Os comentadores do litoral contra o povo do interior, por Paulo Campos

Nunca como hoje, os comentadores políticos foram tão contestados nas redes sociais, nas conversas de café, no dia-a-dia dos portugueses. Porquê? Porque o povo se fartou de uma “narrativa” que falhou em toda a linha e se veio a comprovar falsa. Ao contrário do dito, a mentira repetida não se torna verdade! Mais cedo que tarde torna-se perceptível e ninguém perdoa.

Não foi totalmente inovador: durante meses, ainda antes das últimas eleições, a actual maioria preparou a sua entrada em cena. Um conjunto de “comentadores”, apresentados como “altamente especializados” nas matérias económicas, com grande “independência” e “total desapego”, explicava várias vezes por dia ao povo, nos jornais, nas rádios e nas televisões, os “erros” do governo Sócrates, a responsabilidade pela crise e o espírito “despesista” e “faraónico” de então.

Falaram, falaram, falaram. Venderam o que quiseram, durante o tempo que lhes apeteceu, sem contraditório, nem equilíbrio. Esses comentadores criaram a doutrina teórica travestida de grande exercício democrático, que veio servir de sustentação para a actual política vigente e que resultou, afinal, na desgraça que o país está a viver. No fundo, não é só o Dr. Gaspar que falhou todas as suas previsões, como foi agora demonstrado pela União Europeia. Os comentadores de serviço, também eles não acertaram uma! Óbvio: porque falharam no diagnóstico, falharam na solução.

O diagnóstico falhado era “simples”: malandros governantes, irresponsável povo. Os políticos e o governo tinham a culpa, gastavam de mais e em projectos desnecessários. O povo também. Havia pessoas que iam de férias, outras tinham casa e outras duas televisões. Foi uma récita repetida vezes sem conta que se instalou no subconsciente dos portugueses. No fundo, a crise internacional não existiu, ou a existir, em nada influenciava o nosso “mau comportamento” colectivo. Estado, empresas e pessoas, em Portugal, um cocktail explosivo de inconsciência despesista. Parece absurdo que um estado que não deixou de pagar um tostão a qualquer credor não pudesse investir nas necessidades do país, ou, que um cidadão trabalhador e produtivo não pudesse disfrutar as suas férias, ou ter a melhoria da qualidade de vida que um automóvel e uma via condigna lhe permitem.

Desse diagnóstico tiraram os comentadores ao serviço da maioria a conclusão: cortar. Cortar nas gorduras, cortar na despesa, cortar nas fundações, cortar no investimento. Ainda no último debate da campanha, José Sócrates tentou, durante mais de uma hora, explicar o óbvio. A coligação preparava-se para cortar na Saúde, na Educação e na Solidariedade Social. Qual quê, replicava Passos Coelho. Ele ia cortar nas gorduras, posteriormente “fundações” e “PPP”, sem aumentar impostos e sem cortar as funções essenciais do Estado. A quase dois anos de distância é incrível. José Sócrates falava a verdade, a maioria ia dissecar o país e Passos Coelho mentiu em todas as intervenções que fez.

Na verdade, o discurso oficial da maioria, sustentado por Marques Mendes, Medina Carreira, José Gomes Ferreira e tantos, tantos outros (especialmente os que agora integram os altos gabinetes da esfera pública), veio a comprovar-se uma desgraça para Portugal, uma mentira sem paralelo na história da democracia e um truque muito feio para açambarcar o “pote” e dele fazer o que der jeito sem prestar contas a quem quer que seja.

Como nenhuma previsão, deste governo, se revelou correta, seja macroeconómica, do desemprego, do PIB, da execução orçamental, da dívida pública, da receita ou da despesa, só há uma forma de aceitar as previsões da actual governação: entender o contrário do que diariamente nos dizem.

E porquê? Porque é que nada vindo dos Drs. Coelho, Relvas ou Gaspar bate certo? Porque, ao contrário do que nos tentaram dizer, as políticas de promoção do desenvolvimento, da igualdade de oportunidades e da competitividade nomeadamente através do investimento, da inovação e da qualificação das pessoas, preconizadas por José Sócrates, fazem hoje ainda mais sentido e são necessárias para criar emprego e dar esperança aos portugueses.

Chegámos ao ponto essencial: durante 6 anos promoveram-se políticas e projectos com base no mais elementar princípio de solidariedade e coesão territorial. Porque é que durante décadas e décadas a fio os cidadãos do interior ajudaram a pagar infra-estruturas no litoral e quando se resolve compensar essa desigualdade, aqui-del-rei que o estado é despesista?

Porque é que ciclicamente se analisa e debate a desertificação do interior e a sua falta de competitividade e na altura de atacar o problema de frente, “que desgraça porque os projectos não são necessários”?

Porque é que todos sabemos, inclusive os autarcas de todas as proveniências partidárias (que aliás, justamente exigiram condições de igualdade para as suas gentes) que a forma de fomentar o progresso e o pleno emprego é através do investimento na economia, sobretudo das regiões desprotegidas e abandonadas pelos interesses eleitoralistas e quando as medidas foram tomadas, toca a adjectivar o esforço nacional de faraónico para cima?

Nos últimos anos o país estava a retribuir o pesado e decano esforço que a população do interior fez no desenvolvimento do litoral. Investimos em estradas, em fibra óptica, no acesso à Banda Larga e aos conteúdos televisivos. Investimos nos recursos naturais, na produção de energias renováveis, nas escolas, nas universidades e nos seus pólos, na ciência e no conhecimento. Na rede nacional de saúde e no maior apoio social alguma vez existente na história do nosso país. Nos governos de José Sócrates, dizemos com orgulho, levámos à letra a máxima: ninguém ficou para trás. Nem pela sua idade, origem social ou étnica, pela sua ideia política, ou capacidade intelectual! Não é um “destino fatal” nascer, crescer e viver no Interior, não pode ser!

Foi essa a nossa energia, o coração da política que desenvolvemos por Portugal.

E foi tudo isso que foi falseado pela ambição desmedida pelo poder, servida pela maioria dos comentadores ideologicamente assalariados. Cada um que falou, não estava simplesmente a dizer mal dos governos de José Sócrates, não estava a “analisar” livremente a necessidade e sobretudo o verdadeiro impacto económico dos projectos. Não. Estava, antes de mais, a prestar um serviço. Um serviço que demonizava os reais valores em causa, do investimento à receita, da criação de postos de trabalho directos e indirectos à promoção das economias locais.

O que Marques Mendes, Medina Carreira, José Gomes Ferreira e outros fizeram durante tempo demais e sem contraditório foi subjugar uma população inteira ao pensamento único, que não há vida para além da austeridade e que o investimento no interior foi um acto “despesista” e “faraónico”. Falharam. Falharam. Falharam. E quem saiu prejudicado? Mais uma vez, a população do interior de Portugal que se vê de novo abandonada à sua sorte.

Para cúmulo dos cúmulos, ironia das ironias, a actual governação lá apresentou com pompa e circunstância o seu primeiro investimento. A primeira PPP deste tipo de governo. Mil milhões de euros, um porto, no litoral claro, junto a Lisboa! Ainda dizem que não se preocupam com eleições. Pois, pois. Enquanto no interior houver menos votos, o investimento aí realizado será sempre “despesismo”…

* Paulo Campos, Colunista Convidado do Jornal de Oleiros

Paulo Campos

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