Agricultura competitiva? Que fantasia…, por António Moreira

AGRICULTURA COMPETITIVA? QUE FANTASIA…

É hoje público e notório que a nossa Agricultura e as nossas Pescas, a seguir à nossa entrada na então C.E.E. (Comunidade Económica Europeia), no dia 01.01.1986, foram sacrificadas até ao estado miserável em que hoje se encontram.

         No entanto vários responsáveis políticos e associativos têm vindo a fazer crer à opinião pública, por razões que não conseguimos vislumbrar, que a nossa Agricultura e as nossas Pescas, se encontram em boa forma, isto é, que têm vindo a conquistar um bom nível de competitividade.

         É certo que em relação a alguns produtos, como o vinho, o azeite, o leite, o tomate e os produtos hortofrutícolas, estão no bom caminho, sendo o nosso Pais já excedentário em relação a alguns deles, alcançando até, pontualmente, um bom nível de exportações, o que é positivo e de aplaudir.

         Todavia o saldo líquido, é ainda, escandalosamente deficitário, como está à vista de todos.

         Com efeito importamos cerca de 80% dos produtos alimentares de que carecemos, sendo certo que, em relação ao trigo para fazer pão, base da nossa alimentação, importamos mais de 90% deste cereal, e mais de 60% do pescado, apesar de termos a maior Zona Económica Exclusiva (Z.E.E.), isto é, um imenso mar.

         Chegamos ao cúmulo de importar peixe a empresas estrangeiras que o vêm capturar nas nossas águas.

         Como também é do domínio público, mais de metade da nossa frota pesqueira foi abatida a seguir à nossa estrada na C.E.E., tendo os proprietários de barcos de pesca recebido dinheiro para os abater, quando toda a lógica impunha que os subsídios recebidos se destinassem ao seu aperfeiçoamento, modernização e dinamização, e não para a sua destruição.

         Chegamos à actual situação em que mais de 220.000 agricultores  recebem dinheiro para abandonar as suas terras numa área total que ultrapassa os 2.000.000 (dois milhões) de hectares, deixando-os  sem cultivo e sem exploração, o que tem como consequência imediata, para além da desertificação e despovoamento de todo o interior, a proliferação de incêndios florestais, que consomem anualmente mais de 100.000 hectares em cuja prevenção e combate se gastam mais de 100.000.000,00 (cem milhões) de euros anualmente.

         Em muitas terras abandonadas, outrora cheias de cereais, produtos hortofrutícolas, milho, feijão, batatas, etc. etc, hoje só se vêm lagartos, borboletas e passarinhos…

         É certo que a nossa Agricultura e as nossas Pescas estavam muito atrasadas em relação às dos nossos parceiros a quem nos vínhamos juntar, e a vida dos nossos agricultores, porque baseada em métodos rudimentares e artesanais era extremamente dura e de reduzida rentabilidade.

         Todavia, impunha o bom senso e uma gestão racional e adequada dos nossos recursos naturais, que tivessem sido dotados com formação profissional adequada todos quantos aí trabalhavam, e com mais a moderna tecnologia e equipamentos adequados e eficazes e nunca “matar” estes sectores produtivos, isto é, a base da nossa economia.

         Paralelamente ocorreu ainda outro crime gravíssimo contra a nossa Sociedade.

É que em vez de se promover a chamada transição geracional, isto é, transmitir os conhecimentos, nestas actividades, dos Pais para filhos e para os netos, pura e simplesmente se promoveu o seu corte e afastamento destas gerações, levando-as a abandonar os campos e os mares em busca de melhor sorte para o seu futuro e das suas famílias, nas grandes cidades e em todo o litoral.

Nesta fase do campeonato temos cerca de 1.000.000 (um milhão) de desempregados que podiam e deviam, aqueles que o desejassem, trabalhar neste sector primário da economia, isto é, a agricultura e as pescas, mas que, nestas circunstâncias, as mais que legítimas aspirações da sua maioria consistem na busca desesperada de um posto de trabalho no estrangeiro com intenções de não mais voltarem à sua terra, como se estivessem nas décadas de 1960/70.

António Martins Moreira, Advogado, Colaborador do Jornal de Oleiros

* escreve ao abrigo da antiga

Dr. António Moreira

        

 

 

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Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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