Lembrar os idosos em tempo de Páscoa, por Lucília Rebouta

LEMBRAR OS IDOSOS EM TEMPO DE PÁSCOA

Estamos no final de mais uma época festiva.

Nestas épocas é já habitual falar-se de amor ao próximo, da prática do bem.

Parece-me que é só e apenas teoria pois num país moribundo como o nosso já só há lugar para a revolta e o descontentamento.

No entanto hoje apeteceu-me divagar num texto ligeiro sobre os mais velhos.A saga do idoso abandonado instalou-se, tornou-se não hábito mas vício.

Alguém se lembra deles nesta, noutras quadras ou no dia-a-dia?

Perdemo-nos em discussões sobre o estado do tempo,sobre o estado das coisas,egoísticamente olhamos somente para o nosso umbigo e nem reparamos na solidão do velho que caminha cabisbaixo e silencioso.

Vejo-os diáriamente na rua embrenhados na sua tristeza, ouço as suas histórias de maus tratos na televisão que pouco vejo, atendo-os num serviço de urgência que não podem pagar e, quantos deles

chegam cheios de fome, de carências e sózinhos. Enquanto o Governo discute o sexo dos anjos a nossa classe mais cansada caminha a passos largos para o total abandono, para a morte anunciada e antecipada.

Lembro-os hoje, porque hoje é um dia tão importante como outro qualquer para os lembrar. Ninguém quer perceber que a solidão, a carência afectiva deles torna o seu envelhecer mais doloroso.

Na nossa sociedade o idoso é visto não como um ser humano mas como um encargo familiar e social daí o desinteresse a que o estado os sujeita.

Envelhecer é tão natural como nascer, crescer ou transformar-se. Sofremos transformações desde as alterações fisicas aos comportamentos e papéis na sociedade, envelhecer é isso e não podemos

ignorar nem desrespeitar essa condição pois todos um dia seremos velhos.

Quantas vezes na minha aldeia me sento com eles no banco do jardim ou no degrau de uma escada qualquer e fico a ouvi-los contar as suas histórias tão cheias de essência,tão repletas de vivências. Falam das saudades da sua juventude sofrida mas tão vivida, falam do seu adormecer lento e noto-lhes na voz o desencanto, uma tristeza infinda própria de quem já possuiu o mundo e que nada possui além da negação da velhice e a espera…

Sinto tristeza, sinto revolta, revolta contra um país, contra um governo que se perde em jogos de poder quando deveria ocupar-se na protecção destes que um dia foram o futuro do país.

Um estado digno, um estado de direito deveria obrigatoriamente garantir aos seus idosos uma velhice digna com direito á prestação de cuidados de saúde eficientes, com direito a lares nas devidas condições mas antes e mais do que isso seria fundamental que fossem dadas ás familias, condições para os incluir no seu seio familiar evitando assim,creio eu, o seu esquecimento em lares e hospitais, o seu abandono nas suas próprias casas ou na rua juntamente com a sua solidão.

Que os governantes e o povo despertem para esta triste realidade e que todos os dias sejam de ressureição das consciências.

Nesta quadra e diáriamente a minha homenagem.

* Lucília Rebouta, Correspondente em Coimbra do Jornal de Oleiros

Lucília Rebouta

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Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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Uma Resposta a Lembrar os idosos em tempo de Páscoa, por Lucília Rebouta

  1. Joaquim Vitorino diz:

    Deprimente e aviltante, que no ocaso das suas vidas, os nossos idosos não tenham um tratamento mais digno e humano; a maioria deles deram, com trabalho e genorosidade, tudo o que podiam ao país e familiares, que agora os abandonam em lares, tutelados por gente sem escrúpulos, muitos são aqueles que não voltam mais a ver os familiares; com a crise económica, que não é uma desculpa; a sociedade portuguesa, está a perder os mais nobres e tradicionais valores, que são o amor, e a entreajuda e solidariedade que é devida aos outros; a eles dedico este meu humilde comentário. Feliz Páscoa

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