O Eco do Silêncio, Por António Graça

O ECO DO SILÊNCIO

Para o governo a taxa de desemprego é 17,7%, para um desempregado é 100% ( António Bagão Félix)

E AGORA… ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE

Esta célebre frase da série “Os malucos do circo”( tradução muito livre do original Monty Pyton Flying Circus), assenta que nem uma luva na actuação do governo de Passos Coelho.

Após mais de dois anos em que os Portugueses foram sistematicamente agredidos, pelas acções e comunicados provenientes do governo, quantas vezes à margem da lei, o ministro Álvaro Pereira apresentou, recentemente, algo manifestamente diferente da prática governamental que referimos anteriormente.

O ministro anunciou ao país a existência de um documento intitulado” Estratégia para o Crescimento, Emprego e Fomento Industrial” (ECEFI 2013-2020).

Sem querer minimizar o trabalho produzido pelo gabinete do ministro, a minha vivência de cerca de quatro décadas ligado ao financiamento e à gestão de empresas, permite-me suscitar algumas dúvidas sobre os fundamentos da estratégia e os meios para atingir os seus objectivos.

Lidas atentamente as 83 páginas que constituem o trabalho, concluímos que, sob o ponto de vista académico, estamos perante um bom trabalho, que poderia ser um bom documento de estudo para os alunos do Professor Álvaro nas Universidades da British Columbia ou de York, mas, como grande parte das obras puramente académicas, não se revê inteiramente no mundo real, nomeadamente na actual situação que o nosso país atravessa, motivo pelo qual apresenta algumas fragilidades.

A que ressalta desde logo é a de o documento assentar a recuperação da economia portuguesa num aumento significativo das exportações.

Se tivermos em conta que cerca de 80% dos países que constituem os nossos mercados habituais de exportação atravessam situações económicas desfavoráveis, já será um exercício delicado manter o actual nível de exportações para esses países. A procura de novos mercados não será igualmente uma tarefa fácil, dificultada, sobretudo, pela situação cambial do Euro relativamente ao Dólar Americano.

Será então impossível aumentar o valor das nossas exportações? Claro que não o será, a menos que estejamos à beira de uma recessão a nível mundial.

Mas, o aumento das exportações não é feito pelo estado, este deve apenas criar condições, fiscais, de seguros de crédito, de eliminação da burocracia excessiva, etc. isto porque, quem exporta são as empresas e estas queixam-se frequentemente de um estado que apenas serve de empecilho às suas actividades.

Assentar o crescimento da economia no aumento das exportações é, na actual situação da economia mundial, um erro de estratégia.

A recuperação da economia portuguesa deverá começar a ser feita internamente, promovendo a retoma do investimento (consumo) privado, o qual foi seriamente penalizado pela drástica e selvagem redução do rendimento das famílias. Deverá ser feita uma aposta considerável na produção de bens e produtos que substituam as importações, procurando por esta forma um melhor equilíbrio da relação importações/exportações . Aliás, esta aposta servirá para, numa fase seguinte, e após a sua aceitação pelo mercado interno, promover a exportação desses mesmos bens e produtos.

Deve o ministro Álvaro ter presente que o crescente número de falências de pequenas e médias empresas e de desempregados se deve sobretudo à quebra da procura interna.

Duas das ferramentas invocadas para promover o crescimento da economia são o aumento do crédito às empresas e o Capital de Risco.

Quanto ao aumento do crédito, haverá dois pontos a considerar; o governo, sob pena de se criarem situações de enormes prejuízos para os operadores bancários, não pode força-los a conceder crédito sem que sejam respeitados os princípios básicos de avaliação da bondade e do risco das propostas que lhes sejam apresentadas para financiamento. Por outro lado, é um facto que os pedidos de concessão de crédito às empresas em condições minimamente financiáveis têm vindo a diminuir, uma vez que, com a recessão da economia as empresas não vão solicitar crédito para produzirem bens ou serviços que não vendem. É básico.

No que respeita ao Capital de Risco, a que prefiro dar o nome de Capital de Desenvolvimento, é um produto financeiro que tem somado êxitos em países como os Estados Unidos ou o Reino Unido, contudo, a sua aplicação em Portugal, não tem conhecido êxito semelhante, sobretudo porque os operadores deste produto financeiro o tratam como um produto bancário, que não é. O Capital de Desenvolvimento exige dos operadores um espírito de empreendedorismo e de tomada de risco consciente que, infelizmente, não se verifica em Portugal, levando a que este tipo de produto seja utilizado em formas e objectivos incompatíveis com a sua verdadeira vocação. Há, portanto que rever as linhas de actuação dos seus decisores.

Entretanto, o documento de Álvaro Pereira, ficou seriamente comprometido pela nova investida contra os rendimentos dos cidadãos anunciada dias depois pelo primeiro-ministro.

Quanto a essas medidas, já muito foi dito e criticado, e limitar-me-ei a dizer que a justificação das taxas sobre as reformas serem necessárias para garantir a sustentabilidade do sistema é completamente falsa, é apenas uma forma de o governo ir buscar mais dinheiro para derreter naquilo que não tem coragem para economizar.

O estado é um gastador compulsivo e comporta-se como um viciado que assalta os mealheiros dos familiares para sustentar o seu vício.

Até breve,

* António Graça, Colunista Especializado do Jornal de Oleiros

António Graça

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Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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Uma Resposta a O Eco do Silêncio, Por António Graça

  1. Joaquim Vitorino diz:

    Uma análise credível, escrita pelo meu amigo António Graça; a aplicação das medidas seriam de interesse, mas não com a economia neste estado; passaram dois anos, o ( timing) deste governo esgotou. Quanto à banca, evidentemente que tem que avaliar riscos, todos os bancos estão a perder dinheiro porque não o emprestam, e têm que pagar juros; esta situação a prolongar-se, vai atirar com os bancos à falência; só que os portugueses não vão resgatar mais BPN’S; estas terapias vem muito tarde, para quem está moribundo, noutras condições o documento seria razoável.

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