O ECO DO SILÊNCIO, por António Graça

O ECO DO SILÊNCIO

Por Eng.º António Graça

Em virtude de o Novo Acordo Ortográfico se encontrar em fase terminal de vida, o autor não reconhece as suas regras

Por motivos que decerto a esmagadora maioria dos portugueses lamenta, a situação do país, sobretudo na sua vertente política, reveste-se frequentemente de episódios atentatórios dos mais elementares princípios da Ética, da Moral e do Bom Senso.

Muitas vezes esses episódios são superficialmente abordados, abafados, distorcidos ou mesmo ignorados, com vista ao seu esquecimento pela opinião pública.

O “Eco do silêncio” propõe-se fazer eco desses factos e episódios, por forma a não caírem no esquecimento, como pretendem os seus protagonistas

banqueiros

O “sem-abrigo”

O presidente de um banco português, que recebeu um apoio estatal para a sua recapitalização no montante de 1.500 milhões de euros, que teve um lucro, em 2012, de cerca de 249 milhões de euros, resultante, em boa parte, dos juros cobrados ao estado português pela dívida pública nacional que comprou, ou seja dinheiro que saiu do bolso dos contribuintes, tem, ao que parece, uma tendência para as afirmações polémicas.

A mais recente e amplamente divulgada, foi a sua referência à naturalidade da situação de sem-abrigo.

O presidente do BPI é, inquestionavelmente, um banqueiro de topo, competência que lhe vem de família, os Ulrich de Hamburgo, estabelecidos em Portugal há cerca de dois séculos.

Por esse motivo, e como figura pública que é, deve ponderar o seu discurso para não cair em situações que lhe conferem uma má imagem pública, e das quais mais tarde, decerto, se arrepende.

O distraído

Um outro conhecido banqueiro da nossa praça, esqueceu-se de declarar, para efeitos de IRS, a módica quantia de 8 milhões e 500mil euros.

De tal maneira se esqueceu, que o facto só lhe regressou à memória após ter sido com ele confrontado no decorrer das investigações do processo Monte Branco. Será que a Autoridade Tributária investiga se o senhor não teve outros esquecimentos anteriormente.

O curioso deste caso será ainda saber que penalizações foram aplicadas ao faltoso, se é que o foram, e se o mesmo terá sido confrontado, à semelhança do cidadão comum, com coimas, ameaças de penhoras, etc., como o seria se fosse qualquer um de nós que se tivesse esquecido de declarar oito euros e cinquenta cêntimos

O Caso Franquelim

 O personagem, de nome Franquelim, passou do quase anonimato para as primeiras páginas da informação

Franquelim, segundo consta do seu mal amanhado currículo oficial, terá começado, ainda jovem, a trabalhar como auditor numa das empresas americanas que, mais tarde vieram a estar na origem da formação da empresa de auditoria Ernst & Young.

As voltas da vida levaram-no a assumir o cargo de administrador da SLN, principal accionista do famigerado BPN.

No âmbito do exercício desse cargo, Franquelim participou como administrador não executivo na administração do banco, tendo assinado, nessa condição, o respectivo Relatório e Contas de 2008.

Franquelim confessou, na Comissão Parlamentar de inquérito ao BPN, que teria tido conhecimento de várias das irregularidades praticadas pela administração do banco, à qual, embora como não executivo, pertencia.

Ao assumir este comportamento, Franquelim violou o dever de reporte ao supervisor (Banco de Portugal), a que estão obrigados, perante este, os titulares de cargos de administração e direcção de instituições financeiras.

Franquelim afirma-se, como é prática comum  nestes casos, estar de consciência tranquila

Em sua defesa saiu o ministro da economia que, talvez por ter chegado recentemente do Canadá, acreditou na história que alguém lhe vendeu de que o seu secretário de estado teria enviado uma carta ao Banco de Portugal denunciando os factos que eram do seu conhecimento.

Conforme se esclareceu depois, a história era falsa e o Álvaro ficou, uma vez mais, mal na fotografia.

Admitimos como verdadeiro que Franquelim não terá tido papel activo na gigantesca e criminosa fraude que é o caso BPN, contudo, ao não reportar de imediato ao supervisor as irregularidades de que tomou conhecimento, colocou-se ele próprio numa posição de irregularidade, eticamente delicada.

Para lhe complicar a situação saiu igualmente em sua defesa o Sô dótor Relvas, cujas manifestações de apoio a alguém são geralmente consideradas como um beijo de morte.

Todo este enredo, a que se juntaram as omissões e irregularidades contidas no currículo do senhor, distribuído pelo governo, demonstram a falta de bom senso, de sentido de estado e de ética de quem está à frente dos destinos, actualmente, e talvez por isso mesmo, sombrios deste país, e torna legítima a dúvida de que na origem desta nomeação possam estar escondidos  interesses inconfessáveis

E, cabe-nos, finalmente, perguntar, não havia mais ninguém capaz para desempenhar o lugar?

A propósito de BPN, felicitamos a SIC pelo excelente trabalho dedicado a este assunto, o qual, ao longo de quatro episódios, traçou uma radiografia desta colossal fraude. Sabe-se que largos montantes de crédito concedido não estão a ser reembolsados pelos que deles beneficiaram, os quais, na maior parte dos casos, agem de má-fé, aproveitando-se da situação do banco para se apropriarem desonestamente dos valores que lhes foram concedidos.

Identificados que estão esses sujeitos, o governo tem a obrigação de acionar todos os mecanismos necessários para a recuperação coerciva desses valores, penhorando os bens desses devedores até ao último cêntimo, já que todos eles, ao que se sabe são detentores de património que deverá responder pelas suas dívidas. Esse mesmo governo que envia os seus aguazis em perseguição, por vezes para além da data do falecimento, de contribuinte que lhe deva um punhado de euros, não pode demitir-se dessa tarefa, sob pena de, se o fizer, se tornar cúmplice dos burlões.

PPP (Parcerias Público-Privadas)

Voltamos, uma vez mais a abordar este tema, uma vez que o governo parece ter esquecido que o famigerado memorando da troika, sempre invocado quando se trata de justificar os roubos cometidos a quem vive do seu salário ou pensão, esse memorando dizíamos, obrigava à suspensão e renegociação dos contratos ruinosos das PPP, os quais têm um impacto extremamente negativo nas contas públicas.

O governo não está interessado em fazê-lo e, de vez em quando, vem proclamar que renegociou a poupança de umas centenas de milhões de euros, o que, na maior parte dos casos, é falso, uma vez que se limitou a transferir encargos das concessionárias para as Estradas de Portugal, cuja situação financeira actual é um desastre.

O governo não quer incomodar os amigos e, por esse motivo, largos montantes dos impostos que pagamos continuarão a ir directamente para os cofres dos privados beneficiados com estas parcerias

A Frase

“Como se pode liderar uma revolução a partir de um hotel de cinco estrelas em Cascais, chegando em carros de luxo? Podemos dizer aos jovens que os compreendemos, que sentimos a sua dor aqui dentro, no meio deste luxo?

(Beatriz Talegon, in reunião da Internacional Socialista, Cascais)

* António Graça, Colunista Especializado, escreve habitualmente a Sua Crónica sob o título âncora de O FAROL. É membro Fundador e integra o Grupo de Amigos do JO.

António Graça

 

 

 

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