O Eco do Silêncio, por António Graça

O Eco do Silêncio

António Graça

Portugal-de-Cima vs Portugal de – Baixo

Quem sabe cala quem não sabe é quem mais fala ( Salomão )

Todos nós, em deslocações efectuadas pelo nosso país, nos deparamos frequentemente com localidades com nomes idênticos, apenas diferenciadas por terem anexas as designações “ de cima” e “de baixo”, são os casos, por exemplo, de Aveiras-de-Cima e Aveiras-de-Baixo, Aguada-de-Cima e Aguada-de-Baixo ou Serém-de-Cima e Serém de Baixo.

Enquanto que, os nomes dessas localidades, nomeadamente as extensões “de Cima “ e “de Baixo”, são justificadas por razões geralmente geográficas ou topográficas, poderemos considerar que, hoje em dia, por razões político-jurídico-económicas, existem também um Portugal-de-Cima e um Portugal-de-Baixo.

Passo a explicar:

O Portugal-de-Cima corresponde àquela parte do país que abrange gente ou instituições com poder, seja ele político ou económico, tais como políticos, bancos, grandes construtoras, concessionárias das PPP, figuras ditas públicas, à mistura com grandes burlões e outra gente menos qualificada.

O Portugal-de-Baixo é a parte do país correspondente aos trabalhadores, reformados, pensionistas, idosos, doentes, enfim, aqueles a que chamamos cidadãos comuns e a quem os de-Cima chamam povo.

Ao contrário das povoações a que nos referimos no início, o Portugal-de-Cima vive, essencialmente da exploração do Portugal-de-Baixo.

É assim que, por exemplo, para cobrir os monstruosos prejuízos provocados no sistema bancário por gestores que cometeram autênticas burlas, os do Portugal-de-Cima não hesitam em ir ao bolso dos do Portugal-de-Baixo, deixando práticamente intocável o património dos burlões.

Também o fazem para pagar os ruinosos contratos associados às Parcerias Público-Privadas, passando os montantes relativas aos seus encargos quase directamente do bolso dos de Portugal-de-Baixo, para os cofres das concessionárias.

Quando é necessário cortar nas despesas do Estado, que abrange os dois Portugais, lá vêm, os governantes, sempre do Portugal-de-Cima, assaltar as bolsas dos do Portugal-de-Baixo, sem qualquer ponta de sensibilidade para com os mais fracos; desempregados, idosos, reformados, pensionistas, etc.

O Portugal-de-Baixo vai definhando, enquanto os de-Cima vão engordando e dizendo aos de-Baixo que são necessários mais sacrifícios, porque eles, os de-Baixo, foram gastadores, improdutivos, preguiçosos e são uns privilegiados.

No Portugal-de-Baixo, os novos pobres fazem filas junto aos pontos de distribuição de comida, enquanto os do Portugal-de-Cima, com a barriguinha cheia e o emprego assegurado, afirmam que as coisas vão no bom caminho.

Até quando vamos ter estes dois Portugais?

Até um dia. Esperemos que não seja tarde demais

SANTA IGNORÂNCIA

No final de reuniões dos respectivos partidos, ouvimos Passos Coelho e Paulo Portas afirmarem que é necessário que os bancos injectem mais dinheiro na economia. O 1º ministro afirmou, inclusivamente que o governo iria pressionar o sistema bancário nesse sentido, nomeadamente pressionando a Administração da Caixa Geral de Depósitos, uma vez que o Estado tinha recapitalizado alguns bancos nacionais.

É uma afirmação que me deixa perplexo.

Pensarão esses sujeitos que injectar dinheiro na economia é algo parecido com lançar milho aos pombos no Jardim da Estrela. São afirmações destas que atestam a ignorância dos políticos relativamente às realidades e aos princípios básicos de funcionamento da economia.

Pergunto eu:

1- Com a brutal baixa do poder de compra dos portugueses, ocasionada pelo roubo sistemático dos seus salários e pensões, as empresas vão pedir financiamentos para quê?

2- Para produzirem bens e serviços que ninguém consome?

3- Poder-se-ia dizer que produzirão para exportação, mas, como se sabe, os nossos mercados tradicionais estão igualmente em recessão e a conquista de novos mercados demora bastante tempo.

4- Ou então pretendem eles que os bancos concedam crédito a torto e a direito, sem avaliar os riscos associados às operações, criando novos casos BPN?

Poderão tentá-lo relativamente ao à CGD, da qual o Estado é o único accionista, já relativamente aos privados, tenho sérias e fundadas dúvidas que os respectivos accionistas embarquem em tal loucura

É o que dá as pessoas fazerem afirmações demagógicas e desconhecedoras das realidades. É que a actividade bancária tem regras prudenciais diferentes das que regulam a concessão de subsídios do Estado, quantas vezes para projectos de utilidade duvidosa

Santa ignorância.

Até breve

* António Graça, Colunista Especializado do Jornal de Oleiros

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Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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