Portugueses, Uma geração perdida, por Joaquim Vitorino

Portugal

Os últimos 25 anos irão marcar muito negativamente o nosso país; vamos ser recordados como a geração mais inútil da história de Portugal, não só por todo o mal que fizeram, como também pelo bem que deveriam ter feito, pois tiveram todos os condicionalismos para o fazer.

Não me refiro aos que nasceram nela, mas sim aqueles que tiveram responsabilidades governativas, quando assumiram os destinos do país; não ficam isentos de culpa, quem lhes entregou durante anos sucessivos o voto.

Independentemente da crise que penalizou as economias ocidentais, Portugal teve todas as condições para ter saído dela, como nenhum outro país; pois o que recebemos da comunidade, e o que contribuímos é quase 300% a nosso favor; foram mais de 9 milhões de euros diários, que durante 25 anos entraram no nosso país, e que se esvaneceram em projetos de arrojada megalomania e risco, nunca vistos em países com um índice de pobreza como o nosso; como a exemplo, autoestradas e estádios de futebol, que num curto espaço de tempo, se tornaram em manifesta inutilidade; não se fez um único investimento a pensar no futuro.

É inacreditável que não obstante este rio de dinheiro a desaguar em Portugal desde a nossa adesão à comunidade Europeia, ainda tenhamos contraído uma dívida que está próxima dos 130% do PIB.

Os países e credores que nos deram assistência financeira, já compreenderam que Portugal jamais terá condições de poder liquidar este “monstro” de dívida, sem hipotecar a independência; e para aceitarmos o perdão de uma grande parte, Portugal terá que se submeter à condição de protetorado.

Os jovens portugueses que se intitularam de “rascas” estão enganados; porque rascas são aqueles que os catapultaram para a terrível situação em que se encontram; cheios de incerteza e desânimo e sem perspetiva de futuro à vista, eles são as vítimas colaterais de políticas de duvidosa utilidade, onde como consequência, a curto e longo prazo só os espera a emigração. Os portugueses que dizem mal de tudo e de todos, deixaram-se conduzir para o abismo, seguindo as falsas promessas e políticas distorcidas da nossa realidade, que nos levaram a este “beco sem saída”.

Culpamos insistentemente aqueles a quem pedimos ajuda, de todos os males que nos afetam, quando os verdadeiros responsáveis estão identificados. Sem escrúpulos pensam apenas neles, e também em alguns amigos de conveniência, eles são os 5% da população que levaram o país à ruina; projetaram bem o seu futuro e das suas famílias, mas também de subservientes amigos, colocando 95% dos portugueses a apanhar as “migalhas” que vão caindo das suas mesas; eles contaram sempre com a nossa complacência e ingenuidade. Com uma pequena exceção de 15% da classe média, que dentro de pouco tempo deixará de existir; os portugueses deixaram-se levar durante muitos anos, por promessas feitas por aqueles que despudoradamente, os empurraram para o empobrecimento coletivo; e os levaram a pensar que havia povos na Europa que viviam pior que nós, o que presentemente já não corresponde à verdade, porque já ultrapassamos essa linha que nos demarcava.

Os gregos por quem ultimamente os portugueses se têm nivelado, tomaram uma medida que nunca os atuais políticos em Portugal teriam coragem de o fazer; fecharam a televisão e rádio públicas, que constituía um cancro para aquele país, fruto de lutas salariais ao longo dos anos, onde o vencimento médio é muito superior ao português neste setor.

Portugueses e gregos, estão em lados opostos do continente, mas foram atingidos pela mesma tragédia nesta última geração, em que os governantes não estiveram à altura das expectativas destes dois povos. A tentativa de alguns dos nossos governantes nos colarem ao caso Irlandês, é para consumo interno, porque não existe uma única pessoa na Irlanda, que queira estabelecer um paralelo entre eles e nós.

Os jovens portugueses podem estar com a consciência tranquila, pois não têm qualquer culpa na  atual situação em que o país se encontra; foram os seus pais e avós, que permitiram que uns quantos se apoderassem deste pobre país, e o transformassem no seu negócio de família, onde dificilmente alguns políticos honestos por mais que tentem, nunca poderão alterar o estado de calamidade a que nos deixamos chegar, onde em alguns casos os interesses instalados, não serão de fácil mudança, porque entraram há muito num ciclo de difícil retrocesso.

Não me parece que alguma razão nos assista, ao acusarmos alguns dos nossos parceiros europeus de todos os nossos males, só porque eles nunca permitiram, que os seus responsáveis políticos tratassem o seu país, como muitos dos políticos portugueses tratam o nosso; evidentemente que quem nos empresta dinheiro, tenta salvaguardar os seus interesses, impondo juros elevadíssimos, para compreendermos que a vida não é fácil, e para nos refrear o apetite pelo dinheiro dos outros; os erros pagam-se por quem os comete, e muito especificamente por aqueles que os deixaram cometer, porque são estes últimos que vão pagar, a pesada fatura até ao resto das suas vidas.

Os portugueses têm sido simultaneamente vítimas e carrascos de si próprios, ao longo de mais de três décadas; é tempo de acordarem de vez, e acertarem contas nas próximas eleições, com todos aqueles que nos atiraram impiedosamente para o fundo da Europa.

A confiança nos atuais políticos e Instituições foi seriamente abalada, tornando quase impossível os portugueses atribuírem aos mesmos, a recuperação do país; esses já tiveram a sua oportunidade. Muitos são aqueles que não compreendem a posição do Presidente da República, que não pode agradar nesta situação a gregos e troianos; todos os que reclamam eleições imediatas, digam honestamente aos portugueses o que fariam em caso de serem poder?

Se vão rasgar o memorando de entendimento e renunciar à dívida, ou assumem os compromissos em que foram os principais subscritores? Se forem pela primeira opção, daqui por um ano Portugal estará numa situação dramática, devastado pela fome e insegurança, não haverá dinheiro para pagar as magras reformas, e importar alguns bens de consumo de necessidade imediata, disso ninguém tenha dúvida; é em tempo das vacas magras que ficará a descoberto alguma verdade, sobre o vergonhoso saque, de que o país tem sido vítima; será então o momento apropriado, para os portugueses saberem para que serve a justiça neste país; porque é efetivamente de justiça que se trata, não sendo sequer imaginável uma democracia sem ela. 

* Joaquim Vitorino – Vermelha – Cadaval, Colunista do Jornal de Oleiros

 

Joaquim Vitorino

 

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
Esta entrada foi publicada em Comunidades, Destaques. ligação permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *