Uma imensa vergonha, por Joaquim Vitorino

Uma Imensa Vergonha     

Joaquim Vitorino

Foi recentemente aprovada na Assembleia da República a lei de co adoção por casais homossexuais.

Os portugueses estão divididos entre os que concordam, e os que discordam da sua aprovação; pelo que deveria ter sido antecedida de debate público, e depois colocada em referendo; certamente não passaria em consulta popular, foi nesta perspetiva que uns quantos deputados do principal partido do Governo, decidiram votar a favor.

Tudo estaria certo, se não existisse no meu entender, algo que tem que ser esclarecido; efetivamente os proponentes da lei, cujo objetivo é alcançar seguidamente a plena adoção, tudo têm feito para derrubar este Governo, que tem precisamente a sua sustentabilidade na Assembleia da República; sendo que a atitude dos deputados do PSD, demonstra a fragilidade do apoio que o Governo tem, no local que o tornaria legítimo, que é o Parlamento. Aqui a liberdade de voto está na consciência de cada um, mas também no vínculo e dever para com aqueles que os elegeram, sendo este um princípio base da democracia. Provavelmente a lei não passaria num referendo, porque os portugueses são um povo que ainda não está preparado para enfrentar esta mudança; pelo que seria desejável um grande debate entre todos os intervenientes, porque estão em causa os direitos da criança, uma questão essencial que não ficou bem definida na lei, porque foi aprovada à pressa, numa fuga ao debate público.

Elas não terão uma resposta fácil, quando questionadas pelos colegas da escola quem são os progenitores, o país tem o dever de defender os seus direitos.

Feita esta análise, não posso deixar de dar os parabéns aos promotores pela sua aprovação, não que pessoalmente concorde com ela, mas porque conseguiram convencer um grupo de deputados a votar uma lei, em que pelo menos um dos partidos do Governo, sempre se manifestou contra. Neste contexto há que tirar elações políticas, porque eles lançaram a primeira pedra, para o derrube de um governo que deviam apoiar; a lei aprovada mexe com a nossa sociedade, e o povo português na sua maioria não se revê nela, por conseguinte não está preparado para a receber.

Alguns desses deputados faltaram para a deixar passar o que ainda foi pior, porque não tiveram a coragem de estar presentes.

Uma observação que me parece ajustada; a oposição tem insistido sempre em eleições, porque o atual quadro legislativo já não reflete a vontade popular; mas agora os preciosos votos do PSD, não levantou qualquer questão de legitimidade.

Os portugueses que elegeram esses deputados, hoje certamente não lhes dariam o voto; não estou a colocar em causa a legitimidade da aprovação; mas porque o que se passou na Assembleia da República, é muito simples de entender; o Governo com esta atitude dos seus deputados, perdeu o suporte Parlamentar, e passou a ter apenas o apoio Presidencial; sendo que nestas condições cabe agora ao CDS-PP acabar com esta coligação, porque foi sempre contra a adoção de crianças por casais homossexuais; não restando a este partido outra solução, se ainda quiser salvar algum do seu eleitorado, para não se afundar com o seu parceiro de Governo.

Eu que defendi consensos e alternativas de iniciativa Presidencial, perdi o fundamento para o continuar a fazer; Portugal como está não tem solução, e as eleições tornam-se inevitáveis se não existir lealdade  Parlamentar, que dê sustentabilidade ao atual Executivo.

Os deputados do PSD ao oferecer o voto à oposição, deram o golpe de misericórdia ao governo que deviam apoiar, não deixando a Passos Coelho condições mínimas para poder continuar.

Os portugueses têm que ser honestos e reconhecer, que este governo tem sido aquele que mais oposição interna e externa sofreu nos últimos 30 anos; herdou do anterior uma situação que ainda agravou; com comentadores de peso frequentemente a exigirem a demissão de ministros, sendo que alguns foram líderes do seu partido e atuais Conselheiros de Estado; o único apoio ultimamente, tem sido do Presidente da República; lamento mas não me parece ser neste momento suficiente. Passos Coelho não teve sorte nas opções para combater a crise, o que não coloca em causa a sua honestidade pessoal e persistência para a tentar resolver; só que não resolveu a grave situação do país, que em parte também herdou do governo anterior, o que é insuficiente como argumento, e o país não pode esperar mais; por isso deve apresentar a demissão alegando força maior como a exemplo, a maioria que suporta o seu Governo está dividida.

Os deputados do PSD prestaram um excelente serviço à oposição, e deixaram mãos livres ao CDS-PP para tomar uma decisão.

A discussão da co adoção no momento gravíssimo que o país atravessa, em que milhões de portugueses foram atirados para o pântano do empobrecimento e da fome, não tinha qualquer prioridade face à situação de emergência social em que Portugal se encontra, que não está longe da calamidade pública, que já se começa a sentir.

Deveria ser este o tema principal na agenda da Assembleia da República; os eleitores não aceitam que em nome do cumprimento do défice, um país seja condenado à fome e ao empobrecimento; o que vem a seguir nas próximas duas gerações será fácil de imaginar.

As vítimas serão sempre as mesmas que inevitavelmente terão que pagar a fatura, e que já tem um destinatário; são a “pobre classe média” que não vai resistir por muito mais tempo, e os pobres que serão cada vez mais; a preocupação da maioria dos portugueses, vai para as nossas crianças, que serão durante muitos anos, as mais pobres de toda a Europa; pela qual todos nós sentimos, uma imensa vergonha.

 

* Joaquim Vitorino – Vermelha Cadaval, Colunista do Jornal de Oleiros

 

 

 

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