãos. Mas neste caso não o foram com fundamento na limitação de mandatos.

Tendo origens, ligações fortes e vivências actuais e passadas no concelho de Oleiros, não sou eleitora no concelho. Não tenho também cor partidária, muito embora quem me conheça saiba que não deixo de nutrir certo encantamento com alguns ideais que se diziam de esquerda… apesar de, nos tempos que vivemos, talvez já sejam só isso mesmo, ideais, pois cada vez é mais difícil traçar o meridiano que separa a esquerda da direita… Estas características colocam-me numa posição confortável, para, de fora para dentro, olhar para a presente situação do concelho.

Tal como o país, Oleiros sente a crise. A crise eleva o nível do desafio que se coloca àqueles que pretendem dirigir os destinos do concelho. Os obstáculos são inúmeros, mas na sua maioria recondutíveis àquela que tem sido a maior característica do concelho – o seu isolamento. Verdejante e inspirador, ideal para reflectir sobre a vida. Mas fatal para o necessário desenvolvimento de uma terra que, se não se transformar e afirmar, corre o risco de, ela própria, junto com os seus cidadãos, emigrar…

O maior desafio é o de aproximar de Oleiros da região, do país e, por que não (estando nós na era da globalização tecnológica e da internet), do mundo. Essa aproximação pressupõe boas acessibilidades. Mas tal não basta. Atentemos no exemplo do país: pejado de boas acessibilidades rodoviárias, mas nem assim fugiu à crise que é global, e nem por isso deixa de aumentar o número de emigrantes e de notícias sobre aldeias desertas, paradas no tempo – aldeias, elas também, emigradas. É necessário desenvolver social e economicamente o concelho, incentivando ideias sustentáveis, potenciando as qualidades que o concelho oferece, atraindo e fixando as populações que aqui podem ter uma elevada qualidade de vida… Sem esta mudança não haverá esforços que evitem a diminuição da população do concelho e o malogrado encerramento dos serviços públicos essenciais (tribunal, conservatórias, finanças,  serviços de saúde, distribuição postal…).

Ao invés de aguardar o fatal destino, cabe à população do concelho mudá-lo.  Agora parece ser o momento ideal. Por coincidência, ou não, as eleições têm lugar no ano de comemoração dos 500 anos do foral de Oleiros. Há 500 anos Oleiros conheceu um passo decisivo na sua história. Hoje, as eleições autárquicas de 2013 proporcionam aos habitantes do concelho de Oleiros um verdadeiro exercício de cidadania e uma inédita discussão das ideias das diversas propostas válidas que se apresentam. É uma novidade que marcará, certamente, uma nova etapa. A novidade – como é o caso de uma eleição em que, qualquer que seja o vencedor, algo mudará – por vezes assusta. Mas um povo, como o português, que dobrou os cabos das tormentas por esse mundo fora, é um povo sem medo. E um povo, como o do concelho de Oleiros, que se aventura mundo fora, em terras frias e com línguas e culturas diferentes e desconhecidas, ou em terras quentes, onde o perigo é iminente, é, decerto, um povo sem medo.

Fora eu eleitora do concelho, não deixaria de aproveitar o momento para determinar os destinos do concelho, escutando e escrutinando atentamente todas as propostas para depois, em consciência e livremente, exercer o meu direito de escolha no projecto que se apresente como o mais adequado à refundação do concelho. E qual seria esse projecto? Quanto a isso apenas posso dizer: o voto é secreto!

* Vânia Costa Ramos, Colunista Especializada do Jornal de Oleiros

Nota do Director: Vânia Costa Ramos (Jurista) adere e junta-se às dezenas de excelentes Colaboradores do Jornal de Oleiros, tornando-o ainda mais forte e presente na região. Profundamente ligada a Oleiros e à região, Vânia Ramos é, particularmente para o Director, uma enorme alegria. Seguramente para os Leitores e Amigos, também um factor de enriquecimento. Bem vinda Dra Vânia.

Vânia Costa Ramos

 

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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2 Respostas a De fora para dentro – um olhar sobre o concelho, por Vânia Costa Ramos

  1. Joaquim Vitorino diz:

    Não posso passar ao lado, desta boa notícia; a Dra. Vânia Ramos, será uma lufada de ar fresco no Jornal de Oleiros, que conta já, com um grupo de excelentes colaboradores, em que humildemente me incluo; de facto, a sua especialidade, é uma das que o Jornal de Oleiros carece, não obstante o artigo, não incidir unicamente nessa área, que é o direito. Gostei muito de ler, o que a Ilustre colega escreveu, pelo que lhe dou, os meus sinceros parabéns.

  2. António Graca diz:

    Uma excelente leitura do que poderia vir a representar o acto eleitoral que se aproxima, partindo do principio que os protagonistas do acto teem capacidade para ver mais alem do que os simples interesses de sucesso pessoal. Tamb´em, embora com muitos anos de ligaç˜ao a Oleiros, n˜ao sou eleitor local,mas, se o fosse, creio que, do que conheço das listas candidatas, saberia claramente em qual votaria. Mas, como diz a Vania, o voto ´e secreto.
    Parabens Vania pelo excelente artigo

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