E-Migrar para Portugal, um episódio de uma vida, por Sofia Alves Martins

E-MIGRAR PARA PORTUGAL, UM EPISÓDIO DE UMA VIDA

Tudo começou quando peguei por mero acaso numa revista.

Escolhi aquela, entre tantas outras, hoje percebo porquê…foi o destino.

Já tinha 10 anos, mas a capa era a mais chamativa entre as demais: uma praia paradisíaca e um título bem conhecido dos dias de hoje, “Diga não ao stress!”.

Atrevi-me a folhear as suas páginas, na expectativa de ser eu, a encontrar naquele tempo, respostas para os dias de hoje.

Páginas de luxuria, álcool, amizades plásticas que caem do céu… Um manual de auto-ajuda, que ousava ensinar a viver o presente, sugerindo que fechasse as mágoas do passado numa pequena caixa com cadeado e esquecesse o massacre das expectativas sobre o futuro. Uma agenda, com propostas de alterações transcendentais ao nosso modo de vida! Que máximo, podíamos ser tudo! Num dia mulher, no outro empresária, no seguinte mãe, no anterior dona de casa, e na semana seguinte, voluntária, fashion-victim, crítica gastronómica…só faltava mesmo apontar o dia da semana em que era suposto ser feliz.

Depois de páginas e páginas de locais lindíssimos, com os quais nem me atrevia a sonhar, encontro-os. Um casal jovem, simples, com dois filhos, com o qual me identifiquei de imediato. Uma história de coragem, uma viagem, um investimento de alto risco, um destino. O casal, cansado da vida citadina, decide tentar a sua sorte num meio rural. Partilham no artigo a sua experiencia, a dor, a alegria, e terminam dizendo que afinal é mesmo verdade, precisamos de viver a cem por cento, sem limites, aproveitando cada dia e minuto como se, literalmente, não houvesse amanhã.

Respirei fundo, olhei em volta e tudo parecia estar diferente: as cores, o cheiro, as vozes…

Apercebemo-nos que o tempo escasseava e a vida fugia-nos por entre os dedos cansados, dia após dia. Os brinquedos amontoavam-se no quarto quase intocáveis e sem tempo. Sem tempo para respirar. Sufocados por barulhos infernais. Infindáveis correrias e noites mal dormidas. Parecia que a imensidão e o encanto de uma vida e de uma cidade magnífica, simplesmente desaparecera.

Sentíamo-nos reféns de uma rotina angustiante.

Depois de tantos anos a nossa cidade parecia deixar de dar sentido a cada palavra, a cada pensamento ou aspiração.

Foi então que de repente, e como que por alquimia, sentimos falta. Uma falta enorme de respirar, do silêncio a quatro, de um simples caminhar, de dormir um sono descansado e porque não de um belo pedaço de PAZ!

Sentimos medo, principalmente medo de não ter tempo para dar tempo a dois pequenos pedaços de nós.

Não havia momento certo. Já devia ter sido ontem, era agora, seria amanhã, mas, certo era que caminharíamos os quatro.

A paixão pela terra era evidente, pelo seu afecto, pela sua paz, pelas suas pessoas.

As ideias fervilhavam.

As fraldas, os brinquedos e todo um começo de vida a dois, partilhado a quatro, até parecia caber numa única mala.

Ir para uma terra nova pressupõe levar também os sonhos. Então, fugimos e levámo-los connosco! Levámos na bagagem cada pedaço de nós, mas, o medo também exigiu que ficassem algumas sementes na cidade abandonada.

Fomos simplesmente mais uns entre tantos. Fomos curiosos e nada inteligentes para alguns. Irreverentes, optimistas e empenhados desde o primeiro instante. Sociáveis e eternamente gratos à Vila de Oleiros que, sem saber, nos acolheu desde crianças e agora mais do que nunca nos dá a mão.

Sentimos um orgulho imenso. Temos agora o privilégio de poder respirar este silêncio inigualável e adormecer sob tantas noites estreladas, tão especiais para nós.

Encontrámos finalmente o sagrado, em simples actos comuns, como abrir uma janela, ou levar os nossos filhos à escola.

Agora sim vivemos num local inspirador, repleto de virtudes, generosidade, esperança, longevidade e energia. Bens tão apetecíveis numa sociedade agora confrontada com tantos desafios e maiores incertezas.

Sim, foi um choque. Já quisemos fugir.

Ainda existem algumas diferenças culturais e nem todos estamos preparados para aceitar certas mudanças.

Fazemos parte de uma migração sem expressão estatisticamente, mas, silenciosamente, esta ideia vai conquistando os sonhos de gente saturada da vida urbana.

Mudar de vida não é uma tarefa fácil, é um acto de uma intempestiva paixão, um choque para muitos, mas não deixa de ser um desafio para outros.

Como nós, outros também têm encontrado em regiões menos habitadas do País a força para dar um novo rumo à sua vida.

Um território em sintonia com estas vontades e que se sinta preparado para acolher pessoas como nós, que buscam o seu porto de abrigo, poderá brilhar num projecto de desenvolvimento inovador e quem sabe até duradouro.

Oleiros é o nosso porto de abrigo. As suas deslumbrantes paisagens, os seus contrastes, as suas cores, texturas, sabores, clima, e principalmente as suas gentes, conquistam-nos todos os dias.

As pessoas são sem sombra de dúvida o elemento fundamental das regiões que lutam arduamente com a problemática da interioridade.

A tradição e o bem receber, são uma arte que os oleirenses souberam manter e aperfeiçoar. E não podemos esquecer que esta arte, se devidamente capitalizada, pode determinar o futuro. O nosso futuro!

É pertinente transformar a interioridade num factor de atracção.

Portugal vive momentos pouco auspiciosos, mas, numa altura em que o governo está concentrado nas finanças públicas e a economia no seu todo sofre um severo abrandamento, é sem dúvida este o momento oportuno para reflectir sobre o que para cada um de nós, pode constituir uma oportunidade.

Oleiros, sendo um interior de rudeza suave, tem todos os atributos para criar raízes a quem as procura.

Após 7 anos, difíceis, fantásticos, com alguns episódios de dor e grandes momentos de alegria…Continuamos aqui.

 Oleiros, 28 de Março 2013

* Sofia Alves Martins, Colaboradora do Jornal de Oleiros

Sofia A. Martins

 

 

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
Esta entrada foi publicada em Comunidades, Destaques, Oleiros. ligação permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *