Terra e mar ao abandono, por Joaquim Vitorino

Arrastados por promessas feitas pelas elites políticas, os portugueses caíram no engodo da vida fácil, muitos foram aqueles que conseguiram empregos até ao final das suas vidas, garantidos a todos os que tiveram, a sorte de ir trabalhar para o Estado; inicialmente o setor privado estava quase equiparado a nível salarial, mas começou a perder para o primeiro, fruto das lutas sindicais que ao longo dos últimos 30 anos caracterizaram os movimentos do sindicalismo dentro do aparelho do Estado; no setor privado a força sindical foi sempre fraca e inconsistente, depressa começou a perder em todas as frentes, para além da precaridade no posto de trabalho, hoje a média de salário no privado, é inferior a metade dos colegas do setor público; logo aqui Portugal apresenta-se, com o maior fosso assimétrico de toda a Europa; sendo uma tremenda injustiça se tivermos em linha de conta, que o estado consome mais de 50% do que o país produz; para ser mais concreto, seria o mesmo que colocarmos um peso num prato da balança, e nove no outro.

As políticas erradas ao longo de três décadas, com culpas diretas dos partidos do arco da governação, e indiretas de outros que foram exigindo o que já não havia para dar, vieram dar a este beco sem saída; a que os portugueses não são de todo inocentes, porque até recentemente tinham um padrão de vida que era baseado no endividamento, sendo assim que atingimos uma falsa e virtual classe média. A hora da verdade bateu-nos à porta, com todas as consequências; das políticas mal avaliadas a investimentos feitos pelo Estado, os fundos comunitários que não foram utilizados em conta e medida, e outros que se esfumaram, em obras como estádios e autoestradas, que no presente pouca utilidade tem.

Os efeitos estão à vista de todos; o peso da máquina do Estado levou o país a contrair dívida após dívida, um monstro em forma de bola de neve que arrasa o país, e que não tem fim à vista.

Joaquim Vitorino

No princípio de maio, Portugal colocou no mercado 3.000 milhões de dívida pública de longo prazo, (11 anos) a que o governo classificou de sucesso; este dinheiro que entra em Portugal a juros altíssimos de 5.7%, quase ao dobro dos empréstimos da troika, são para fazer frente a dificuldades de tesouraria, e para pagamentos de juros e amortizações de dívida de curto prazo, muito pouco irá sobrar para a economia; os credores que são quase sempre os mesmos, têm interesse em manter o hospedeiro vivo, para lentamente o irem sugando.

As elites políticas de hoje e do passado recente, têm que dizer a verdade ao país, para que seja transmitido às futuras gerações e aos jovens, os danos que lhes estamos a infligir sem que em nada tenham contribuído para o merecerem. Já o afirmei anteriormente, ser uma imoralidade que esta geração e a anterior, tenham vindo a tirar benefícios, em detrimento das nossas crianças, e de outras que que ainda não nasceram; vão ser elas as principais vítimas dos muitos erros por nós cometidos nos últimos 30 anos, a que erradamente chamam de crise. A verdade tem que ser reposta com toda a clareza, para que os portugueses compreendam o que lhes está a acontecer; os intervenientes políticos com responsabilidades na atual situação, devem explicar que a crise portuguesa, tem uma tipologia diferente de outros países que já saíram dela, e que no nosso caso nem afetou muito a banca. Estes governantes que em parte estão a “limpar o lixo” que governos anteriores atiraram para debaixo da carpete, só que não têm a arte para explicar o que nos está a acontecer; limitando-se a cortar em casos que devem, e noutros onde não deveriam tocar. É pela falta de diálogo, que os sentimentos da maioria dos portugueses não se revêm neste governo; tem legitimidade para governar, mas não tem habilidade para explicar. Temos que ser honestos, não se pode atribuir só a culpa, a quem não a tem no seu todo; as terapias falharam, mas o mal vem de trás. Falhou quem prestou assistência financeira a Portugal, e quem falha assume os riscos, não são só os portugueses; deveriam ter estudado que tipo de economia temos, e o povo que somos; todos falhámos, é a partir daqui que devemos tirar todas as ilações. Portugal nunca mais se endireita se continuar a contrair mais dívidas, certamente o que devemos terá que ser pago; mas a dívida não pode para já, ter prioridade face à sobrevivência da Nação, terá que ser profundamente negociada. Portugal abandonou as terras e o mar, este é o mais extenso da Europa; temos que nos lançar sem perda de tempo, na agricultura e nas pescas. Existe capacidade para produzir em quantidade e boa qualidade, com preços muito abaixo dos importados, é preciso sacudir o país que está paralisado, e retira-lo das cinzas. O povo português foi o que mais regrediu em toda a Europa, nos últimos 39 anos; o nosso sentido de justiça também não anda muito forte, andamos a culpar-nos uns aos outros e a terceiros, quando na realidade somos nós, os únicos culpados do nosso atraso e empobrecimento.

* Joaquim Vitorino, Correspondente do Jornal de Oleiros

Vermelha – Cadaval

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